
Poemas de Affonso Romano de Sant'Anna
ou
Um
poema dito espontâneo
Como
muita gente não tem
Mais coragem de escrever
Daqui a um cem número de
anos ( prevêem os cientistas)
a Terra estará coberta de gelo, convertida em desolada
[Antártica.
Ainda não se sabe
se o frio virá aos poucos, definhando
[recolhendo
e espiando os homens em suas tocas
ou se súbito congelará a bicicleta e o menino
o engenheiro em seus esquadros
o guarda em suas esquinas
e todas as letras e livros e estantes acumuladas desde a
[idade dos sumérios.
Todas as palavras hirtas
As tábuas da lei, O Livro dos Mortos, O Alcorão, O Finne-
[gans Wake – tormento enfim fossilizado
num planeta gélido ex-correndo no vazio.
Fria a letra, frio, talvez, o sentido
desses textos e o sangue das batalhas de Homero
e os álgidos tratados de ironia de todos os sábios e
[Cervantes
petrificadas e transparentes as enciclopédias
e os poemas de Li-Po e os escritos em rocha viva dos
[fenícios
toda pedra, enfim, onde uma só letra houver
espesso gelo descerá sepultando um sol longínquo.
E assim pousados (eternamente) aguardaremos
quem sabe um arqueólogo ou um deus silencioso
que roçando as
asas sobre essas geleiras de vana verba
absorto se indagará : òu sont les feux d’antam ?
E sobre as neves d’aujourd’hui irá lendo les chimières et les
sagesses et folies
eternelles
e cauteloso, como convém, ao sábio, irá colhendo a
estória
[do perdido paraíso
o cântico dos cânticos, o realizado apocalipse
e só compreenderá o estranho ser humano
quando desse livro depreender a mensagem :
onde se leu fogo, leia-se água
onde se escreveu tudo, leia-se nada
( líder negro dos EUA assassinado a bala quando entrava à noite em sua casa)
1
Sound
Our
Soul
– bell
Sound
Our
Soul
– bell
Sound
Our
Soul
– bell .
Em
algum ponto do mundo é noite
e um homem
negro tomba morto .
KU
KLUX
KLAN
– Alabama.
KU
KLUX
KLAN
– Aleluia.
2
Negra
Noite
oculta
a fala.
Negro
corpo
oculta
a bala.
Negro
forro
é negro
morto.
KU
KLUX
KLAN
– Alabama
KU
KLUX
KLAN
– Aleluia.
3
O
Senhor é meu pastor
HALLELLUIA ! HALLELLUIA
!
Mas um lobo
me atacou
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
No vale da
escura noite
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
Meu corpo
se amortalhou
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
Sobre as
taças do inimigo
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
O meu sangue transbordou
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
O senhor é meu pastor
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
Mas um branco me matou
HALLELLUIA! HALLELLUIA!
KU
KLUX
KLAN
– Aleluia
KU
KLUX
KLAN
– Alabama.
4
No
Alabama
É onde o homem é menos homem
É onde o homem quando é branco
– é lobo e homem
e
o homem quando é negro
– é lodo e lama.
No Alabama
Um homem quando é negro
sabe que seu sangue porque é negro
– é drama
e cedo ou tarde pelas pedras
– se derrama.
No Alabama
É onde o homem é menos homem.
Dali é que nos chega
O sangue inscrito em telegrama.
Dali é que nos chega
Um nome que era negro e escuro
E agora se transfunde em pura chama.
KU
KLUX
KLAN
– Aleluia.
KU
KLUX
KLAN
–
Alabama.
1
Todo
homem é vário .
Vário e
múltiplo. Eu sou
menos: sou
um duplo
e me contento com o que sou.
Fosse meu nome legião,
meu destino
talvez fosse
a fossa e o
abismo onde
a vara de porcos me emborcou.
Não sou tantos, repito,
sou um
duplo
e me contento com o que sou.
2
Sou primeiro o canto
e o que
cantou
e só depois – palavra
e o que falou.
