OPINIÕES SOBRE A OBRA DE AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA:


"Os críticos dirão da importância deste livro (“Canto e palavra”). Eu só posso fazer votos para que seja lido, meditado, discutido, porquanto me parece que abre um caminho novo e, se não traz soluções formais, aproveita as melhores.”

Sérgio Milliet - crítico de literatura e de arte

“Não pode haver nenhuma dúvida: ele é não só um poeta do nosso tempo, integrado nos seus problemas e perplexidades, nas incertezas sucessivas em que as certezas se resolvem, mas é também o grande poeta brasileiro que obscuramente esperávamos para a sucessão de Carlos Drummond de Andrade. O segredo de sua extraordinária qualidade como poeta está em que ele é, antes de mais nada, um intelectual de alto gabarito, sem nenhuma das ingenuidades mentais que mantêm a produção corrente no nível rasteiro das pequenas emoções domésticas e nas dimensões microscópicas da autobiografia insignificante.”

Wilson Martins - crítico, historiador, autor de História da Inteligência Brasileira, 7 volumes)

“Affonso Romano de Sant’Anna se abre à vida, em sua totalidade, do modo mais feroz, digamos assim, e longe de se situar ‘nos subúrbios do Velho Mundo’, coloca-se em pleno continentalismo do Novo Mundo, com suas aspirações universais e suas frustrações patéticas. (...) Depois de Basilio da Gama, de Santa Rita Durnao, de Gonçalves Dias, de Alencar, de Raul Bopp, de Cassiano Ricardo, de Mário de Andrade, de Darcy Ribeiro, Affonso Romano de Sant’Anna retoma o tema indianista e o leva a um horizonte planetário, a que nenhum de seus predecessores o levou. Seu poema é um ponto alto em nossas letras. E até em nosso momento político, como reação contra sua mediocridade e conformismo.”

Tristão de Athayde-crítico

“Affonso Romano de Sant’Anna serviu como poeta nas tropas de choque dos que combateram em campo aberto a ditadura militar. ‘A implosão da mentira ou o episódio do Riocentro’ exemplifica a ousadia da denúncia e a convocação à desobediência civil que é, em si e por si mesma, uma evidência da rebelião em marcha (não uma ‘rebelião latente’, mas o Basta! Final… O diagnóstico poético da verdade, ao tornar-se politico, transcende aos dados de fato da consciência”

Florestan Fernandes - Folha de São Paulo - 12.8.1984

“Grande poesia realmente (“A grande fala do índio guarani”). Um poema novo e ao mesmo tempo antigo, que vem de nossas origens até os dias de hoje e passa em revista o continente latino-americano e o tempo em que vivemos, o passado e o futuro”.

Jorge Amado - romancista


“Trata-se de um livro excepcional (A grande fala...), que li dum fôlego e quero reler de quando em quando. Na minha opinião, com esse livro, V. coloca-se na primeira linha da poesia de língua portuguesa. A abundância , a força, a coragem, a largueza de visão, uma ampla cultura vivida e mobilizada conferem uma grandeza épica e trágica à denúncia do tempo em que somos, divididos e ansiosos, vítimas de novas tiranias. Esta sua poética exprimi-nos a todos apesar de suas raízes latino-americanas, e toca-nos no mais fundo de nossas razões de revolta e também no clarão duma esperança a que nos apegamos”

Jacinto do Prado Coelho-crítico e historiador português

“Poema da América toda que vai ser ouvido, em vaticínio, em toda parte. Esta bela fala já está à espera dos “ Englishers” e “Spanhisers” (pra não dizer tradutores) que farão conhecer a corajosa mensagem. Como metáfora, mundo reversível, índios antigos e modernos. Conquistas e desafios”.

