Sobre a obra de Gabriel Nascente

 

  

(...) e onde fui encontrar a marca de uma personalidade poética intensamente mergulhada no drama do mundo contemporâneo.

  Carlos Drummond de Andrade, RJ, 1970

 

 

Para certa poesia reinante, sofisticada e cerebral, exangue de lirismo, desafiando-nos com o nevoento mistério de um transcendente mundo interior que só os eleitos e iniciados penetram, policiada por uma crítica que, com rigor científico, a expulsou do seu campo emotivo para integrá-la na matemática de rígidas estruturas verbais, os poemas de Gabriel Nascente, imprevistos e lucinantes, explodem como brados de protesto e irreverência. Uma espécie de Fernando Pessoa da quadra atômica, não raro pedestrenante demagogo, mas original, ingênuo, espontâneo e sempre artista.

O impacto de seus versos resulta da atmosfera social da qual deflagram. Era da comunicação, sua forma agressiva e contundente é uma linguagem de processo. Colméia de anônimos (Livraria Martins Editora, São Paulo, 1973) causará inquietação e pânico no melancólico arraial dos decadentistas (...) O pecado deste poeta é a sua lateralidade pessimista, mas esta resulta de um ângulo da tragédia cósmica atual que, pisando com pés humanos as estrelas, destrói mitos, sonhos e deuses.

  Menotti Del Picchia, SP, 1973

 

 

A poesia de Gabriel Nascente tem esse acento antigo e patético dos profetas ou dos alucinados, gaguejando num tom de maldição e de terríveis presságios. Parece-me a voz eterna da humanidade preocupada com problemas elementares e por isso insolúveis dos homens e de suas mesquinhas coisas.

Num mundo profundamente dominado pelo utilitarismo e pelo egoísmo, Gabriel Nascente é ainda uma força da natureza — vento ou nuvem — gritando coisas próprias desses homens que ainda muito jovens possuem um acervo tão grande de ciências e conhecimentos que ninguém sabe explicar como e quando as pode acumular. Num tempo em que a poesia é construída como se constrói um relógio, ele faz poemas como quem come com a mão.

Seu vulto, sua maneira de ser, sua arte lembram-nos Castro Alves ou Rimbaud.

  Bernardo Élis, GO, 1972

 

 

Poeta Gabriel, chegou hoje aqui na floresta, os seus “Aventais da Púrpura”. Abri o livro, dei com estes três primeiros versos “Um galo esparrama a treva”. / E punge longe o silêncio / pelas fendas do mistério”. Fechei o livro e vim logo, no silêncio da madrugada na floresta, dizer que estou feliz com a felicidade que a sua poesia me dá. É verdade: “As águas da alcova / são de fogo”. Viajo hoje de manhã para o rio Andirã, onde tenho a casa que mais me sabe. Vou levando os Aventais comigo.

Um abraço do seu companheiro.

  Thiago de Melo, AM, 1998

 

 

O que vejo em seu trabalho é a ânsia pela verdade, o atordoamento que lhe causa a meditação sobre a vida, patente na sua própria declaração LXXXVII - “Aqui estou à espera da estrela / que possa caber no peito dos homens”. À espera da Verdade todos nós nos encontramos. O Chão de espera traz as pegadas dos andarilhos que somos.

  Napoleão Mendes de Almeida, SP, 1985

 

 

Espantam-se os que confrontam a vasta bibliografia de Gabriel Nascente com a idade quase menina do poeta. Quem lhe conhece (e reconhece) o talento tem torcido os dedos em figa para que ele pare de publicar com tanta sofreguidão. Ou lhe tem puxado imaginariamente as orelhas nos botecos pelo simples fato de ele ser um gênio que amanheceu nos anos 60/70 - portanto, no auge do arbítrio - como se, inconformado embora, vivesse em plena belle époque - quem sabe reencarnando a figura de um Paula Nei mais fecundo e consistente, quem sabe revivendo a despreocupada boêmia e criadora de um Emílio de Menezes sem banha e sem encilhamento.

Gabriel Nascente é um produto típico - melhor seria dizer atípico - desta geração sacrificada, já que, se em 1964 não passava de criança imberbe, seu estro só veio estalar nos negros anos subseqüentes. Em outras palavras: em pleno fascismo, e este, como se sabe, não costuma hierarquizar suas vítimas, ceifando, mutilando, tolhendo e massacrando tudo com a brutal eficiência de mil demônios ensandecidos.

