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Nos anos setenta, grupos e
movimentos de poesia criaram formas alternativas de
produção e militância cultural no país. Entre eles, o
grupo Uni-Verso, de Campos - RJ, que tinha como proposta
editar obras de autores regionais.
Seguindo na linha de suas próprias perspectivas, o grupo
se transformou em cooperativa de escritores,
atuando na publicação e no lançamento de livros, tanto
quanto no apoio a eventos variados: feiras de livros, lançamento de posters, mostras de poesia
visual, encontros literários e
recepção a escritores que iam lançar seus livros na
cidade, o que, sobretudo, ampliaria sua raia de ação
para a troca de experiências com outros poetas e o
intercâmbio com grupos e movimentos culturais que se encenavam
Brasil afora. Assim é que, em torno do Uni-Verso,
circulavam não só escritores, mas também, artistas
plásticos, músicos, compositores, atores, teóricos da
literatura e intelectuais ligados por objetivos e elos comuns.
Ao longo de suas atividades, o
Uni-Verso foi conquistando
aliados entre produtores culturais, como a folclorista
Ana Augusta Rodrigues, livreiros e livrarias da cidade:
José Pessanha, distribuidor de livros, livrarias Ao
livro Verde, de Ronaldo Sobral, e Noblesse, de Adilson
Rangel, que criou um espaço para encontro de escritores
e leitores.
O grupo contava também com a simpatia e o apoio dos principais
jornais da cidade. A prova disso é que para a edição
do livro Carta Aberta, de Luís Sérgio (Azevedo) dos Santos, o
jornalista Hervé Salgado Rodrigues, proprietário do jornal A
Notícia, o maior periódico do norte-fluminense na
época, ofereceu oficinas, chumbo para a impressão,
planejamento gráfico e revisão realizados por Nilo
Silva, enquanto a prefeitura entrava com o fotolito.
O grupo Uni-Verso tem suas origens ligadas ao encontro de
poetas que participavam, isoladamente, de propostas
culturais diversas: Luís Sérgio dos Santos, Amélia Alves
e Elizabeth Flach (jovens poetas com prêmios em concursos
literários, como também, letristas de músicas
classificadas em festivais estudantis, ainda nos tempos
de faculdade); Joel Ferreira Mello ( professor de
Literatura do curso de Letras da Faculdade de Filosofia
de Campos e responsável pelo suplemento literário do
jornal A Notícia); Prata Tavares ( jornalista e poeta, diretor do Departamento de Difusão Cultural da
Prefeitura de Campos durante muitos anos) e Osório
Peixoto Silva ( jornalista e escritor que mais tarde
receberia o prêmio José Marti, Casa Cuba- Brasil, pelo
conjunto de obra).
As primeiras reuniões do grupo foram realizadas na casa
de Luís Sérgio dos Santos, contando, desde o início, com a
presença de seus fundadores e mais a participação
efetiva da professora Ana Maria Branco Cavalcante, que funcionava como
amiga,incentivadora e secretária e do Sr. Antônio José Coutinho, empresário que
presidia o Goytacaz Futebol Clube e a Casa do Pequeno
Jornaleiro, que, mais adiante, se tornaria o principal
ponto de reunião dos poetas nas manhãs de domingo.
Grupo Universo em reunião na Casa do Pequeno
Jornaleiro - Campos/RJ.
Da esquerda para a direita: Osório Peixoto
Silva, Elizabeth Flach, Antonio José Coutinho, Prata Tavares, Amélia
Alves, Joel Mello e Luís Sérgio
dos Santos.
Sensibilizado pelo idealismo do grupo, Seu Coutinho
dispôs-se, logo de início, a formar uma lista de
cinqüenta assinaturas em um livro de ouro que deu origem
à cooperativa e proporcionou o capital inicial para a
edição do primeiro livro : Passo a Passo, de Prata
Tavares, lançado no Teatro de Bolso, em 11 de agosto de
1973, em evento da programação oficial da Festa de São
Salvador, padroeiro da cidade, com encenação de poemas
do autor.
Os livros editados foram bem recebidos pela comunidade,
sendo, inclusive, utilizados para atividades de pesquisa
e análise literária nas escolas públicas e
particulares e na Faculdade de Filosofia . As
práticas culturais do grupo foram também notícia no
Jornal do Brasil, além de alvo de
interesse de pesquisadores e teóricos da Literatura,
entre os quais, o prof. Ivan Cavalcanti Proença, então
coordenador de edição da José Olympio Editora, que
escreveu o prefácio de Semente, de Elizabeth Flach.
O grupo Uni-Verso editou também Vácuo e
Paisagem, de
Amélia (Maria de Almeida) Alves (1977), prefaciado por
Magdala França Vianna - professora titular de Literatura
Brasileira da Faculdade de Filosofia de Campos e Ato 5 - antologia contendo poemas de João Vicente Alvarenga,
Artur Gomes, Antônio Roberto de Góis Cavalcanti (Kapi),
Orávio de Campos e Prata Tavares (1979). Na edição
deste livro, o grupo aparecia registrado como sociedade
de difusão cultural, após reconhecimento como
instituição de utilidade pública pela Câmara de
Vereadores de Campos.
Sobre o Grupo Uni-Verso, trechos de reportagem histórica
da Folha da Manhã (Campos, 19 -20/03/1978):
Fundado em 3 de
maio de 1973, o grupo Uni-Verso tem por objetivo promover
e efetuar a edição de livros, vendê-los e com o
dinheiro obtido, editar outros livros.
O sistema em que se baseia o grupo é o de cooperativa e
foi iniciado pelo Sr. Antônio José Coutinho que, neste
mesmo ano de 1973, conseguiu arregimentar várias pessoas
da comunidade campista e, junto com elas, fazer o
levantamento monetário para para a feitura do primeiro
livro: Passo a Passo, de Amaro Prata Tavares.