Fred Ellison - professor de literatura espanhola, latino-americana e brasileira , Universidade do Texas, Austin,USA

“Poesia sobre Poesia” é um desses livros inteligentes, críticos e polêmicos, que de vez em quando sacodem a pasmaceira da cordialidade administrativa em proveito geral”

Helio Pólvora - crítico e contista

“Romano de Sant’Anna conhece como poeta e como teórico a crise que afeta a poesia. Participou dos turbulentos movimentos de vanguarda que abalaram este país nos anos 50 e hoje cultiva o verso caudaloso, combatido então. Esta transformação não é, em Romano de Sant’Anna, ditada pela moda. Todos os passos do seu fazer poético são acompanhados por angústia e madura reflexão.

Donaldo Schuller - professor da UFRJ, crítico

“No todo, uma coisa alvissareira - a redescoberta do verso, o versejar sem complexo (e que se dane a beata pudicícia da vanguarda) da linha melódica, com ou sem estrofe e rima. Às vezes o metro é regular; outras, refina esse tipo de versículo partido que o Pound dos “Cantos” consagrou, mas que Affonso soube tornar bem seu.”

José Guilherme Merquior - crítico


“Recebi e agradeço o seu belo - belíssimo poema (“Que país é este?”), que tenho lido e relido, antes de lançar na circulação como pediu. Creio que é das melhores coisas que você fez, sob todos os pontos de vista. Tem uma força de indignação que se traduz de modo perfeito na linguagem que encontrou, onde o sarcasmo e a denúncia estão na própria organização da sonoridade antes de estarem na força do conceito e da imagem. Sem o menor ar de refrescamento ou “exercício” você dá um verdadeiro show de todos os recursos, com quase-rimas trançadas que além cedem o lugar a assonâncias; com os jogos-de-palavra e as imagens ultra-expressivas, dando aos versos uma espécie de regularidade própria na variedade dos ritmos. Não lembro de ter lido na poesia brasileira recente coisa que me impressionasse tanto pelo alcance e a fatura”.

Antonio Cândido -crítico e historiador- carta de 2.9.1983

“A poesia de Affonso Romano tem verdadeiro fascínio pela construção mítica da História(...) É o caso do longo poema “A Catedral de Colônia” que dá nome ao seu livro mais recente. A idéia de escrevê-lo foi inspirada pela conturbada história da construção da própria catedral, iniciada em 1248 e somente concluída seis séculos depois. Affonso lança mão de uma instigante metáfora, sabendo que os alemães associavam o fim do mundo à conclusão da catedral - e ao fato de ter sido o único monumento de Colônia que resistiu às trepidações da II Guerra Mundial. À maneira de “A Grande fala do Indio Guarani (1978), trata-se de um poema cósmico no qual transitam os seres e suas guerras, simbolizados pelas pedras que constróem um destino: ”Esta catedral é o corpo vivo da História/e a história do próprio Eu”

Luis Felipe Fortuna - poeta, crítico e diplomata

"Na condição de um dos maiores nomes da literatura brasileira, Affonso Romano de Sant'Anna demonstra ser, nessa obra, não só um guru da crônica, mas também um orientador de como produzir textos literários de qualidade. Dividido em duas partes - uma teórica e outra de teoria aplicada - A Sedução da Palavra é imperdível por todos aqueles que se interessam pelo ofício e arte de escrever e querem iniciar-se neles. Preciosas dicas e excelentes exemplos disso são encontrados no livro, que também é primoroso em matéria de projeto gráfico”

Leticia Mallard-crítica e professora Universidade Federal de Minas Gerais


Affonso tem uma facilidade admirável para versificar e saber fazer frases no bom sentido, à la Eliot, como temos poucos. (...) Affonso está falando conosco. Muito poucos autores falam a nossa língua, a língua de gente, do concreto de nossas vidas (...) ‘O lado esquerdo do meu peito’ é um livro a se ter na biblioteca, para quem ainda acredita na vida das palavras”-