A irrupção de seu talento se dá, pois, no momento em que o fascismo caboclo cava fundo um fosso entre as gerações, esterilizando culturalmente as mais jovens.

Seguindo o conselho de Robert Frost (“É o mundo quem julga se você é um poeta ou não”). Gabriel Nascente, ao revisar e reunir aqui (refere-se a Águas da meia ponte, Civilização Brasileira /Massao Ohno Editores, Coleção Poesia Hoje, Volume 48, RJ, 1981) o que de melhor produziu, informa, que a sua poesia deixa de ser explosão de fogos- fátuos na noite da nossa insônia, para se fazer constelação, poderosa invasão de luz, manhã de sol faiscando na sensibilidade de cada um. Por quê? Porque Gabriel Nascente é antes de tudo poeta, irremissivelmente irmão dos anjos - e um poeta que sabe cultivar a metáfora e outras belas e cada vez mais raras figuras de estilo.

  Antonio José de Moura, GO, 1981

 

 

Aqui e ali, em seus poemas, pontos luminosos indicando as alturas a que atinge o seu espírito recriador; e, igualmente, aqueles instantes de baixo astral, em que forças borônticas parecem dominar o espírito, que se confunde e amesquinha com as chulices do cotidiano - mas, mesmo assim, consegue o poeta superar-se, sem perder o ritmo e a beleza, sem deixar de dar o seu recado.

Apontam os críticos esta nova fase de Gabriel Nascente, em que o poeta amadurece, afia melhor o seu instrumento, vence com mais facilidade a luta tremenda com as palavras, para produzir textos que podem ser tidos como definitivos.

  Torrieri Guimarães, SP, 1982

 

 

Nesta altura do campeonato, quando você já pôs o time todo no campo (e os reservas), já varou tantos campeonatos, é um faixa preta inconteste, está com trinta e tantos “books” no campo... Você, sob qualquer consideração, justa ou não, é um santo. Embora se faça passar por um vira-lata sem dono. Como qualquer poeta da província ou d’Além mar. Você sim, tem dono, são as gentes e essa terrinha de Goiás, que muito estimam você, que não se deixam enganar por palavras minhas.

Você é um vigoroso ser que tem uma vigorosa poesia, que me parece muito leal ao seu tempo, o que é essencial. Você não é um emotivo, não é um educador: é antes um mais discursivo, admoestador, agitador. Mas que garra, que decisiva e vital participação! Você sempre foi um anjo estuprado pelos demônios do mal. Uma virgem num bordel.

  José Godoy Garcia, DF, 1996

 

 

Li com sincera e crescente admiração os poemas de seu livro mais recente, Janelas da Insônia.

É uma obra madura, na qual, porém, você revela grande juventude espiritual e moral: ela é toda viva, calorosa nos sentimentos vigorosos que revela, tanto de bem-querer quanto de repulsa. Tenho comigo que, infelizmente, o avançar do tempo nos enriquece a capacidade de refletir sobre o que nos cerca, mas diminui ou embota nosso tonus emocional. Isso não se passa com você, embora aqui e ali aflore um colorido algo melancólico: Janelas da Insônia é um livro denso e tenso, full of sound and fury, mas - ao contrário do que escreveu o imortal Bardo de Straford-on-Avon, signifyng much!

  Ênio Silveira, RJ, 1988

 

 

Muito grato pela visita de sua bela poesia, dessa A lira da lida cujo primeiro poema já diz bem da força e da finura de sua Lira. Há, neste livro, pelo menos, uma dezena de poemas que o situam entre os poetas mais significativos de nossa modernidade. Composições como “As rugas do outono”, “Compêndio dos esquecidos” ou “As faces da faca” não me deixam mentir.

  Ivan Junqueira, RJ, 1998

 

 

Que magnífica Madrugada nos muros. Que forte poesia! Que avalanche! Que relampejar surrealista do verbo!

Invejável. A vassoura dando coice na miséria. E o corpo saindo em devaneio como um boi saindo para os enigmas da morte. É isto: desordenadamente a vida nos arrasta.

Ainda outro dia eu dizia ao O GLOBO a propósito de uma pergunta idiota sobre a sucessão de Drummond: não há sucessão; essa questão é falsa e anti-drummondiana. O que há é uma dezena de bons poetas espalhados por esse País que deveriam ser melhor conhecidos do público. Não só porque os poetas merecem, mas porque o público os merece.