O grupo, que publicou também Semente (de Elizabeth Flach) e Carta Aberta ( de Luís Sérgio Azevedo dos
Santos), conta como participantes deste primeiro ciclo de
publicações com Osório Peixoto Silva ( poeta,
romancista e pesquisador de raízes populares, mais
especificamente da literatura de cordel ) e de Joel
Ferreira Mello (poeta e professor de Literatura, cursando
Mestrado na Pontifícia Universidade Católica) e
pretende abrir horizontes no que diz respeito à
revelação de valores novos, ao apoio ao autor novo de
Campos, como também a re-edição de livros e documentos
da história e da literatura da região, numa tentativa
de re-transformar Campos em foco cultural, promovendo
assim a sonhada descentralização cultural, ou seja a
desvinculação das culturas regionais com relação os
grandes centros que detém o poder e a ação em torno
das iniciativas efetuadas no interior do país.
No
Jornal do Brasil de 15/07/73 (p. 6),
o Uni-Verso é destaque em Poetas se
unem para reviver em Campos os movimentos culturais:
A criação de uma cooperativa cultural
reunindo um grupo de poetas e prosadores, para editar e
divulgar obras de autores locais, é o único movimento
cultural registrado nestes dois últimos anos em Campos,
cidade do Norte fluminense que sempre se impôs no Estado
do Rio por revelar valores para os centros maiores.
A dispersão de valores provocada principalmente pela
interferência de atividades pragmáticas no meio
intelectual é apontada como a principal causa para o
esvaziamento do movimento cultural da cidade, que ainda
tem, na literatura e no teatro, as únicas atividades
remanescentes de uma época intelectual mais produtiva e
atuante.
LITERATURA
O primeiro movimento literário da cidade surgiu em 1954,
com a criação do Clube da Poesia,entidade que
congregava 10 poetas e que conseguiu promover o I Salão
Fluminense de Poesia, duas semanas literárias e uma
revista de vanguarda estética - Horizonte 22 - com
sete números impressos. Promoveu ainda a vinda de
diversos autores de importância nacional, com os quais
eram realizadas palestras e debates.
O Clube de Poesia, através da cotização e seus membros,
conseguiu editar nove obras. Genaro Vasconcelos, Mário
Nilton Filho, A. Barcelos Sobral, Marli de Oliveira,Lourdes Borges
Júdice,Bruno Gargiullo e Nilton Perissé
Duarte eram alguns dos literatos de maior atividade na
época.
O provincianismo da região - as lideranças
conservadoras do Município não aceitaram muito bem as
inovações propostas pelos intelectuais - e a falta de rentabilidade da atividade provocaram, pouco tempo
depois, a desintegração do grupo e a transferência de
alguns dos seus líderes para centros maiores.
SINTETISMO
Em 1959 surgiu o movimento de experimentalismo,
atualizando Campos com as direções de arte do mundo.
Foi o sintetismo, que tentava poesia com palavras de
liberdade. O professor Joel Melo e o jornalista Amaro
Prata Tavares lideraram o grupo, promovendo exposições
em via pública e estabelecendo debates com os poetas
do
modernismo. [..]
O aparecimento da Faculdade de Filosofia e o
aproveitamento dos universitários, principalmente os
oriundos dos cursos de Letras, reativaram por algum tempo
o movimento, sendo então lançado no jornal local - A
Notícia - um suplemento literário dominical. E
ele durou três anos, sob a liderança do professor Joel
Melo, tornando-se em mais um esforço para se rearticular
o movimento literário de Campos, através da
aglutinação de elementos ligados à arte.
A COOPERATIVA
Após esse período de incentivo, os poetas se
conscientizaram de que não valia a pena continuar
espalhando poesia pelos jornais, mas sim grupar todas as
suas obras em livros. Segundo o professor Joel Melo,
faltava alguém que tentasse negociar em termos de
livros, ou seja, que levasse a idéia de uma editora
à frente. É ele quem afirma :
O significado maior do grupo
Uni-Verso consiste exatamente em dar uma resposta a esse
problema,criando uma cooperativa com a devida
sustentação econômica, para lançar os intelectuais
que se gruparam em torno dessa idéia. O grupo, ao lado de valores mais jovens, particularmente saído das
faculdades locais, reúne elementos que são ligados às
tentativas anteriores de renovação literária em Campos.
AS OBRAS
Dos seis livros que serão publicados este ano pelo grupo
Uni-Verso, através da Cooperativa Editorial, cinco
serão de poesia e um de ensaio. O grupo já conseguiu 50
subscrições para o fundo editorial e, além de promover
a publicação de livros, estimulará a realização de
conferências, recitais, palestras,debates e
exposições de artes plásticas. Os livros serão
vendidos em meio à ampla campanha publicitária.
A primeira obra a ser editada, Passo a Passo, de
autoria do poeta Amaro Prata Tavares será lançada em
agosto. Virão a seguir, Semente, de Elizabeth Flach; Prelúdio e Elegia ao Homem e sua Hora,
de Joel Ferreira Melo; O Oco e o Eco, de Luís
Sérgio Azevedo dos Santos; Nova Interpretação da
História de Campos, ensaios de Osório Peixoto
Silva e Vácuo e Paisagem,de Amélia Maria de
Almeida Alves, sempre explorando os temas da região. Apenas dois prosadores nascidos em Campos, mas residindo
na Guanabara, conseguiram se destacar no plano da
ficção nacional: José Cândido de Carvalho e Vilma Areas, esta mais dedicada a contos.

No recorte envelhecido do
Jornal do Brasil, a
história manifesta do Grupo Uni-Verso ainda nos move e
encaminha nosso encontro com a poesia.
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