FESTA
"Você me conhece?
(Frase dos mascarados de
antigamente)"
Manuel Bandeira
1.
m. satã
delicado não foi
o chapéu de sua alma o vermute
o sangue de que morreu
festa acabada
músicos a pé?
a dor sentou
no gim
mas todos vão de enfiada
na lira dos metais
2.
eu deveria ter
os nomes
as das mulheres feições
os dos mortos paletós e echarpes
aberto o salão
cada um e a miséria de seu carro
a morte galã
e a alegria rascante
e a impiedosa visita nas canções
de deus
3.
enquanto dobramos
a história
de m. no elite
nasci sem pistas
do que achar
tive dez pernas o fino
no fogão maginot o
o bonde comeu
da esquerda
com cinco pernas dama nenhuma
dançar comigo não vai
4.
o t. que transvira
o jazzband
mudou residência
vemos o camiseiro
e a grinalda
quem veste abeto
não entra
esse lado do céo
pois dancem aos
poucos o número
é claro
5.
o baterista da
euterpe
em dizendo
isso é que é
deu sustento para solar
se o presente
do finado
cariou por baixo
e os pequenos têm um cabide
sem ponche
o baterista o
que dizer valeu?
6.
os dados cada
sorte seu consorte
a polícia e o amigo na transversal
do sol
éle monken
ao volante
a festa vai alta
o caoberdiano
a dor jejuando-lhe os olhos
dobramos a morte
rezando
aos lamantins
7.
a inconsolável
vemos
tomar metal de quem mandava
o solo é de matar
a festa no que
se vê
a morte querem aplaudir
e dizer dos belos 'lues
os que celebram
são essa linguagem
vá lhes
torcer o colarinho
e o deus insólito pondera
- o que danças
(Do livro: O velho cose e macera)
SALIVA
A intuição
escaravelho
estira cordas no sangue.
Muitos atravessando
leram Hart Crane. Eu,
se carece, reviso
textos
onde a fúria submerge.
Se disse - não
danço
não era ler me esquece.
Era pressentir
sob lago
as ilusões rascantes.
As que fazem a
língua
rebelde por ofício.
A intuição
escaravelho
estira-se no sangue.
Um eu à
deriva
move a si como sempre.
O que lá
disse eu digo
- em outra forma dança.
(Do livro: Veludo Azul)
ILUSTRAÇÃO SEM BALAFONG
Viver agonia ao
telefone
reduz um homem à medula.
Tira-lhe humor
e fervor
como se filma uma blusa.
Não resta
que lhe salve
postal de um cataclisma.
Uma página
ao acaso em
que estivera uma moeda.
Um crime sem a
vítima
para a polícia perfeito.
Um cinzeiro sobre
tapete
e a vida que se fumara.
Uma névoa
sob encomenda
a esse sumir desejado.
Um pai vindo de
longe
com sua mala de pássaros.
Uma senhora sua
imagem
de margaridas em decalque.
Um rádio-táxi
na porta
ao tempo que se quisera.
Viver agonia ao
telefone
mata um homem aos poucos.
Só resta
que lhe salve
a mãe rezando por hábito.
Uma
carta, enfim uma,
em meio ao jornal diário.
(Do livro: Veludo Azul)
CABELO
Primeira voz
O andante
O guarda olha
o sol.
Deve ferir
se faço
licença ou amor.
O dia, apesar
de,
abre flores de lis.
Nele atravesso
contra os vigias.
De uma lei
que me
ata sem mais.
Ao meio-dia
o sol,
deus alcanfor.
Faz crescer
a barba
aos que deslizam
bola e sede
numa
segunda de tarde.
O guarda
olha o sol
o que nele se move.
Minha tiara,
a sombra e vênus.
O zelo puído,
a irisão do cabelo.
Sou o anti-deus
de sua objetiva.
Ela diz a
hora
em que um não vê
no outro o
homem.
*
Segunda voz
O guarda
O que anda
a esmo
tem a boca anis.
Olhos que
vivem
a rua e as notícias.
Devo checar-lhe
a vida a viagem.
No parque
o sol
como um relógio.
Em sua astúcia
a inocência dorme.
O plexo dele
não
meço, mas o aço.
Abrindo vermelho
o seu xale.
Não sei se rasgo
em mim ou nele.
Meu dever o revista
fere rápido. Não
sabe o que
busca,
talvez néctar.
Faço
a ordem,
outra lição de fúria.
Mas a cena
se
arruína. Dois caras
nenhum guarda-sol.
*
Duo
andante-guarda
A magnum do
sol
nas mãos.
Apenas nós
abrimos sua flor.
Vimos música
por cima de um
fusca. Atiramos
de arma nenhuma.
Contra as papoulas
nos parques.
Só
nós podemos
ser alvo e mira.
Ficar para
sempre.
