A Dialética do
Lobisomem
a Carlos Eduardo
Wagner
Camões teu olho perdido
espreita
a alma cega das coisas
desterradas
pirata dos dias goytacazes
e da gymnopedia satírica dos
corpos
Aqui os artesãos do medo
inventam a morte
e os abutres conspiram contra o
céu
lagoas feias solidões lamegas
vidas mutiladas
Em teu olhar a velha canção da
esperança
é o espantalho louco dos lutos
conjurados
há uma fera noturna em teu
coração
mas sob a pele rude das palavras
o sonho ainda acorda a realidade
30/08/1992
Vida Presente
a Frederico Sérgio
Nada posso te dizer
a poesia começa onde termina a
literatura
frêmito fragmento fábula do
silêncio
sei que a morte trabalha neste
chão
mas sei também que o coração
gira
gira no fogo das acácias
gira com o tempo
gira como a Rosa Rubra em tua
mão
Esta é a vida
iluminada de verdade fome e
fúria
abre caminhos na luta comum
e a mais simples palavra
desentranha
um fio de esperança na máscara
do dia
descobre o homem viajante
e bússola dos sonhos
13/01/1993

Balada da Toca da
Velha Raposa
Arrancame la
vida
com
el ultimo beso de amor
Agustin Lara
Nossa Senhora dos Amores
Hiperbólicos
perdoe o espetáculo
ridículo
dos nossos desvarios amorosos
porque no amor nunca se erra
muito breve é o seu percurso
nesta terra
Maldita Morocha! Se o amor está
morto
vou até a esquina e trago outro
Se não me enroscar em teus
cabelos
me enroscarei em teus pesadelos
uivarei como uma gárgula surda
e louco incendiarei em cada rua
a catedral anônima da tua carne
nua
Morocha eu morro por teus olhos
mouros!
Mas a vida esta não tem
mistérios
o amor sabe que tudo acaba no
cemitério
09/12/1994

Noite Apache
a Flávio Lima
Caminhávamos na luxúria da
penumbra
havia um escândalo de
formas na placenta da noite
sobre as nossas cabeças a noite
essencial
espelhava o eterno combate do
visível com o invisível
O mar moribundo mendigava
mistérios
como um homem em sua intocável
solidão
a lua com olhos de topázio
vadiava no sargaço das nuvens
A aranha das metáforas
com sua saliva tingia os corpos
sombras cegas copulavam cavalos
visionários
no ventre da noite as estrelas
pastavam paralíticas
explodia no ar um violão
desesperado
Um vento vagabundo com patas de
gato
tecia nas larvas do silêncio
a harmonia da agonia na língua
do diabo
09/11/1997