Paulo Francis, O Globo- 5.8.1992


“Aqui jaz um século/ semiótico e despótico/ que se pensou dialético/ e foi patético e aidético”- Cito do poema de Affonso Romano de Sant’Anna ‘Epifafio para o século XX’ do livro ‘O lado esquerdo do meu peito’ Rocco, Rio, 212 págs. O poema é excelente., Cito mais: ‘século vanguardista/marxista, guerrilheiro/ terrorista, freudiano/ proustiano, pyceano/borges-kafkiano./Século de utopias e hippies/ que caberiam num chip’. E a última frase que cria uma epifania de nossa pequenez que raros poetas brasileiros apreendem, por insofisticação. Em estudo que se inclui desde logo entre os clássicos da matéria (BARROCO, DO QUADRADO À ELIPSE) no Brasil e no exterior, Affonso Romano de Sant’ Anna situa-se no plano dos grandes tratadistas internacionais, o que não é comum entre nós”(…)

Wilson Martins- O GLOBO- 13-1-2001

“ A Grande fala” é um poema emblemático, uma abertura além de “Poesia sobre poesia”. Voltamos à era do canto do povo. Seu intérprete: o poeta Affonso, um dos maiores de sua geração, agora em apogeu”-

Fábio Lucas - Crítico

“Quando se escrever a história da poesia brasileira produzida durante o período da ditadura instalada com o golpe de Estado de 1964, dois livros surgirão obrigatoriamente como síntese maior do momento: o “Poema sujo” de Ferreira Gullar e “A grande fala do índio guarani perdido na história e outras derrotas” de Affonso Romano de Sant’Anna. Enquanto aquele foi um poema escrito essencialmente no exílio a que seu autor foi jogado, este teve como ponto de partida talvez até mesmo um exílio mais difícil e doído que é o exílio interno”-

Antônio Hohlfeldt - crítico e historiador


“A contemplação da catedral que leva ao fazer poético apontar para a perplexidade diante do mistério simbolizado por esse monumento medieval. A escrita como resposta possível ganha dimensão metafísica. O poema, então, aparece como um modo de ser no mundo, na história, como um modo de estar na linguagem. Neste sentido, “A catedral de Colônia” é homóloga ao poema “A máquina do mundo”, de Drummond, por sua vez releitura - homenagem moderna a Camões”-

Renato Cordeiro Gomes/ Vera Follain Figueiredo - professores e críticos.

“Onde a união entre os poemas sociais e a lírica amorosa? Esta união pode ser encontrada na paixão. Quando fala no país miserável ou na mulher diante de seus olhos, o poeta está tomado de um mesmo entusiasmo pelo objeto presente”.

Miguel Sanchez Neto, critico e romancista.

SOBRE A POESIA REUNIDA (1965-1999) DE AFFONSO ROMANO DE SANTA’ANNA

Gerson Valle
(Sant’Anna, Affonso Romano – Poesia reunida (1965-1999), 2 vols., L&PM Pocket, 2004)

No poema “Pós-amigo” (título - paráfrase de “Pós-tudo”, poema de Haroldo de Campos) do livro “Textamentos”, de 1999, Affonso Romano refere-se a um ex-amigo, tornado inimigo, dizendo-o “pós-moderno”, enquanto ele se considera “pré-antigo”. Rivalidades, piadas e até ressentimentos à parte, no entanto, a primeira observação que faço à obra reunida deste nosso grande poeta, com a licença por contrariá-lo, é a de que, ao contrário da classificação de “pré-antigo”, considero-o já desde seu lançamento, como um “pós-moderno avant la lettre”. Sim, em 1965, quando sai o primeiro dos livros de poesia aqui reunidos (“Canto e palavra”), não havia ainda sido cunhada a expressão “pós-moderno” no sentido que o fim de século a empregou, mas nele já se encontravam algumas de suas características fundamentais. A mais importante: Affonso Romano de Sant’Anna repassava, por sua poesia, os vários caminhos que a Modernidade traçara, e por eles elaborava sua reflexão, a qual, com o desenvolvimento de sua obra, vai girando cada vez mais sobre a contemporaneidade.