Meu corpo testifica este conflito
quando
entre palavras e canto
não
se perde ou se dissipa,
mas se
afirma
e me redime.
O homem primeiro é o canto.
só depois
se organiza,
se acrescenta
se articula,
se clareia
de palavras
e dissipa o que são brumas.
Se o canto é o eu fluindo,
a palavra
é o eu pensado.
na palavra
eu sempre guio,
mas no canto eu sou guiado.
O canto é o que atinjo
(ocultamente)
sem me oferecer,
e quando,
de repente,
eu me
descubro
– sem querer.
A palavra, ao contrário,
é o ato
claro,
o talho e o
atalho
– no objeto,
embora seja como o corpo
um ser
concreto
e como o
mito
– um ser incerto.
3
Quereis saber
como eu
faço
ou de mim
como eu quero?
É fácil:
Cultivo em mim os meus contrários
e a síntese dos termos cultivo,
sabendo que
o canto é quando
e a palavra
é onde ,
e que ela o
ultrapassa
mais que o
complementa .
E certo que
o homem
embora
sinta e pense,
cante e fale
seus
conflitos nunca vence,
é que eu
tranqüilo me exponho,
em fala me
traduzo,
em canto me
componho:
pois um
homem somente se organiza
e completo
se apresenta
quando com seus contrários se acrescenta.
4
Difícil
é demarcar
o limite, o
dia, o instante
em que o
homem
de seu
canto se destaca.
O limite, o
dia, o instante
em que o
homem se desfaz
da
imponderável música-novelo-e-ovo
e
configura-se no gesso,
e do que
era um homem-canto
emerge um homem-texto.
Difícil é dizer como e onde,
não o
porque,
um dia a
gente se observa,
Se admira,
Mais que
isto:
um dia o
ser do homem todo denuncia:
já não se
flui
como
fluía,
nem se
esvai
como
esvaía,
edo
organismo informe e vago
emerge a vida organizada.
Nada se perdeu
nem jamais
se perderia
neste homem
que de novo se formou.
Algo duro
nele se passa
e em seu
trajeto se passou,
quando
indo do canto à palavra
a si mesmo ultrapassou.
Toda
manhã a barba
cresce
sobre a face
da terra e
do homem
pedindo o
orvalho
– e a navalha.
Presto,
acordo a lâmina
e deslizo
um óleo santo
sobre o imolado rosto da manhã.
Do chuveiro escorre a água
sobre as
partes circundadas pela mão
alegre. Os
poros se aliviam
descendo brancas bolhas perna abaixo.
É o banho: ritual aquático e diário
Daquele que
se purifica e matinal
Desdobra as
felpas da toalha
E sai ungido em veste pura.
Te vestirei com meu suo,
Te banharei
toda manhã,
Te
alimparei , te cuidarei
Nas unhas e dentições .
Os teus pelos polirei,
Os teus
fios cortarei
E como
potro bravio
Pelos pastos crescerei.
7 de março de
1967
7 pontos subiu o dólar no Dow Exchange
45 mil exemplares vendidos pelo Free Press
186
vietcongs mortos na Zona C do triângulo de ferro
50 milhas de Saigon
2 bilhões liberou o governo para o programa espacial
111
americanos mortos em combate, índice da semana
987 cestas de basquetebol feitas por Alcindor da UCLA
7/12
inches de altura
687 páginas tem novo romance de Enrique Lafourcade
35 dólares gastei na transmissão quebrada do carro
9 anos de cadeia para Hoffa que fraudou o
[ imposto de renda
Se eu dissesse que o
crepúsculo está coalhado de sangue
diriam que isto
é uma banalidade
que só um mau poeta ousa escrever.
E, no entanto,o crepúsculo está coalhado de sangue.
Não só o
crepúsculo, também a alvorada.
E quanto a isto não há muito que se possa
fazer.
Nunca soube como as ostras amam.
Sei que elas tem
um jeito suave de estremecer
diante da vida e da morte.
Tens um jeito de acomodar teu corpo ao meu
como na concha.
Eu não sabia como as ostras amam
até que
duas pérolas brotaram de teus olhos
no mar de cama.