A Dama do Crepúsculo
a dona Amélia
Estávamos ao norte do
crepúsculo
o sol se punha no olho do nosso
sonho
e atravessava o chão encharcado
pela chuva
Era uma dama entre o cão e o
lobo
fumando em sua varanda seus
cigarros baratos
um atrás do outro um de cada
vez
na soma de todos os dias
torturados
Cassandra extática envolta na
fumaça
a cada tragada lutando com o
luto do futuro
Ela era uma antologia de
presságios
que exibia sua angustiante
colheita de penumbras
a um furioso vagabundo ladrão
de estrelas
que só agora pode subir até
aqui e ofertar
este fardo de obscuridade e
inquietudes
13/08/1999
Arcanjo Arcano
a
João Luiz Lima
A Vida é
tênue, tênue.
0 grito
mais alto ainda é suspiro.
Drummond
Arcanjo vencido, arcano
delicado
te precipitas sobre mim
despedaçado.
A morte é uma porta fechada
todo conhecimento é inútil
nesta escala
os poros secam, o corpo oco e
frio
tenta deter da vida o tênue fio
o coração cortado pelo báculo
do assombro
avança mutilado entre sargaços e escombros.
A poesia não chega aqui com
seus cuidados
só a morte imóvel no rosto do
rigor
ensaia a catharsis desta pavana
do horror
e sela em nossa boca um beijo
desolado.
Ah, não poder contar a dor rude
do dia!
a minha alma arrasta a bandeira
da melancolia
e a noite enastra num adágio
apaixonado
o mistério do amor e da morte
conjurados.
26/03/1998
0 Lugar e a Fórmula
a Rimbaud
e a Antonio
Fraga, poeta de Desabrigos
Falsos céus, Saturninos
companheiros, virgens loucas,
maus vinhos, paisagens imundas
embriagaram sua alma vidente
numa monstruosa alquimia lavrada na medula do tempo
Talismã raro, voz acesa no
ludro dos pântanos
ternura de jasmins, segredo de
sombras
uma constelação de diamantes a
cada passo
Mestre em fantasmagorias,
atroz vagabundo da invenção
um deus bárbaro violentando o
corpo das manhãs
com o canto negro do selvagem
evangelho da beleza
Com essa voluptuosidade dos
filhos do sol
como se tocasse com um tambor de
assombros
na pele de seda dos sonhos num
mar sonâmbulo
Aqui há uma poderosa
síntese de sedução
cristais e cinzas da cruel
inocência dos anjos do futuro
no tempo da vida sem miséria e
sem maldição
A vida nova, o homem novo, o
amor novo
se avançarmos será o fim desse
velho e triste mundo
para o diabo a carcaça desta civilização!
10/1991-11/1997
Melancolia de
Esquerda
0 poder é a pornografia da
verdade
é a contravenção da sabedoria
é a legitimação da morte
0 poder faz do homem o pior
dos últimos homens
é a mentira e a impotência
diante da beleza
é a vilania da alma a moral da
imoralidade
0 poder só legitima os
escravos do poder
é selvagem como um onagro cego
é a insensatez e só vê
utilidade na sua inutilidade
0 poder é a seiva selvagem
da irracionalidade
é a perversão da vida
verdadeira
é a cloaca que afoga o mundo
nas suas fezes universais.
A razão da utopia é querer
apenas o poder de não ter poder.
maio de 1997
Almas Mofadas
a André
Breton
A vida apenas esta
no picadeiro dos nossos
corações destroçados
sob a cal e os esqueletos dos
sonhos impossíveis
A vida apenas esta
na usura dessa saudade lusa que
me rói
como as garras de um violino
fantasma numa casa deserta
A vida apenas esta
no exílio selvagem dos meus
olhos perdidos dos teus
na vertigem do abismo desse céu
onde se escreve a palavra nunca
A vida apenas esta
enquanto o carnívoro liebestod
do destino
afia as suas facas na garganta
azul do tédio
A vida apenas esta
onde o espantalho fluvial da dor
acende o teu nome nas pálpebras
da noite vasta
A vida apenas esta
eu aqui bebendo genebra só
pensando nela
eu aqui tomando um porre de gim
sem pensar em mim
A vida apenas esta
nesta melancolia de minotauro
encarcerado
no labirinto desse amar
cegamente o amargo amor
A vida apenas esta
ainda que nossas almas mofadas
nas cicatrizes de sonâmbulos silogismos continuem
apenas tateando nesse ossuário
dos desejos a terrestre aventura lucinante
01/09/1996
A Ardente Paciência
a Leandro
Konder, à memória de Rosa Luxemburgo e Karl
Liebknecht
A morte, a morte, a morte, a
morte
com o seu manto tecido com o
esqueleto azul
dos nossos sonhos sabe quantas
primaveras
foram precisas para forjar essa Rosa
no esterco de todo sofrimento
acumulado
e que os inimigos da vida
trucidaram?
Ave Rosa! A Rosa Brava,
a Rosa do Campo, a Rosa de Cão,
a Rosa de Cem Folhas, a Rosa do
Céu,
a Rosa da China, a Rosa
Damascena,
a Rosa de Gueldres, a Rosa da
Índia,
a Rosa de Jericó, a Rosa de
Lobo,
a Rosa Louca, a Rosa do Mar,
a Rosa Mística dos Rosa-Cruzes,
a Rosa da Montanha,
a Rosa do Natal, a Rosa de Ouro,
a Rosa de São Francisco, a Rosa
da Turquia,
a Rosa dos Ventos, a Rosa de
Vênus.
A Mãe de toda a beleza na
Oração de Lorca,
a Volúpia da Rilkiana Rosa da
contradição pura,
a Secreta Rosa na Cruz do Tempo
de Yeats,
o Cristal de sonhos da Rosa
Pública de Eluard,
a Lucidez atormentada da Rosa do
Povo Drummondiana,
o Ópio e a memória da
Celaniana Rosa de Ninguém.
Sim, a Rosa da Liberdade, a Rosa
da Utopia!
"Perdidos para sempre os
vastos prados
verdes da Rumânia,
espero morrer em meu posto
numa batalha de rua ou numa
prisão,
eu pertenço mais aos canários
do que aos meus camaradas.
Mas, meu coração é um cão
bem treinado
e a vida canta para quem sabe
ouví-la, Sonistschka,
eu gostaria tanto de te passar
esta chave encantada."
Naquele dia 15 de janeiro de
1919
sob a ponte Lichtenstein corria
o Landwehr,
a bandeira das nossas
esperanças violentava,
e a Dança da Morte na Alemanha
começava.
A noite caía irredutível como
um fantasma profetizando no escuro:
Nunca mais o beijo da liberdade
na fronte do futuro.
Como na música de Varèse
uma carta de Rosa na prisão
harmonizava o silêncio e a solidão
"Vida de minha vida, meu sol.
Ao redor tudo é silêncio
mortal.
E eu estou absolutamente
só."
Tudo estava em ordem em
Berlim
para os inimigos da Comuna
derrotada.
Mas Bert, o poeta da dialética,
esclareceu
todo o mistério
"Porque ao lado dos pobres
combateu
os ricos a expulsaram do seu
império".
E Chuchya que lia Dante sonhava
na prisão
se houver Rosas, um dia, haverá
Revolução!
15/01 - 18/08/1999