É o seu caso, Gabriel, em sua renascente poesia.

Affonso Romano de Sant’anna, RJ, 1987

 

 

Custei mas posso dizer o meu presente! ao apelo que você faz com Chão de espera. Inteiramente de acordo com a sua poesia, bárbara, raivosa, revoltada e Chico. Gostei muito do seu livro. O título mostra que em você ainda há esperança. Eu me contento em ir escrevendo meus livros, onde de vez em quando brota um palavrão, uma obscenidade, uma escatologia que são a forma de protesto que ainda resta aos 80 anos que completei a 5 do mês passado. O meu chão é o de des espera. Acredito em mais nada vendo os 130 milhões que dizem que somos, 130 milhões de cadáveres, dando a podridão de seu lombo ao relho. A gente de minha idade está na hora de passar o facho aos mais novos. Receba o meu, meio apagado e sopre-o e acenda-o com sua mocidade.

  Pedro Nava, RJ, 1983

 

 

Após a leitura de todos os livros anteriores de Gabriel Nascente - cujos momentos mais altos geraram e impuseram o rumo destas reflexões posso e me empenho em afirmar que ele é um poeta que colhe a manhã em seus dedos porque pagou o preço de escrever “como se catedrais doessem à porta dos crepúsculos”.

(...) Gabriel Nascente em seu escolhido destino de poeta sabe o que é ficar “na direção de mil janelas”, pois “o ventre que me pariu / chama-se praça”. Seu olhar é longo, vivo, ágil, inquieto, turbulento, e se fragmenta - ora como chuva amorosa, ora desordenado como a areia de estátuas demolidas - sobre os vários aspectos do cotidiano do mundo e da natureza. Nesse cotidiano é que vai colhendo sombra de ossos, sóis desfalecidos, sorrisos paralisados, velas queimando à beira dos esquifes, fomes do ser humano, ou a sonoridade das enxadas e dos braços transformando a Terra à imagem e semelhança do sofrimento e das esperanças do Homem.

Gabriel Nascente, você é realmente um dos maiores poetas deste nosso país!

Moacyr Félix, RJ, 1981

 

 

Com tua poesia límpida, ligada á terra e à gente. Por isso viva, cheia de infância e resitência, duração. Gostei de ler teu livro que se bebe com avidez de um copo de água pura ou se come com a precisão de um pão saído recém do forno. Labareda ou flor dentro do copo, sua palavra sabe da vida e dos irmãos.

  Carlos Nejar, RS, 1980

 

 

Sua poesia não é apenas bela pelo que tem de forma; ela encanta e desperta aplauso pelo que encerra, pelo conteúdo. Desejo que continue a escrever assim e ajude o nosso povo a caminhar.

  NELSON WERNECK SODRÉ, RJ, 1984

 

 

Cada livro seu me dá mais confiança no dia de amanhã. Porque poetas com a sua visão, sua pugnacidade, seu combate permanente é que fazem o amanhecer. E não deixam o sol se apagar, nem a lua sumir de seu luar para que possamos ver as faces do crime, as mãos dos fascínoras, a vergonha desses homens que se amacacaram no poder para aumentar sua fortuna e diminuir a nossa (que nunca tivemos). Seu poema Que país é este precisava ser distribuído em volantes, de mão em mão, porque é um duro manifesto. E que tem feito você com seu poema senão manifestos contundentes, bofetadas na cara dos demagogos, dessa legião do povo? Mas o que mais me impressiona em você, na sua poesia, na sua disposição de luta é que você é incessante, não desanima, nem devolve o facão à bainha. Suas armas estão sempre em sua mão e são manejadas com esse privilégio que é o verso ardente, labareda. Olha: seu encontro com Brecht me leva a dizer que você e ele são pelo menos parentes. Por fim, depois de um belíssimo passeio por Recife, volto à sua dedicatória para dizer que aquele verso “o sol operário dos meus dias” vale por quantas obras foram escritas para dizer isso mesmo... mas nunca o conseguiram. É um verso que vale por um comício, como diria Oswald de Andrade. Parabéns por tudo. E nunca se esqueça do velho admirador, com você sempre...

