COM FOGO NOS DENTES
Suzana
Vargas - Qual a função do poeta e da poesia,
hoje ?
CN - Hoje e sempre : o de atalaia.Ou como dizia o Érico
Veríssimo : levantar e manter acesa a lanterna . A palavra se acende,
quando muitos se apagam .Não se escreve apenas - como afirmava Mallarmé
- "para dignificar as palavras da tribo". Também para ajudá-las
a amadurecer de consciência . E ajudar à tribo a ser mais humana.
Suzana Vargas - Um poeta já nasce poeta ou pode
trabalhar para sê-lo ?
CN - Numa parte nasce, noutra se faz .E só é
grande quando o que veio nele consegue dar às mãos ao que
fez vir depois .Nenhuma técnica fará com que o poema voe,
se não tiver asas . E não é somente com asas que um
poema anda : é com o vento do espírito, a claridade .
Suzana Vargas - Qual a importância da leitura
de poesia para quem deseja escrever ?
CN - Fundamental como a água, o pão e o ar
. Ler é descobrir que estamos vivos. Quando lemos , vemos muitas
vezes. Entre elas , o que lendo, somos , vendo. Ou vendo , andamos de viver
.E não criamos, sem ter o mundo a ser criado
Suzana Vargas - Como acontecem os poemas na sua vida
?De que modo são trabalhados ? Que autores podem tê-lo influenciado?
CN - Acontecem como o vento sopra de palavras. E nós
as pegamos. Escrevo primeiro sempre à mão, depois vou ao minicomputador
e após , ao computador .E vai-se escrevendo , mais de tirar e de
ir silenciando. Só se pode trabalhar a luz, trabalhando os olhos
. Assim escrevo os poemas e escrevo também a minha ficção
( a oralidade dos aedos gregos , retornando à Homero . Início
do romance e da poesia. Aquele, aliás , por estar tão sofisticado,
como um bibelô , precisa descalçar os pés na água
pura , e essa, há de ser nascente. É a linguagem que determina
os gêneros, não os gêneros, à linguagem ) .Nâo
há influências e sim afinidades, confluências . A respiração
universal -Dante, Camões. Homero . Volto sempre aos mais antigos,
como o Quixote .As coisas não nos advirão, se não forem
gestadas de alma . Com personalidade , a cicatriz no rosto . As marcas na
árvore .
Sou influenciado, na medida em que me desenfluencio. As coisas chegam à
altura das minhas mãos, porque sabem que são minhas.Trabalho
vários livros em longo tempo, na hibernação. Quando
prontos, cai o que é casca; o silêncio é o fundo.
Suzana Vargas - Poesia e religião. Como uma
reflete outra?
CN
- Não gosto da palavra "religião" (vem de "religare"
- o homem de intermediário, entre os homens e Deus). Prefiro crer
na Obra do Espírito de Deus em nós, o que é Palavra
Revelada. "Terra", em que apenas podemos pisar sem sandálias
, com pés soltos e livres : a terra de Deus. Como entrar no desconhecido
com a palavra da fé, assumi-la vivendo-LA. O Deus que conheço
e me conhece , tornou-se um Amigo que não falha , Pai da Eternidade,
O que nos fala, cheio de sinais : há que aprender Seu idioma. Ah,
se as pesssoas melhor O descobrissem ? Não há felicidade maior
do que a de estar com Ele,ao se revelar a nós , nos revelando. E
a poesia é a infância disso tudo .Ou melhor, é quando
somos agarrados, de vez, por ela.
Jaime Vaz Brasil - Como vês, numa panorâmica,
a atual poesia brasileira?