É pertinente lembrar que em sua mocidade, no início da década de 50, o Modernismo brasileiro mal completava 30 anos, e muitos de seus poetas, como Drummond, Bandeira, Cecília, Jorge de Lima, Murilo, Vinícius, Schmidt, não só estavam vivos como em plena atividade. O Modernismo, como um todo, trouxera uma liberdade formal maior à Poesia brasileira, acentuando o lirismo espontâneo como traço até nacional. Mas, já a geração de 45 retornara a certo rigor formalista, sendo que se destacava então um poeta que sai do lado mais “realista”, “seco”, nada místico de Drummond (que era o poeta que causava maior hegemônica admiração entre os nossos escritores, inclusive em Affonso), que foi João Cabral de Mello Neto. João Cabral pretendia que a Poesia podia prescindir do lirismo, sendo a palavra a definidora bruta e precisa dos conceitos que enfocava. Acresce-se a isto que a década de 50 trouxe o rompimento de todo com o verso tradicional, com os concretistas, destacando-se a palavra em sua colocação quase ilustrativa como realizadora do poema. É deste contexto de “lirismo espontâneo modernista” em oposição à “definição precisa da palavra” que se arma o primeiro livro de Affonso Romano: “O homem primeiro é o canto./ Só depois se organiza/ se acrescenta/ se articula,/ se clareia de palavras/ e dissipa o que são brumas.”

Com este achado, chamando-se “duplo” por ser “canto” e “palavra”, Affonso Romano conciliava as posições antagônicas trazidas pelos vários modernismos, absorvendo todas as correntes, o que viria a ser, posteriormente, uma posição pós-moderna, no mundo da Letras. E ele assim se torna o poeta dos contrários, por excelência, aparecendo a todo instante em sua obra tal colocação, que por indeciso se faz irônico: “Jovem, indignado, / tentei com engenho & arte / separar do trigo / a outra parte. / Já não consigo. Renegar o joio / é ter o trigo empobrecido” (in “Edital”); “A certeza, sei, é desumana, / é carapaça, verniz, mentira, máscara / e incapacidade / - de viver o drama” (in “Certeza”); “Como a história do sim / contém a história do não” (in “O Muro de Berlim”); “Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis. / Não deveria, dizem. / Me esforço. Aliás, já nem me esforço. / Abertamente me ponho a admirá-las. / Não estou traindo ninguém, advirto. / Como pode o amor trair o amor? / Amar o amor num outro amor / é um ritual que, amante, me proponho” (in “Fascínio”); Chega mesmo a considerar que a sua “ironia”, consistente na aceitação dos contrários, é o que melhor corresponde ao mundo em que vive (sem dúvida, insisto, pós-moderno), ao lembrar em um poema intitulado “Poética 1940” (em que a alusão a Drummond é muito clara) que “Naquele tempo / o mundo cabia em frases / que não comportava ironias. / Estava tudo decidido: / o mundo era uma rosa / em clara geometria. / O mundo era uma rosa / e o povo / - poesia”. Aliás, esta visão de um período drummondiano como ultrapassado ainda é mais notável porque Drummond, sem dúvida alguma, é, de certa forma, um “pai espiritual” de Affonso Romano (e de grande parte de nós, poetas brasileiros). Se ele deixa transparecer, em tantos poemas, uma certa admiração humanística pelo seu próprio pai, há sempre como que um sentimento de que, nele, ele aprendera uma postura religiosa (metodista) que não parece mais conviver com sua cosmovisão modernista. E, de certa forma, o Drummond, que se dizia agnóstico (apesar de acrescentar não gostar da palavra, por achá-la pernóstica) parece vir substituir a sua filiação “espiritual”, com a poesia de um “lirismo prosaico” como o “esta noite, este cognac tornam a gente comovido...” e da admiração das pernas femininas sem mais o idealismo romântico. Mas, mesmo assim, Affonso encontra brechas em tais “comportamentos” da Modernidade, ao observar que o mundo, em poucas décadas, deixara para trás as “certezas” socialistas, utópicas, reformistas... Ele já não é Moderno, como fora seu amado Drummond (de que construiu sua tese de doutorado: “Carlos Drummond de Andrade, o poeta ‘gauche’ no tempo”). Ele já é pós, no mundo que se globaliza com pouca clareza ideológica... E por aí se vê sua posição de sempre admitir antagonismos, com certo tom de ironia sobre a existência...