Jorge Medauar, SP, 1988

 

 

Sua poesia continua viva e atuante, e testemunho disto é Pastoral, que recebi há pouco, e onde encontro muitas confirmações do seu engenho criador, sempre alerta diante da vida. Obrigado, poeta, pela mensagem generosa dos seus versos.

Carlos Drummond de Andrade, RJ, 1980

 

 

O seu Ventania, sem dúvida alguma afastará para bem longe o cisco dos poemas epidérmicos de uma multidão de poetastros, que não trabalham como você, no eu profundo da linguagem e da vida. Parabéns por mais este tento.

Assis Brasil, RJ, 1996

 

 

A sua poesia, que sempre apreciei, foi um prazer. Ela continua forte, inspirada, engajada e, principalmente, bela. A sua beleza multiplica a eficácia do engajamento. Isso não é para qualquer poeta.

  Nelson Werneck Sodré, RJ, 1988

 

 

Lendo-o, Manuela não se sentiria menos triste... Mas talvez sua intenção, ao contrário do enunciado, será antes a de abrir os olhos de Manuela para tudo que é vida, e o canto amargo, que não é único no livro, pois o rosto em pânico, as prisões do ser, a toada do desespero, enchem o balde de flores dramáticas, procura trocar em lucidez e consciência o pranto feminino. Enfim, seu livro deixa impressão funda - e foi a que me ficou da leitura imediata.

  Carlos Drummond de Andrade, RJ, 1974

 

 

... Sua Crônica da manhã - uma boa amostra da sua poesia, feita também de indignação oportuna diante do que há de brutal neste mundo.

  Otto Lara Resende, RJ, 1989

 

 

Em mãos, e já nos portais da alma, o teu Trono de areia. Excelente coletânea, onde o teu verso, mantendo o seu vigor inaugural, cresce em fatura e maturidade. A rispidez da lança e a pureza da semente mantêm-se, mas já temperadas pela chama holocausta da forja. Embora os “búfalos (continuem) mordendo as nuvens”, ao poeta há de caber sair “pelas manhãs libertando (suas) rebeldias de anjo”, “reconstruindo-se em metáforas de sonhos” e “ recosturando suas entranhas” (RP-66).

Vai em frente, anjo anunciador, que nasceste para perturbar as gentes com tua palavra forte, generosa e bela.

  Antonio Carlos Osório, DF, 1990

 

 

Comecemos com dois livros do poeta goiano Gabriel Nascente: Os aventais da púrpura (Goiânia: Ativa, 1997, 160p.) e A lira da lida (Florianópolis: Fundação Catarinense de Cultura, 1997, 176p.). O primeiro nos mostra um poeta que, embora sempre se distinguindo pela veia combativa, sabe cuidar da poesia enquanto pura expressão verbal, ou seja, não se preocupa em expor e condenar apenas, e sim em construir uma obra poética. Para tanto, curiosamente, excele neste livro pelo emprego exaustivo da metáfora e das imagens inusitadas. Os exemplos enxameiam por todo o livro e seria fastidioso enumerá-los. Digamos apenas que semelhantes metáforas nunca aparecem como um fim em si, o poeta não se compraz em criá-las para encher olhos e ouvidos do leitor. Assim, pelo contrário, funcionam como suportes da visão do poeta em relação ao mundo como ele o vê, algo um tanto caótico, porém assimilável e passível de mudança. Vale-se Nascente de figuras da mitologia grega (Orfeu, Jacinto, Sísifo), da Bíblia (Salomão), e da pessoa de outros, já clássicos (Keats), para estabelecer os parâmetros do livro: uma reflexão sobre a existência e sobre a função da poesia. Nascente se inclina para o poema curto e incisivo, muito bem elaborado, e suas imagens afinal compõem um discurso cuidado que abre vastas perspectivas de interpretação da sua poesia.