Anda
me cercando a morte
por
vários lados
abrindo
alçapões
até
dentro da casa.
Anda me
espreitando
querendo
intimidades
dentro dos lençóis.
Anda num vai-e-vem
de
comadre sirigaita. Vem
toda
manhã
deixa a
mensagem
no
jornal do espelho
inscrevendo
no meu
rosto
sua antiobra de arte.
Soava na tela aquele concerto de celo de Dvorák:
eu via as
imagens da orquestra
e as mãos e o
rosto possesso Misha Misky abraçado ao
instrumento
engalfinhado numa amorosa luta com o sublime.
Lá fora
a intriga nos palácios,
as buzinas e os insultos,
a traição, a esperada, o luto.
Aqui
a perfeição preenchendo a sala
num momento de paz absoluta.
Hopper
e a
solidão dos objetos na vitrina
Hopper
e a
solidão dos corpos na varanda
na janela
na campina
Hopper
e a solidão silente.
Hopper.
Hope.
Hopeless.
Catar
os cacos do caos
Como quem
cata no deserto
O cacto
– como se fosse flor .
Catar
os restos e ossos
da utopia
como de porta em porta
o lixeiro
apanha
detritos da
festa fria
e pobre no
crepúsculo
se aquece
na fogueira erguida
com os destroços do dia.
Catar a verdade contida
em cada
concha de mão,
como o
mendigo cata as pulgas
no pêlo
– do dia cão.
Recortar
o sentido
como o
alfaiate-artista,
costurá-lo
pelo avesso
com a
inconsútil emenda
à vista.
Como o arqueólogo
reunir os
fragmentos,
como se ao
vento
se pudessem
pedir as flores
despetaladas no tempo.
Catar os cacos de Dionísio
e Baco, no
mosaico antigo
e no copo
seco erguido
beber o
vinho
ou sangue vertido.
Catar os cacos de Orfeu partido
pela
paixão das bacantes
e com
Prometeu refazer
o fígado
– como era antes.
Catar
palavras cortantes
no rio do
escuro instante
e descobrir
nessas pedras
o brilho do diamante
.É um quebra-cabeça?
de cabeça
quebrada vamos
sobre a
parede do nada
deixar gravada a emoção
Cacos de mim
cacos do
não
cacos do
sim
cacos do
antes
cacos do fim
Não é dentro
nem fora
Embora seja dentro e fora
no
nunca e a toda hora
que
violento
o sentido nos deflora.
Catar os cacos
do presente
e outrora
e enfrentar
a noite
com o vitral da aurora .
Eu falo
tu ouves
ele cala.
Eu procuro
tu indagas
ele esconde.
Eu planto
tu adubas
ele colhe.
Eu ajunto
tu
conservas
ele rouba.
Eu
defendo
tu combates
ele entrega.
Eu canto
tu calas
ele vaia.
Eu escrevo
tu me lês
ele apaga.
Há vários modos de matar um homem:
com o tiro,
a fome, a espada
ou com a
palavra
– envenenada.
Não é preciso força.
Basta que a
boca solte
a frase
engatilhada
e o outro
morre
– na sintaxe da emboscada .
Os casais são tão iguais,
por isto se
casam
e anunciam nos jornais.
Os casais são tão iguais,
por isto se
beijam
fazem
filhos, se separam
prometendo
não se casarem jamais.
Os casais são tão iguais,
que além
de trocar fraldas,
tirar
fotos, acabam se tornando
avós e pais.
Os casais são tão iguais,
que se amam
e se insultam
e se matam
na realidade
e nos filmes policiais.
Os casais são tão iguais,
que embora
jurem um ao outro
amor eterno
sempre querem mais.
Não
basta um grande amor
para fazer poemas.
E o amor
dos artistas, não se enganem,
não é
mais belo
que o amor da gente.
O grande amante é aquele que silente
se aplica a
escrever com o corpo
o que seu corpo deseja e sente.
Uma coisa é a letra,
o outro o ato,
– quem toma uma por outra
confunde e mente.