CN - Não apenas vejo, também sou visto. Mais visto que vejo. Como alguém que está no meio turbulento das ondas. E a praia está distante. O movimento é pendular, sem monarquia ou hierarquia. Dizia Quintana, com razão de que “os poetas não são cavalos de corrida “. Mas morrem na cancha , como cavalos ingleses, na expressão feliz do grande homem ( apesar de controverso e as contradições fazem parte da grandeza )pampeano, recém descansado no meio de seu povo, Leonel Brizola. E por ser um movimento pendular rege-se entre uma poesia inventiva, lúdica , com tradição e ruptura, com visão do mundo – a dos “poetas da poesia “com ou sem verso, que independentemente de gerações vão perdurar . E há os “poetas do verso “ou versejadores, sem poesia - os experimentais e que continuam experimentar não sei o quê , porque nem ele sabem .Desde a invenção da pólvora pelos chineses. Sem nenhuma ligação com o humano , alguns com poemas- dejetos de aves , outros construtores de laboratório , onde as palavras são peças imóveis . O poeta autêntico corre sempre o risco com as palavras , esses não . São assépticos. Aliás , os que perduram, até contra a esperança, são “os ovos –pré-históricos de Macondo, de García Márquez , de onde brotam os dinossauros que se tornam raridades , os que resistem nos direitos primordiais embutidos no coração humano,os que defendem a dignidade da palavra (porque somos palavra ) , os que lutam pela preservação de uma natureza cada vez mais ameaçada , os que sabem que a vida sempre vem em primeiro lugar e que as “coisas óbvias”, pré- históricas , como o amor, a alegria , o prazer de sentir o ar e os rios , ou as flores que se renovam .A história se constrói cada dia, além das guerras e calamidades. Isso é a poesia – onde a educação e a cultura se mesclam, formando o que é importante :a ciência de bem viver, inventando e ajudando os outros a melhor inventarem, vivendo.Todavia, estou certo de que a mais alta ciência, a mais valiosa, é a de Deus, que é Amor. Não falei em nomes . Que eles se fundam na linguagem, como as constelações.E na literatura , como na política, vale o conselho de Getúlio: o de esperar os cavalos passarem.
Jaime Vaz Brasil - Carta aos Loucos é um romance excelente. O Nejar romancista acaba rivalizando, de alguma forma, com o poeta? Muitos leitores não sabem do teu lado romancista...
CN - O meu lado romancista não rivaliza com o poeta, completa-o, como afirmou, certa vez, o inesquecível Antônio Houaiss. Os poemas falam dos sonhos e os romances dos pesadelos do homem contemporâneo,( “Carta aos Loucos, “Riopampa ou o Moinho das Tribulações “( que ganhou o Prêmio Machado de Assis, como melhor romance da Biblioteca Nacional), O Livro do Peregrino ,também publicado em Portugal, compondo uma Trilogia, entre outros, como O Túnel Perfeito e o último deles, A Engenhosa Letícia do Pontal ( D. Quixote de saias), com aba de Luís Fernando Veríssimo ,que saiu pela ed. Objetiva, trabalho de 16 anos.Acabei outra trilogia, ainda inédita , mas é preciso vir à luz, antes.Na França os meus romances estão sendo valorizados e editados . Por que temos que ser primeiro valorizados lá fora ? Contudo,não lamento porque as coisas que existem , um dia virão à tona, quer queiram ou não, com ou sem mídia.Por exemplo, há artigos sobre o meu romance na gaveta do “Caderno de Cultura” ,da ZERO HORA , há cinco meses , na minha amada Porto Alegre , que não saem, talvez perdidos no labirinto borgeano. Resido no meu Paiol , onde, com Elza “ é o mundo inteiro “ e trabalho muito. Estive duas vezes este ano na Itália , fazendo conferências e recitais nas Universidades. Se os meus viventes estão vivos , não adiante muito defende-los. E se não vivem , nada valerá.Está no prelo, um ADAGIÁRIO NA FICÇÃO DE CARLOS NEJAR, apresentado e selecionado pelo grande poeta Paulo Roberto do Carmo. A Rapsódia , A Idade da Aurora: Fundação do Brasil, por exemplo, já têm várias versões. Uma edição em espanhol , traduzida pelo grande poeta cubano Virgílio López Lemus , uma tradução ao inglês e outra ao sueco.E um notável crítico suiço , Gustav Soibemann, colocou-o entre os livros do século, entre 1890-1990, num volume sobre a Literatura Hispano-Americana , editado em Madrid, pela editora famosa, que é a Gredos .Recentemente saiu uma tradução de meus poemas em italiano, pela ed. Multimedia, de Salerno, na trad. de Vera Lúcia de Oliveira e “Arca da Aliança “saiu pela ed. Pergaminho, este ano, em Lisboa. No Brasil , há um preconceito ( dizia Einstein que é mais fácil desintegrar o átomo, que o preconceito), tanto para poetas que ficam romancistas, como vive-versa . Esquecem que Homero foi o primeiro romancista . E que o escritor original, como assevera Proust ,tem a mesma empreitada de Homero . O romance contemporâneo, com exceções , tanto no Brasil, como no Exterior, não pensa, só confabula . Não é a linguagem que obedece aos gêneros, mas os gêneros à linguagem . Que é a nossa Casa. No romance há a estória, a história, o ensaio, a poesia ,o silêncio, a sátira, o teatro, a alegoria do mundo . E uma oralidade (“o que tem mil anos é contemporâneo “- afirmava Saint-John Perse, aliás em excelente versão de “Amers”, feita por Bruno Palma ), igual a dos aedos gregos e que vige na literatura atual da África , enquanto a Européia se afunda ( sempre com exceções).”Não se pode trocar de olhos “, como observava Flaubert. A globalização deveria ampliar a cultura e a educação dos povos, não apenas para impor nova ordem econômica , a dos mais poderosos.Porque não inventamos uma nova civilização, a dos nossos sonhos que rebentam a realidade ?
