Poemas de Amélia Alves

 

Do livro Vácuo e Paisagem  

 

          

 

                                                                                       

   

Bordado

A noção  do traço
sugerindo a presença da linha

e o manejo da agulha
                sendo cadência
após cadência
                no macio do pano branco

pra depois haver o risco duro de premeditadas paisagens

onde matizes de fumaças
dizem de sustos
                sortes
da palavra acorrentando-se
do desenho escapulindo entre dedos dormentes
                da pá
                do pó
                do pé violentando caminhos
                da propalada paz de papel

               dessa vontade de viver
                entre-mentes,
 
                humana-mente.




 
 

Paz na noite aos homens de boa vontade

Os homens da noite são assim:
sorumbáticos,
às vezes apáticos,
ensimesmados.

Caminham de mãos abertas,
encapuzados com as cores das nuvens,
vestidos com restos de lua.

               E passeiam
               espaçolando
               astronautas
               de planetas desconhecidos
               amigos
               da fumaça
               da pauta
               de música
               ressuscitada
               cantarolada
               em cada mesa de bar.

Na  noite os homens são etéreos,
eternos amantes da amada de cada dia,
da cachaça de cada noite,
dos rostos que se embolam
nas linhas de escuro e fumaça.

                E volteiam
                semi-patéticos
                anjos
                do escuro
                arcanjos
                perdidos
                num fio
                de voz
                num jato
                de spot
                viventes
               dos potes
               de amor molhado em scotch.

Bebem mundos de skol
e têm hálito metálico.
São assim: felinos ferozes (felizes?),
do tamanho de um sustenido
durando um tempo de bemol,

plásticos,
elásticos,
mortais.

 



   

Abril
   

Nem verão nem inverno,
apenas outono
de frutas fresquinhas,
apenas abril,
abril de Tiradentes,
Descobrimento do Brasil.

O que me fica de abril
é esse sentir de coisa desabrochando,
um ampliar sem conta
de pouco e pouco,
pegar tudo,
gente e coisa,
coisa e gente,
por dentro,
esse cheiro de chuva fininha molhando a-dois,
um ver-a-vida vendo sempre.

E depois ... o que me fica de abril
são coisas e coisas
que eu não sei dizer
nem digo,
um semi-sentimento
que mal se abriu.

E muito mais até que
fevereiro, maio ou setembro
um gosto, nem dezembro
nem agosto, apenas de
terem me brotado no  mundo
em Abril.




 

Ciclo evolutivo do amor moderno
   

Sábado:
veio e era caminho.
Domingo:
ficou e era tudo.
Segunda-feira:
foi e já era abismo.

Outro sábado:
não havia peito
e, se houvesse,
era mudo.
Outro domingo:
outro jeito
outro tudo.




 

Pano de fundo
 

Mais um dia
é apenas
dádiva
paz
como também
cruz
madrugada desfalecente
manhã costurando-se em veias de luz.

 

 

 

Apartamento (?)

aperta

aparta

desaparta

Eu hoje também  saí.



   

Arquivo
 

A menina morta

foi de leucemia
foi de afogamento
foi de amor

foi imagem borrada
engolindo papel
paisagem
ou retrato roto
perdendo-se por entre galhos secos

A palavra certa atravessada na garganta.




 
 

Poema d’argila

Esse vulto leve leve
levemente se põe
cadência.


Esse corpo mole

malemolente se faz
carinho.