Tal “ironia” como pressuposto da contemporaneidade que passou pelos caminhos contrários das “modernidades”, da aceitação do joio e do trigo, aliás, encontra momentos notáveis, como este achado: “Aqui jaz um século / onde se acreditou / que estar à esquerda / ou à direita / eram questões centrais” (in “Epitáfio para o século XX”). O jogo dos contrários, querendo com tudo se identificar, é tão grande, que chega a negar até mesmo esta possibilidade: “Não se pode esgotar o dicionário / ou amar completamente / - tudo que encontramos” (in “Palavras e paisagens”).

Por vezes, passa-me a idéia de uma tal aceitação dos contrários, que muito tem de enaltecedor de todas as questões existentes, conciliador poético e nobre (e que traz, talvez, consigo, certa política de “mineiridade folclórica”...) deve-se à condição de professor, aquele que estuda as matérias para colocá-las, explicá-las aos alunos, e, dialeticamente fazer valer os pesos dos lados contrários, para não interferir com prejulgamentos... Mas é uma postura “pós-moderna”, de quem vive a desilusão das ideologias, tendo passado por elas, vivenciando-as, e temendo-as... A interferência do professor de Literatura no poeta, sem dúvida é nítida em seu livro de 1975, “Poesia sobre Poesia”. Aí, inclusive, a carga literária de conhecimentos vem com tal força, que alguns poemas contém explicações em muitas notas de rodapés, o que pode ser visto, também, como irônico, do poeta moderno que não encontra mais o verso fechado, metrificado, caracterizado, e sai da poesia, assume a prosa até mesmo em seu aspecto ensaístico!!!, mas sempre rodeado dos temas poéticos em sua “metapoesia” de auto-explicação, alusão, vivência livresca... A década de 60 trouxe, no Brasil, o poema “práxis”, o “poema processo” e alguns outros denominadores de práticas poéticas de tentativa renovadora. Affonso, por outro lado, viveu por esta época, alguns anos nos Estados Unidos, onde a poesia dos “beatniks” estava em alta. Ao professor, eterno aprendiz deste mundo, nada escapa. Aproxima-se de todas as experiências pós-concretas, e as critica, fazendo-as (o que integra bem sua atuação contraditória e que insisto ser “pós-moderna”) como em “Poema estatístico” (“7 de março de / 1967/ 7 pontos subiu o dólar no Dow Exchange / 45 mil exemplares vendidos pelo Free Press”, etc), “Aritmética” (“SOMA UM” – elenca em fileira 10 carros de várias cores e põe como resultado “10 carros coloridos”, e assim por diante) “Four letters words” (onde, de maneira concretista, enfileira palavras de 4 letras, em inglês, como VIET, BOMB, etc). Nestas experiências, como deixa claro em alguns “poemas-quase-ensaios” há um desejo do poeta em contrariar certa “contemporaneidade” que julga estar morta a forma poética, como a História, como Deus, enfim como todo o acúmulo da cultura ocidental (e sobre isto, mais recentemente, Affonso Romano escreveu um poema explícito e, como cronista, não se cansa de demonstrar a fatuidade de um Duchamp ao levar as artes plásticas para a “conceitualização”, terminando, praticamente, com a obra enquanto matéria significativa viva, tal como, de certa maneira, os concretistas paulistas fizeram com a Poesia). Para tanto escreve um “Soneto com forma” (que consiste nos 14 tradicionais versos do soneto, onde apenas se repete a palavra “forma” – 7 vezes em cada verso), “Soneto com fundo” (a mesma coisa com a palavra “fundo”), “Soneto com forma e fundo” (idem), “Soneto da rosa” (ibidem). Sobre tais “demonstrações”, não vejo uma saída muito louvável à crítica que concretistas ou outros “istas” pudessem fazer à forma soneto, mesmo porque não há nada (fora os 14 versos) que aí se aproxime do velho soneto, inclusive, pode-se perceber não ter havido sequer a preocupação métrica. Nesta seqüência, que ainda possui um texto em 14 linhas bastante ensaísticas, se evidencia a didática professoral mais que a Poesia, que acaba por se confundir com as possibilidades trazidas pelos modernismos em sua liberdade de feitura e forma. Atitude que não deixa de ser pós-moderna...