Até que o sol
filme outra figura.
*
Coro
Cabelo não
é
que à toa se mude.
Nele circulam
esferas e nomes.
Não é tudo, mas
firma atitude.
Nele a cabeça
faz olhos ao desejo.
Batem ao
sol um
homem seu espelho.
Sob tiara
e quepe
tão estrangeiros.
Cabelo não
é tudo
mas separa, costura
um na turma
sua.
(Do livro: Veludo Azul)
SENHORITA DESESPERO
Chamem o amador
de blues
vou bater nele como boxeur.
Na casa onde mora,
luas
mexem os olhos até ferver.
Chamem o amador
de blues
vou matá-lo arrumar emprego.
Tenho de magoar
sua íris.
Vejo sua pele sob a blusa
movendo rios incêndios.
Vou matá-lo se me faz feliz.
Chamem o amador
de blues
que persegui dias e noites.
E soube miserável
sem irmã.
Chamem vou matá-lo
depois ganhar
dinheiro.
Quero ser das que dançam
até fechar
o clube e ferir
no tórax meu companheiro.
Chamem o amador
de bues
não confio nele mais não.
É desses
que entram a alma
e fazem a gente arder.
Chamem o amador
de blues.
Vou bater nele como boxeur.
(Do livro: Veludo Azul)
RECITAÇÃO
Na cidade de S.
Sebastiam do Rio de Janeiro as músicas
para as festas do Divino não eram rosas. Mas descon-
certo, segundo o ritmo dos barbeiros. Se na condição
de
escravo, um deveria amestrar o violino para os senhores,
o melhor era jogar, ser barbeiro por ofício, mas senhor
de suas notas. Do mais o Divino se encarrega, quando o
outro nome da festa é contenda.
(Do livro: Sociedade Lira Eletrônica Black Maria)
AGONIA E
SORTE DE
STELA DO PATROCÍNIO
Me entreguei à
vida e me deram a loucura. Apesar do
cárcere o amor se subleva, fala à minha cabeça
que roda, se
arruma. Aqui onde não sou pessoa me tiram a vontade, não
com remédios mas com a ausência que a tudo povoa. Fui
vivente no outro lado da cidade, do alto das sandálias me pus
a ordenar de sábado a sexta, até perceber nas mucamas
a
gestação das domésticas. Estive no cinema uma
ou duas vezes.
Nos edifícios onde me exauri noite e dia olhei o melhor pela
entrada de serviço. Meu quarto, sendo quase uma da família,
alcançava o céu no além-mar da janela. Apesar
disso ser
alucinação dos sadios, me deram albergue no hospício.
Aqui e
lá, onde não sou considerada, querem me tirar o juízo
com
choques, desprezo e sumiço.
O nada, porém, me recupera: reino dos bichos e ani-
mais é o nome que assino. Decifrar a floresta de quem me
confina ajusta meu destino. Contra eles o amor se enerva, por
ironia sou eu a que escreve. Como escrevia nos restos, nas
grimpas para não enlouquecer. Sai a porta-bandeira, o operário,
a noviça, o pavão real, a sede, um feriado no outro,
tudo que
em mim gritava e ainda grita. Sai o ator de novelas, os avós,
o
arlequim, a seleção de passistas. Sai o pai, a Dandã,
os que me
foram tirados e agora me habitam. Sai um malmequer na ala
dos napoleões vencidos, uma bela entre abraços, meu
amor
aos inimigos. Me rendi à vida e o pouco que me deu passa
como um rio. Apesar dos pesares sou eu a que escreve para
salvar, talvez, outros afogados.
(Do livro: Sociedade Lira Eletrônica Black Maria)
NOTURNO
A equipe anaconda
rifa a caixa de liras.
O que tocava, tocado demais perdeu
o assunto. Se dançavam, era pelo
hábito e desinteresse. Uma frieza que
diminui o gosto, apesar de cheia a pista.
A equipe anaconda rifa porque tem siso.
Batendo a mesma tecla faz ruído, ainda
que seja isso há-de ser com ritmo.
Não o sabido, mas o que tira espinhos,
rói dia e cortina. A equipe anaconda
rifa sua caixa de liras. Não tendo nada,
não desanima. Isso é o que é a banda.
Tocando zeros é toda inúmeros.
(Do livro: Sociedade Lira Eletrônica Black Maria)
NA SUA PERÍCIA
A MÃE
desliza entre
nós como se mudasse os móveis de
lugar. Não vemos seus afazeres, mas a árvore
que plantou em nossos pés. Estamos no sono e,
apesar de dormir, a mãe já atravessou a manhã.
Se um de nós perde a testa, ela negocia: as suas
nossas entranhas precisam de saúde. Essa a mãe
que nos ensina sem abajur.