Um aspecto dessa poesia será o uso de paronímias, por vezes aliteradas, que Nascente emprega para realçar as imagens: “Tordilhado fui tordo”. (pág. 24). Em A lira da lida, tal aspecto surge desde o título, mas não só não é gratuito como o poeta, sem insistir nele, se ocupa mais em elaborar uma poesia (Lira) que surja do esforço (Lida) em obtê-la. Vemos aqui Nascente muito mais preocupado com o acabamento do poema, sem abrir mão de suas imagens e metáforas, que formam um conjunto bem mais coeso que no livro anterior. Diga-se de passagem que ambos os livros, quando inéditos, foram premiados: Os aventais da púrpura obtiveram o 1º lugar no Concurso Literário Hugo de Carvalho Ramos, em 1997; e a A lira da lida ganhou o Prêmio Cruz e Souza de Literatura, seção Poesia Nacional, no mesmo ano, conferido por um júri do qual fiz parte juntamente com Affonso Romano de Sant’Anna e Alcides Buss. Mantendo esse pendor para a imagem inusitada, a metáfora quase surrealista, Nascente retorna à prática da poesia humana que já o distinguira desde Chão de espera (nova edição, 1981). Seus poemas onde ele cuida de “imprimir estesia nas palavras” (p. 26) são igualmente o lugar em que a poesia é feita “de carne, tumulto, execrações” (p. 80). Num estilo a um tempo agressivo e intimista. Gabriel Nascente faz vigorar sua poesia voltada para si mesmo e para a vida exterior, num conjunto de união perfeita e bem acabada.

  Fernando Py, RJ, 1999

 

 

A sua poesia é de uma riqueza léxicoimagística, de uma limpeza, de uma liberdade exata admiráveis. Há versos ou estrofes suas que valem mais e são mais prenhes de poesia do que livros inteiros que por aí se publicam.

  Alexei Bueno, RJ, 1998

 

 

Cumprimento-o pelo Prêmio Cruz e Sousa e pelas opiniões consagradoras transcritas nas abas do volume de A lira da lida, às quais não me atrevo, por dispensável, acrescentar o que quer que seja. Cordialmente.

  José Paulo Paes, SP, 1998

 

Um aspecto que me parece bastante válido para o conjunto de obras de Gabriel Nascente (seis livros em apenas oito anos) é a constância com que ele o está construindo. Daí a possibilidade de se falar da sua confiança no poético, na sua fidelidade a si mesmo e (por que não) na sua total indiferença aos que, camuflada ou provincianamente, tentaram ou ainda tentam desmerecer as suas conquistas pessoais e instransferíveis.

Não se trata de um poeta de iniciação tribal. Neste sentido, aliás, é o poeta mais solitário de Goiás (“Eu sou / uma solidão / que anda”). Daí também a sua força produtiva: escreve para si, para a Poesia e para esse além de si que é o povo, na sua mais alta concepção antropológica e poética.

  GILBERTO MENDONÇA TELES, RJ, 1975

 

 

Unamuno, num ensaio em que diferencia eloquência e ênfase, defendendo esta, mas mostrando que a confunde com a primeira, adoraria estes versos de Nascente: Ó desordem imensa de homens intimados / à melancolia sádida das palavras! / Ó desajeitados serventes do mundo! - Plebeus, sorrisos de mocambo. / Ó pés tão íntimos da terra, / operários do destino.

Gabriel Nascente é o Evtuchenko do Brasil. Porque ele ganhou o direito de dizer as verdades, dizendo as próprias.

  Fernando Mendes Vianna, DF, 1970

 

 

Desde os dezesseis anos (Os gatos, 1966) vem Gabriel Nascente violentando os espíritos, conflitando opiniões, de qualquer maneira se impondo em nosso palco literário, se não pela forma ainda inacabada, ao menos pela indiscutível multivalidez de seus achados, pelo nervo, pela consistência de sua expressão poética. É uma força. Força que se afinou progressivamente através de Reflexões do conflito (1969), Menino de rua (1970), Viola do povo (1972) e do inédito Colméia de anônimos. Não se trata portanto de um anônimo, de um obscuro que o artifício de um apadrinhamento amigo procure valorizar. Nem sua poesia precisa disto, pois já se pode proceder honestamente à avaliação estética e humana de seus versos, como um de seus críticos neste livro (refere-se a Escalada poética de Gabriel Nascente, de Manuel de Jesus Oliveira, Editora Oriente, Goiânia, 1972) intentou, concluído que esse “importuno” adolescente é um espírito “fadado a construir uma grande e inabordável edificação”.