Ao lado do professor, caminha também o “homem do mundo”, “viajante”, “conhecedor de não só grande parte de literaturas estrangeiras, mas também de costumes e artes de outros povos, onde tem viajado e vivido. Toda a experiência de vida e Literatura, em Affonso, é traduzida em Poesia. E por ela refletir a nossa contemporaneidade, não despreza nunca de todo as experiências do seu tempo, por mais que as critique. Acredito ser tal reflexão sobre a contemporaneidade o que existe de mais significativo nas Artes e Literatura. Por ela se expressa o que somos com suas linguagens próprias, bem mais genéricas e sintomáticas que as ciências, de uma forma geral. Daí a importância de nosso poeta. É curioso, em decorrência disto, a falta de preocupação em adequar-se a formas do passado, não compondo, p. e., poemas metrificados, e até observa, em “Bandeira revisitado” que, quando adolescente, ao ler Manuel Bandeira, irritava-se com o encontro de repetições como “cai a tarde”, “põe-se o dia”. São, na verdade, colocações “passadistas”... Apesar dele expressar a sua aprovação tardia a tais frases, não são muito do feitio de seus poemas. Curiosamente, aliás, Bandeira foi um dos primeiros poetas brasileiros a tirar proveito da linguagem coloquial para acentuar-lhe a poesia. Chegou mesmo a escrever um “Poema tirado de uma notícia de jornal”. Affonso Romano não só tem poema tirado de notícia de jornal, mas de “breve História da Ciência”, “de um livro de Ciências”, “de uma entrevista de Segóvia”... O coloquialismo, pode-se dizer, é a marca por excelência de seus poemas (e o que realça a pujança de contemporaneidade e o interesse pelo público, quando a Poesia sofre, como a maior parte das artes, de um distanciamento elitista que a vem afastando de seus leitores). Acredito que seja a partir, sobretudo, de seu livro “Que país é este?” (1980) que a sua linguagem direta, meio prosaica, mas sempre com os efeitos próprios da Poesia, como rimas (não obrigatórias em finais de versos, podendo ser internas, e mais sonoras que perfeitas), metonímias, metáforas, etc., tenha encontrado em definitivo o estilo e a grandeza deste poeta. As disposições das palavras na página seguem, de certa forma, o subjetivismo com que elas tocam os temas, o que, de certa forma, pode lembrar o concretismo, mas, na verdade, este é um efeito de um modernismo bem anterior aos irmãos Campos e Pignatari - veja-se Apollinaire, p. e., no início do século XX... O que mais caracteriza a sua Poesia, e que lhe dá uma aproximação maior do público (o que é de se desejar, pois para quem se há de escrever?) é a compreensividade de suas imagens, das colocações reflexivas e realistas. E a pertinência de cada poema! Não há divagações de quem não sabe sobre o que escreve (como se tornou comum após os surrealistas terem “inventado a escrita automática”, ou ainda antes, quando Mallarmé acentuava o caráter sonoro sobre o significado do verso). Sabe o que quer transmitir. Cada poema de Affonso Romano dá seu recado. Diz a que veio. Vive! Neste livro de 1980, mais do que nunca, a realidade do brasileiro, sua política, economia, sobrevivência, são abertas como feridas, e fazem com que o poema entre na panela de sua dieta. Que melhor fim pode ter uma obra de arte, que a participação na vida de seu público?