(Do livro: Sociedade Lira Eletrônica Black Maria)
NA CASA DE MEU PAI
um que se arranha
tem seu canto. Se quiser ir ao
mundo faz a mala, vai. O pai cede o manto, a seu
tempo garagem e porto. Na casa, um observa.
O pai, que é de todos, se erra um jogo acerta de
outro jeito. Um está na porta, não entra, não
sai e
se move mais que a gente carteando naipes. Com
ele o pai entesa. Ele, o um que é nós.
(Do livro: Sociedade
Lira Eletrônica Black Maria)
ZEOSÓRIO
Para bateria e
colher de pedreiro o mesmo
braço, ritmos diferentes. Nas duas o empenho
para se esquecer os andaimes: casa e melodia
são mais ou menos um giro pelos dentes.
Não há que mordê-las nem tirar suas luvas.
Quando muito, se puder estendê-las na tarde.
Assento um piso como um músico tocando
improviso: sei as curvas que evito e aquelas
a que me abandono. Uma prima pede o favor,
evêm as chuvas - que lhe conserte o telhado.
A cunhada, que levante um muro na horta.
A outro parente, por saúde, não cobro nada.
Mas aos de fora, dado que fazem meu salário,
arrecado na medida de um espetáculo.
Afino martelos para não estragar os pregos:
metais são a cozinha da banda, se a sua chama
falha, que fiasco. No mês vencido, sem
dinheiro, acertei de consertar serviço alheio.
É a urla mudar o ritmo de quem esperou moradia
e viu o tempo perdido. Se alguém errou a vez
da batida, nem prumo nem balanço: só avaria.
Mais fácil dançar na lama de sapato branco.
Com bateria e colher de pedreiro um homem
faz seus meios e a si mesmo como puder.
(Do livro: Sociedade Lira Eletrônica Black Maria)
QUARTO DE MOÇA
no século XVIII
ORATÓRIO
Santa Bárbara
calma
tormentas
de águas e mágoas.
Para São José a melhor casa
que faz do Egito
olvido.
Às ansiosas,
paciência.
O senhor
tem outro jeito.
Corpo em que o êxtase
não se vê.
Mirai-o moças
e perseverai.
RODA DE FIAR
Tecer tecer e
assentada
Na fogueira sem descanso.
Senhor virá pedir a mão
recomenda-se não erguer olhos.
Urge antecipar
a manta.
O marido espera o linho
no qual
depois de imundiçar o mundo
limpará a alma.
MIUDEZAS
Bem procede aquela
em que a arca se abre para a mãe
e o noivo.
O senhor está
feliz
com o céu e o gado.
Com a obediência das anáguas.
VIGÍLIA
O anjo da guarda
estreita a cama
o corpo não.
Os vestidos são castos
as rendas beatíssimas.
Como não
ver os ombros
Daquele e daquele outro
as mãos?
O pai tem seu
mando
em cavalos e mantas.
Dos desejos não.
(Do livro: Águas de Contendas)
PLURAL
Quero o amor plural
de dois nomes
e cem telefones.
O amor indissolúvel
não tem lugar.
O amor plural
vai às bibliotecas
tem um violão dispendioso.
No seu encalço
a percepção do incêndio.
O amor plural
encarquilhou na juventude.
Está aqui e ali.
Veio à cidade
nem recado mandou.
O amor plural
privou-se do mar.
Faz-se indissolúvel
entre cartas e igrejas.
Ei-lo embaraçado
no próprio sangue.
(Do livro: Águas de Contendas)
AUSENTE
As meninas do
Ausente
não têm espelho.
A cama onde sonham
dorme sobre forquilhas.
Essa como tantas
heranças vindas do mar.
Um mar que se
encapela
para chamar Calunga.
Não foram
às aulas
as meninas do Ausente.
Sua geométrica sintaxe
mede-se como fortuna.
Há muito
sangue
nos campos avaliados.
Não pergunte no Ausente
pelo ouro das grupiaras.
As meninas do
Ausente
se olham por modelo.
Que nelas tudo é ordem
de águas sobre lajedos.
E de amor que
tange
seus bois e sua roça.
As meninas o sabem
sentindo como presença.
De suas ondas formando
um oceano e outro.
(Do livro: Águas de Contendas)
PAVÃO PAVANA
Para que desmaio,
o pior concerto passou.
Em algum canto a ousadia se filtra, o pavão
mais que bordado perturba troça investiga
o olhar. Tudo sempre velho, não, velho
é o amor se arranca pedaço desaparece volta
ao peito suga o mel e o sangue que não temos
e segredamos. E todo fel é pouco para dizer
a vida, assim como se diz ó amada, quão
estreitos os teus seios. Incinerei brinquedos
na infância. E por que cisma? São tantos
os mortos incansavelmente ruidosos.
Silenciei as mãos mas os poemas vão
nascendo manchados de que paixão sei lá.