Jaime Vaz Brasil - Quais foram as mudanças no escritor (e nas editoras) depois da bênção da Academia Brasileira de Letras?
CN - Ajudou a descobrir , o que não supunha, o administrador dentro de mim. Tentei executar como Secretário-Geral e Presidente em exercício, no ano-chave de 2000: o planejamento e edificação de uma nova biblioteca ,a maior e mais moderna da América Latina , voltada para a comunidade ( a que a ABL está ligada )não como depósito de livros, mas a biblioteca no sentido borgeano, relacionada ao mundo pela internet , unindo-a à Biblioteca Nacional e a um sistema de multimídia e multi-conferência,cujo projeto foi iniciado na gestão do grande presidente que foi o Prof. Arnaldo Niskier e inaugurado no ano passado na presidência de Alberto Da Costa e Silva. Também começou na minha breve gestão, a publicação de novo tipo de obras acadêmicas, com o volume “Camões e Cervantes “,de Osvaldo Orico,Ed. Topbooks e ABL ,(2000), saindo do formato provinciano, tão bem continuado , hoje, pelo Presidente Ivan Junqueira . Além de uma visão voltada para a América Latina, desde um ciclo de conferências sobre Borges, Fuentes e Rulfo, até a hospitalidade ao notável projeto “ O Livro e o mundo, da Fundação da Biblioteca Nacional, com presença de pensadores de renome na ABL .Tive a alegria de publicar discos dos poetas da ABL , como Lêdo Ivo, Ivan Junqueira, Alberto da Costa e Silva e deste que vos fala. Confesso ,entretanto, que , para minha obra, editorialmente nada mudou. Nem no meu processo de criação. Digo com Tristão de Athayde : “Entrei na Academia, mas a Academia não entrou na minha vida “.Vou duas vezes ao mês e uma no Conselho Nacional de Cultura, para onde fui – o que me honra – eleito, pois amo poder participar da nova abertura à Educação, sob a direção desta figura notável , que é o Ministro Tarso Genro.Assim, vivo no meu Paiol da Aurora , o suficientemente distante da cidade de Vitória e de Guarapari , entre árvores, livros, cachorros, a roda de carreta, a canga , a mesa pampiana para os churrascos ,junto à amada Elza .Que mais espero ? Moro diante de um mar que parece o de Ulisses.E lembra com o Vento Sul ( o Minuano) e as coxilhas .
Jaime Vaz Brasil - E a contribuição da internet aos escritores iniciantes e consagrados, como avalias? O que achas que ainda virá por aí, a partir dessa maior facilidade de troca e divulgação?
CN - É inegável a contribuição da internet, cada vez maior . Inclusive na elaboração, venda e divulgação de livros .Inexistindo fronteiras .Fabrício , meu filho poeta ( há um outro, o Rodrigo que se esconde na Promotoria de Lajeado) tem insistido na criação de uma página e eu resisto por ora. Mal posso comigo de trabalho.Mas descobri o computador, aos poucos.Quando o comprei, deu-me vontade de atirá-lo pela janela. Hoje integra minha existência.Não deixei de escrever a mão, sempre, pois preciso sentir o pulsar das palavras . Depois é que utilizo o mini-computador e na versão final, o grande.É preciso que as palavras durmam no intervalo.Recordo-me do que escreveu Byron, poeta e aventureiro :”A árvore do conhecimento não é a árvore da vida “.A informação não basta . Temos é que aprender a ver, vivendo. A palavra que viemos para dizer e apenas nós a dizemos.
Entrevista inserida em 10/09/2004.