O realismo, como afirmo acima, teve um pouco da participação de João Cabral, enquanto se formava. É interessante observar que em João Cabral as palavras estão sempre sendo definidas. As coisas precisam ser precisas. Está lá, no livro de Affonso de 1965: “A palavra, ao contrário,/ é o ato claro,/ o talho e o atalho/ no objeto,/ embora seja como o corpo/ um ser concreto/ e como o mito/ - um ser incerto.”

Esta forma de definir seu objeto, no entanto, vai se distanciando de João Cabral, perdendo o realismo imediatista, para se configurar no “canto”, que é o sentir interno do poeta. E isto se dá, sobretudo, metaforicamente. No longo poema “A Catedral de Colônia” (elaborado entre 1978 e 1985), esta é definida como “um monte de trigo em prece”, “espanto”, “cachoeira de rezas”, “clausura das quedas”, “grafito de Deus”, “o canto intercalado”, “a madrasta dos espelhos/ de nossos contos de fadas”, “aquele manso unicórnio / que pousa em colo virgem”, “o Gulliver naufragado / numa ilha, estranho e só”, “o dragão inconsciente / que dorme dentro em nós”, etc. Em “A grande fala do índio guarani” (1978) o índio não está presente com sua cultura óbvia como num Gonçalves Dias. Ele, ao contrário, procura “Onde leria os poemas de meu tempo?”, para, passando pelos conceitos e realidades que o cercam (índio mais por ser daqui do que por questão étnica), a sua grande fala vai se transmutando, como a interiorizar o que, de fato, se passa por ele, seu tempo e seu país: “Agora que o texto já foi o perverso nada e o inverso tudo/ - como ler a poesia/ que se anuncia/ como a poesia de agora?/ - como ler a poesia/ que se esconde/ na prosa que nos aflora?”

“A Catedral de Colônia”, aliás, pode ser vista como a colocação mais emblemática destas questões centrais do pós-modernismo: como se ler poesia, depois da aproximação da prosa e que as formas artísticas se dissolveram aproximando-se do nada? Estes são seus problemas estéticos centrais, e que, sem dúvida, são pós-modernos. Foi em Colônia que Affonso foi estudar a “carnavalização” nas teorizações de Bakhtin, e, a pretexto do grande monumento alemão medieval que sobreviveu às destruições da 2a Guerra, ante ele se coloca, metonimicamente refletindo sobre todos os seus conhecimentos, voltando mesmo o menino metodista que foi em Juiz de Fora, e organizando um verdadeiro desfile carnavalesco brasileiro: “E diante da Catedral / confundo o espaço e os solos, / não canto Bach ou Beethoven / mais pareço um nordestino / durante o forró de Cristo, / cantando um baião de Haendel / com a fé na sola do pé. / Calvinista tropical, / misturo Lutero e frevos / e sou um índio tamoio / vestido de John Wesley. / Por pouco a nau catarineta / e a euforia dos crentes / vira folia de reis.”

Aliás, seus conhecimentos sobre a carnavalização vão beneficiar também o crítico literário que ele é também, em análises estruturais profundas de “D. Flor e seus dois maridos” e “A morte e a morte de Quincas Berro d’Água”, de Jorge Amado, mesmo que, pessoalmente, coloque em dúvida alguns critérios das críticas modernistas. Ele nelas se aprofunda (como também é notável sua análise sobre “O Cortiço”, de Aluizio Azevedo - todos trabalhos publicados em “Que fazer de Ezra Pound?”, Imago, 2003). O poeta, o ensaísta, o cronista, o professor, não se distanciam nunca das colocações segundo critérios das modernidades que estuda e aplica, mesmo se as criticando... Esta também é uma função da chamada pós-modernidade! Se não, o que seria o momento em que vivemos, se sobre ele não refletíssemos?