(Do livro: Águas de Contendas)
PROIBIDO TIRAR OURO
nesse rio nesse
coração.
O empenho em amar
fez do proprietário gato e sapato.
O que era cetim desbotou.
E agora e depois.
Artérias mutiladas
em corpo ainda bom.
Proibido apreço ao coração
que está vendado.
Proibido música proibido incêndio
em mata tão severa.
A vida é
flauta
toca um dia noutro se quebrou.
O coração
tem meirinhos à porta.
Um canto imutável por dentro.
(Do livro: Águas de Contendas)
LETRA REVEL
Manhã em
Iturama
um eleitor espera vez de assinatura.
Vê-lo nessa
vigília
explica uma sibilação antiga.
Herdeiro de Antônio
e Ana cabinda,
mesmo liberto, sobrenome não grifa.
O caderno que
domina
em exato de mestre
sabe a lisura que não se escreve.
A vida capturada
segundo seu gênio
é manuscrito de outra carpina.
Por que, pergunta,
nesse
papel fraudado João só não serve?
(Do
livro: Águas de Contendas)
O BICHO
Rastreio a palavra
para não cair do cavalo.
Não estou entre os que se refugiaram
em ítaca, curvelo ou tombuctu: há muito
a floresta de signos foi incendiada
e se abriu à escrita do corpo. O passado
está salvo, mas não salva a hora presente.
O bicho, Bandeira, quer dizer, o homem
que alimentou seu poema, ainda nutre
o meu com a sua fome. A poesia se repete
ou a mão que ajuda não cresce? Rastreio
para não trair a palavra do meu tempo.
(Do livro: Blanco)
COLHEITA
Deparei com a
maçã em
estado resoluto, na altura
da janela ao alcance da boca.
Não é isso o que exaspera:
diferente do homem, o fruto
vive a partilha. Era a incisão
no vento. Como transportá-la
dali a outro campo? menos,
parir um poema sem que a
maçã fosse afetada? A tal ponto
o fruto explode para dentro.
(Do livro: Blanco)
BAÚ INGLÊS
Casado, minha
viagem começa.
Deixo a esposa e algum benefício
para o recém-nascido: pensarei
nele enquanto o navio sulca
o canal da mancha. Entenda,
é para bem da família a mudança.
Não amo Birminghan mais que Faído,
porém o dinheiro se planta na outra
esquina do canal da mancha.
Montarei um hotel distinto e a cada
ano retorno para saber dos filhos.
(E a esposa? mais do que a casa
não pede outro merecimento?)
Entenda, a vida tem suas costuras.
Providenciei um baú fornido
onde cabem as ânsias de quem
se habituou à montanha e às
lides da manhã. (A esposa, mais que
avental, não quererá outro laço?
O fogo que não se aparta e entre
um carinho e outro não se resuma
ao parto?). Entenda, Birminghan
não é distante, e esse baú inglês
recebe os saldos que as castanhas
de Faído não garantem. (A esposa
não come, se descabela e as unhas
ferem o vento). Entenda, um hotel
não se abandona assim: o cadastro
de clientes impede outra mudança.
O amor que me ame entre Faído
e o canal da mancha. (A noite aliciou
a esposa? ela se deu, que importa).
Rendas sobram no banco, clientes no
hall. O idioma alheio fala, se me calo.
Estufa a mesa de tanto fruto. Mas
o baú , por que se esvazia no lucro?
(Do livro: Blanco)
ORELHA FURADA
Dançar
o nome com o braço na palavra: como
em sua casa um maconde.
Dançar
o nome pai dos deuses que pode tudo
neste mundo e suportar o lagarto querendo ser
bispo na sombra.
Dançar
o nome miséria, estrepe e tripa que a
folha do livro é. E se entender dono das letras
em sua cozinha.
Dançar
o nome em sete sapatos limpos para
domingo.
Dançar
o nome com a mulher nhora dele: a
mulher no seu coração tempestade e ciranda.
Dançar
o nome com o braço na palavra berço.
(Do
livro: O homem da orelha furada)
O JOGO DO CÁLICE
Um homem só
morto vê o besouro da palavra,
mas o vivo no seu terno domingo é que pode
negociar. Quantos chegaram das orações e,
lagarto, a compreensão sua do céu punha cabe-
los brancos na manhã.
O vivo e o morto
devem conhecer a miséria do
vento, cada um a seu tempo. Assim irmãos vão
desejar o abraço das palavras.
O que esperar
do esqueleto que pretende ser
um texto? E no vivo algo espera? O corpo da
mulher teve graças porque sonhou na água. E
cá, não há o morto nem o vivo mais certos da
palavra.
A diferença
é no que fazem: um vê o besouro
da palavra, o outro negocia.
(Do livro: O homem da orelha furada)