Quanto ao desencontro de opiniões, a não-aceitação unânime de seu alcance, as interpretações mais ou menos geralmente endossadas de que sua obra não passaria de retardada expressão de um derrotismo “fin-de-siécle”, certo é que muitos não souberam ver que o “menino de rua”, por exemplo, é uma visão, uma constatação de ordem social, e não uma pessimista, amarga, angustiada e trágica revulsão do poeta sobre si mesmo, ressumando tédio e íntimo desespero - o que, aí sim, o delimitaria como um tardo fruto do mais ronceiro romantismo. Muitos não souberam perceber que Gabriel se arma de uma visão não só de ver, mas de somar e relacionar os elementos que o cercam e absorvem. E o faz manipulando como instrumento essa ferramenta fundamental que é a vida. Assim a sua amarga consciência do poema, se expressa a revolta do feto em vir a um mundo de ódio conturbado pela bomba, também exprime a visão do momento em que, superada a ameaça da destruição da Poesia, cada homem levará / uma estrela para o plantio, / o amor será geral, / todas as mãos estarão dadas / na construção do novo dia, / e uma manhã tão grande / como a alegria de um menino / se estenderá sobre o mundo. Elementos de força assim, jovem e indomável como Grabriel Nascente, são garantia suficiente de sobrevivência da poesia.

  Domingos Félix, GO, 1972

 

 

O poeta Gabriel Nascente é bem uma gota de ácido sulfúrico pingada na menina dos olhos de muita gente boa (que vive em paz com suas consciências, mas que não alcançará a vida eterna).

Porque sua palavra é pestilenta, contamina os ambientes rarefeitos, torna enfermiça a saúde do corpo e a paz do espírito. Aquele que a escutou, terá doravante perturbada sua tranquilidade doméstica, porque será como se tivesse respirado gás carbônico.

  Jesus de Aquino Jayme, GO, 1972

 

 

Este Gabriel não é - positivamente - o anjo do bem, mas sendo anjo do mal anda fabricando suas peças de bondade como esta viola (refere-se a Viola do povo, Ed. Oriente, 1972) que não dá ao povo: antes a devolve sem polí-la em demasia, mas suficientemente afinada para que todos nela possam tocar, pois a todos ela tocará, sensível que é, sensíveis que são: o poeta, a viola, o povo - agora seu dono.

Se a doença da poesia moderna é não incomodar a ninguém esta viola, este Gabriel, desse mal não sofrem. Viola e poeta continuarão inoportunos durante muito tempo. Ainda bem.

  Reynaldo Jardim, GO, 1972

 

 

Comecei por O Anjo em Chamas, atraído pela ilustração de Omar Souto e pela raridade em encontrar um livro composto a quente, em linotipo, o que me lembrou o nosso (in)comum Amigo e Editor Taylor Oriente, Quixote de tantas liças. Tanta coisa já se escreveu sobre Rimbaud, e agora vem você dizendo coisas inteiramente novas. O poeta das Iluminações com certeza deve estar muito feliz.

Não é fácil para um poeta ser também mão leve na prosa. Ao adentrar A Cova dos Leões, logo se percebe que romance também é sua praia. Realmente anda faltando algo de novo no gênero. Pra lá de válida a sua incursão, a sua nova experiência.

Os catarinenses é que foram premiados ao lhe darem o Prêmio Cruz e Sousa com A Lira da Lida. Não lhes restava outra saída. E com isso o Brasil inteiro saiu ganhando. A edição ficou um primor, com gabarito para atingir todos os pontos do orbe.

  Adovaldo Fernandes Sampaio, GO, 1998

 

 

Não só como o rapsodo, mas como artesão de imagens, Gabriel é a voz mais ferozmente autêntica de nossa época. (...) Gabriel Nascente, sem dúvida, é a mais permanente presença poética na língua portuguesa falada no Brasil. Há trinta anos exterioriza os grasnidos de uma alma inquieta, como se sozinho carregasse as litanias de uma geração de defuntos.

 Aide nor Air es, GO, 1993

 

 

Todo homem gostaria de ser Zorba, o grego. E todo goiano gostaria de ser Gabriel Nascente, o poeta.

  Basileu Toledo França, GO, 1996

 

 

De uma coisa tenho certeza: quando passar o último expresso de superfície, levando em suas canseiras os despojos da memória, ainda restará a perenidade da obra poética de Gabriel Nascente.

  José Mendonça Teles, GO, 1994

 

 

Numa época temerária porque é incerta, pessimista porque é cruel, alarmante porque é transitória, como a em que vivemos, é de se estranhar que alguém ainda faça e leve poesia tão a sério como Gabriel Nascente, mesmo porque não existe nada que a justifique no contexto social do momento.