Há, no entanto, ao lado do intelectual Affonso, indubitavelmente, o ser de grande sensibilidade que mantém sua Poesia. E ela é constante, aparecendo-lhe em todos os instantes, dando-lhe, inclusive, pena, quando não tem como registrá-la. Ela o persegue mesmo na cama ou no trabalho burocrático, conforme confessa em versos. Sobre todos os assuntos, ela se põe na frente, e lhe dá vazão a realizar-se plenamente. “O lado esquerdo do meu peito (Livro de aprendizagem)”, de 1992 e “Textamentos”, de 1999 são os dois livros que encerram a reunião aqui tratada, e como que em um clímax de amadurecimento de um Poeta Maior, constituem-se de muitos poemas que deveriam já se ter integrado, se fôssemos um país de leitores mais constantes de boa Poesia, à fala comum de nossa língua, com seus achados, colocações reflexivas originais e profundas, encantamentos... Na forma coloquial que a naturalidade de seu lirismo espontâneo ocorre, todas as suas experiências se tornam tocantes, desde a emoção causada pelo concerto para oboé de Mozart ouvido em casa, até o constante diálogo que mantém com a Morte, como se fosse uma velha amiga que não lhe causa temor, passando pelo encontro de ambientes e pinturas renascentistas da Toscana, ou mesmo pela evocação histórica dos muitos lugares por onde viaja. Com seus versos, nós, leitores, também viajamos, carregados no fluxo de sua sensibilidade.

E esta, a verdadeira magia do grande Poeta. Faz com que um neo-romântico, como eu, com minhas convicções predominantemente cristãs (saídas de minha formação cultural católica), desejando sempre voltar-me aos ideais utópicos para que a Justiça aproxime-se social e moralmente da Humanidade, possa se encantar, mesmo quando, racionalmente, discorde das conclusões de um Realismo desprendido de uma concepção mais abrangedora das dimensões humanas atemporais. Mas, tenho a consciência que estes tempos, chamados (erroneamente, como todos os tempos são chamados) de pós-modernos, não levariam um François Villon a manifestar-se com mais otimismo que nosso Affonso Romano. E tanto um quanto outro aguçam minha sensibilidade acentuando nossas falhas. Posso discordar dos princípios “clausewitzianos” em “O último tango nas Malvinas”, p. e., mas sei que o poema contém verdades sob planos imanentes, sendo bem colocada a questão de que “Os homens amam a guerra. Por isso / se armam festivos em coro e cores / para o dúbio esporte da morte”; e não se pode deixar de apreciar uma tal “chave-de-ouro”: “-Acabará a espécie humana sobre a Terra? / Não. Hão de sobrar um novo Adão e Eva / a refazer o amor, e dois irmãos / -Caim e Abel / - a reinventar a guerra.” Por razões similares, faço questão em terminar reproduzindo uma obra memorável, cuja ironia bem reflete os rumos injustos de nossa História, acentuados, cada vez mais, na irracionalidade contemporânea:

NOVO GÊNESIS

Affonso Romano de Sant’Anna

No primeiro dia
o Demônio criou o universo e tudo que nele há
e viu que era bom.

No segundo dia
criou a cobiça, a usura, a inveja, a gula, a preguiça, a soberba, a ira
a que chamou de sete virtudes capitais
e viu que era bom.

No terceiro dia criou as guerras.
No quarto dia criou as epidemias.
No quinto dia criou a opressão.
No sexto dia criou a mentira
e no sétimo dia, quando ia descansar,
houve uma rebelião na hierarquia dos anjos
e um deles, de nome Deus,
quis reverter a ordem geral das coisas,
mas foi exilado
na pior parte do Inferno – os Céus.

Desde então
o Demônio e suas hostes continuam firmes
na condução dos negócios universais,
embora volta e meia um Serafim, um querubim
e algum filho de Deus, desencadeiem protestos, milagres, revoluções
querendo impingir o Bem onde há o Mal.
Porém não têm tido muito êxito até agora,
exceto em alguns casos particulares
que não alteraram em nada a marcha geral da história.