A Pequena Pirâmide
de Resedá
"0
coração é a faculdade da alma que nos obriga a
amar
Aristóteles,
Política, 212.
Musa Lusa você tem mãos de
chuva
e o outono veste a tua pele
com um crepúsculo claro e rosa
"ainda farei uma lenda
sobre os teus cabelos..."
eu aqui ordenhando palavras
pirateando poetas para te encantar
No meio de tudo isso tem uma
rosa
Meu coração é um teatro
banal
onde você é um anjo de luz
tua pele de nuvem sonho do
infinito no infinito
você é todo um alfabeto de carícias inocentes
No meio de tudo isso tem uma
rosa
Torre amorosa Torre adorada
Torre de amor e morte
eu pus sob a tua cabeça um
travesseiro de macelas
para nas longas noites
obsidianas te acalentar
Ah esse ígneo dom de amar o
ausente
mas aturdida amar em silêncio o
próprio amor
04/08/1996
A Ordem do Tempo
ao Dani
0 passado é o que passou
mas são também os passos
oblíquos que retornam
e que estarão presentes nos
passos do futuro
0 que passou não passou para
esses desesperados
animais da angústia que nós somos
e persiste nas garras da tarde
na luz de toda fúria da ternura
imaginada
Mas só fora do tempo
deverá haver perdão prá quem
assim tanto amou?
No carrossel do tempo
acorrentado procuro recompor-te
mas não cabe no poema
a tua fome de sonhos que persigo
nem os teus olhos ávidos avaros
de infinitudes
nem a voraz inteligência
cristal das noites essenciais
Pura volúpia só te saciavam
as coisas raras
Como deter-te com nosso amor imperfeito
ou com esse obscuro soluço que
conspira
na máscara deste tempo humano
destroçado?
Há um humor indecoroso e
inefável
no teu último teorema de
alegria:
"Passado, Presente, Futuro
o Sol coloca-nos na ordem do
tempo
sem ele seríamos apenas um
infinito silêncio sem acordes
" Espírito do ar - Ariel
Lapislazúli - Luz do céu
p.s. "Carlos, por que
você não diz isso de um jeito mais simples?"
16/08/1998