EDUARDO JORDÃO, GO, 1975

 

 

A cosmovisão de Gabriel Nascente é singular, por isso mesmo incompreendida, mas nunca incompreensível. A sua “dor-de-ser”, o seu desespero manifesto, a sua maneira interjectiva de exprimir o mundo que o cerca, conferem à sua poesia certa originalidade: ele retrata o próprio homem sensível, o vate que “gane para a eternidade”.

  ÁTICO VILAS BOAS DA MOTA, GO, 1970

 

 

Muitas vezes, a impressão que se tem dos poemas de Gabriel Nascente é a de que edifica seu mundo poético, tendo como idéia fixa a imagem de um menino que saiu para a vida de mãos cortadas. Cognominado pejorativamente de O Corvo, apresenta, em muitos aspectos, identidade com o trágico, denso e gutural das obras de Adgar Allan Poe, quando utiliza de uma linguagem forte e contundente, aproxima muitas vezes da concepção de Augusto dos Anjos, em relação à fisicalização das coisas vivas no universo.

  BRASIGÓIS FELÍCIO, GO, 1972

 

 

Gosto muito de sua poesia, que consegue - com economia verbal - mostrar a brandura e a beleza das coisas (O caminho para o pão / é trigo). E com humor inteligente.

Miguel Florian, Sevilla, Espanha, 2000

 

 

Seu livro sobre Rimbaud: O anjo em chamas., é belo, flamejante e de intensa adesão à chama do poeta.

Luciana Stegagno Picchia, Roma, 1999

 

 

Li o seu Madrugada nos muros. Sua poesia me agrada porque vibra, participa, vive - de um lado - e mostra - de outro lado - uma alta qualidade. Já conhecia a que nível ela pode chegar mas os versos de “Na Fazenda Dulcinéia” e de “Natal”, mostram-me que ela é ainda ascendente.

Nelson Werneck Sodré, RJ, 1987

 

 

Ventania confirma a trajetória de resistência da poesia do goiano Gabriel Nascente. A poesia, aqui, jorra aos borbotões, de lirismo, de indignação, basta sopesar o volume do livro. Foge à regra da contenção tão pregada pelos estetas da atualidade.

  Salomão Sousa, DF, 1996

 

 

Não preciso dizer a você que fiquei comentando aqui alguns dos poemas, de uma densidade verbal rara, de uma força vocabular madura e contida, destilando a tragédia pública e a ela colocando a sensibilidade de um poeta maduro. Não vou lhe dizer qual o poema de que mais gostei, pois eles formam uma unidade gestaltiana impossível de se separar em partes. Um universo mágico e trágico, mas elaborado em linguagem das mais condensadas e verbalmente fortes (permita-me este termo agora desprezado pelos corifeus da crítica universitária) atingindo a dramatização desse seu universo doloroso e vibrátil.

  Clóvis Moura, SP, 1985

 

 

Essa sua linguagem, própria, pessoal e inimitável faz de você o poeta não apenas do protesto goiano, oriundo dos problemas regionais, mas o poeta que desdobra a sua poesia como continente de uma angústia maior, cósmica que lhe dá uma dimensão universalista.

  Clóvis Moura, SP, 1988

 

 

A poesia de Gabriel Nascente é feita de definições, de verdades, de lamentos, de denúncias, de protestos, de gemidos - tudo sob forma de metáfora. Não podia ser diferente, pois Arte é metáfora.

Decidi mergulhar nas já fundas águas do conjunto de obras publicadas por Gabriel Nascente, a fim de ler e reler. Atravessei, sem perder o fôlego, o universo de seus eloquentes volumes, de vários tamanhos, desde o de opúsculo - Viola do Povo - até ao de caráter e dimensão de antologia - Águas da meia ponte.

É isto mesmo! Feita de eloquentes lampejos, surpreendentes fosforescências, certeiras percepções, comovedoras autodefinições do poeta, a poesia de Gabriel Nascente expressa um jeito de ver e sentir o mundo. O jeito gabrielino de ver e sentir o mundo: dolorido, sofrido, amargo, mas também repleno de amor à vida, e de esperança no Homem.

  ALAOR BARBOSA, DF, 1995

 

 

Gabriel Nascente pertence a uma estirpe de poetas para os quais se poderia planejar um potenciômetro da plenitude verbal. É o verbonauta de arrojadas metáforas e cósmicas verbalizações figurativas.