Fragmentos do fim do
mundo
a Ivo Barbiéri
sou apenas um corpo atado a certa fogueira.
César Calvo
Quando penso no Brasil à noite
não consigo pegar no sono
uma morena passa pela minha janela
e não tenho um tambor sequer um pandeiro
a coragem do poeta caminhava entre a vida e
os
fatos
a poesia estava no coração
das palavras
não era apenas sonho ou sol carpindo sobre
o tédios
quando penso no Brasil à
noite
não consigo pegar no sono
uma morena passa pela minha janela
mas não entra em meu sonho
e eu aqui polindo as unhas do
domingo
trezentas e cinquenta e seis vezes eu te chamei
amor
no desejo por você por mim
anoitecendo em
julho
não há outro caminho apenas
o cio da sombra
assim retornamos assim recomeça o grande
mundo
a isto estamos condenados ao
empirismo das
tardes
mas o coração corrige a vida
quando penso no Brasil à
noite
não consigo pegar no sono
num poema cabem todas as mulheres
ah minha loucura ainda estás
comigo
não te disseram o preço do mundo!
restam pontes paisagens presságios obscuros
o refúgio das palavras essas grandes damas
mas o coração não está certo
sobre gestos incompletos caminhamos
taciturnos e atônitos medrosos na madrugada
a mão tateia outra mão e incapaz de tocar
o soluço
do teu medo de minha súplica
o que mais restará na noite inquieta
por onde se escamoteará a coragem do poeta
tudo isso é um homem mas como é difícil
um animal que se faz com palavras
habitante de um mundo em extinção
07/83

Manual de sobrevivência na selva
pós-moderna
a Carmen da Matta
e a turma do "Botafogo"
A poesia é impossível, fique
quieto em sua casa
Dizem que há fome nas esquinas
não saia, ponha grades nas janelas
se saíres, leva o teu revólver
vá a um bar da moda peça uma dose de cinismo ou de sucesso
mas com gelo, o tédio pode-se pagar com cartão de crédito
tudo isso sozinho pois a amizade não vale a pena
está por fora e além do mais não é lucrativo
o amor nem pensar é um sentimento pré-histórico
e nestes tempos tornado supérfluo e im produtivo
Dizem que há mortes e a guerra ainda não acabou
passeie em seu jardim prisioneiro
de anêmonas mortas e cultive os espinhos não as rosas
Dizem que estão matando a infância na noite metafísica
não se impressione é tudo uma questão estatística
O mundo dos ricos continua em paz
enquanto eles dormem as suas riquezas copulam e se
multiplicam
eles riem e cochicham uns para os outros:
"Nós somos os últimos homens nosso bunkergeist
da lepra do tempo nos mantém desinfetados
e no luxo não morrremos sufocados".
Isso não é um homem
Isto não é nem mesmo um homem de pape
isto é bem menos que a sombra e um homem
mas sem sentimentos sem amigos sem amor sem paixão
como os ratos dos esgotos nos sobreviverão!
08/1993-1996

Monadologia
a Márcia e Jorge
Wanderley
O amor é igual ao amor
assim como o homem é igual ao homem
e a mulher é igual à mulher
O amor não é igual ao amor
assim como o homem não é igual ao homem
e a mulher não é igual à mulher
O amor não é igual
o homem não é igual
a mulher também não é igual
Nenhuma avenca é igual a esta
avenca
nenhuma noite é igual a esta noite
nenhuma boca é igual a esta boca
Nem o igual é igual ao igual
a mônada do amor é como uma musa cega
o amor é uma identidade em conflito
começa pela criação e acaba pelo aniquilamento
08/12/1994

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