  Mário JORGE Bechepeche, GO, 1972

 

 

O romance de Gabriel Nascente, A cova dos leões, caminha, em sua forma estrutural, pelos liames poéticos da narrativa, inserindo em si o fato agradável das nuances estóicas, profundas e humanas, da rara plenitude de quem sabe edificar o enredo, o foco narrativo, toda uma razão de história, sem, contudo, perder-se, cair no emaranhado da chatice, da forjação, que, de certo modo, reina nos chamados “grandes” romancistas que há na literatura feita em Goiás e, sobretudo, na literatura brasileira, (vide, por exemplo, “Estorvo”, de Chico Buarque de Holanda, que é, na verdade, um estorvo de tão chato e pouco significante).

  DELERMANDO VIEIRA, GO, 1999

 

 

Gabriel Nascente é o maior poeta vivo de Goiás. Trouxe ao mundo versos que voam nas alturas de Pablo Neruda e Venícius de Moraes, porque chegam molhados de alma, com a inspiração em chama, e não a poesia pensada ao seco dos sentimentos. Nem é um desses antológicos de um verso só na vida, mas um caudal que se despeja entornado de oceanos.

O poeta Gabriel Nascente parece ter relação sexual com as palavras, que se entregam aos seus poemas derretidas como mulheres fazendo amor. Ele não vive aqui aonde está. Sua cabeça viaja mundos lá onde as estrelas se esfarelam de luz ou talvez ali mesmo no coração do menino que nunca será velho nesse Gabriel que não escreve sua poesia, mas a poesia é que escreve o Gabriel.

  Batista Custódio, GO, 1999

 

 

No segmento da tradição discursiva da Geração-60, pelo menos 10 poetas realizaram textos épicos de alto nível. Nada semelhante a Homero ou Virgílio, Dante ou Milton, Camões ou Tasso, mas em perfeita consonância com a realidade da épica e com o “horizonte de expectativa” do nosso tempo.

Gabriel Nascente abre o ciclo com Menino de rua (1970) revisto e reeditado (1984) com o título de Chão de espera (mudança poetizante porém desprovocante), em que disseca o cotidiano grotesco dos abandonados e explorados, sem pouso e sem rumo, numa realidade em que apenas a linguagem poética consegue infundir alguma esperança.

  Pedro Lyra (In Sincretismo / A poesia da geração-60 - Introdução e Antologia, págs. 107 e 108, Topbooks, Fundação Rioarte, 1995)

 

 

A sua monumental Torre de Babel trata-se de uma poesia afinal otimista, sábia, culta. Parabéns. O seu berço, a cidade de Goiânia, revelou-se nestes últimos anos uma extraordinária usina de literatura.

Luciana Stegagno Picchia, Roma, 2000

 

 

Belo e opulento A Torre de Babel, cujos poemas já comecei a degustar. Você faz muito bem em não cogitar de salvar a humanidade, mesmo porque ela não quer ser salva, como cheguei a pensar quando era adolescente. Não só por sua densidade cósmica, mas também por seu teor de lirismo e de meditação sobre a vida e a linguagem, julgo ser este seu melhor livro de poesia. Mas é bem de ver que a vida ainda não terminou. E muito menos o seu estro.

Ivan Junqueira, RJ, 2000

 

 

Neste inverno carioca, pude aquecer-me por bons momentos com A taça derramada, obra de grande intensidade poética do consagrado goiano Gabriel Nascente.

Sovir, degustei, amei.

O poeta derruba mitos temáticos de forma inusitada. Vai fundo nas teses e antíteses e transfigura a palavra arqueológica. Faz escavações na morada dos deuses e traz o poema lapidado à luz e o entrega aos mortais privilegiados.

Gabriel Nascente é um mestre.

Edir Meirelles, RJ, 1999

 

 

Não é comum que um poeta brasileiro lance um livro com o requinte desse A Torre de Babel, do goiano Gabriel Nascente. Em suas 593 páginas comprime-se a poesia de um dos mais fecundos poetas em atividade em nosso país, com dezenas de lvros publicados, inclusive um romance e uma novela. Seu Lebensraum literário, porém, é mesmo a poesia. E poesia é o que esbanja A Torre de Babel. No autobiográfico poema “O discurso dos cinquent’anos”, afirma: “Sou filho de marceneiro / e aprendi poesia, no outono, / com o gemente assovio das cigarras: / cordas de metais que ardiam na solidão dos ventos (...)”. Sem a “angústia da influência”, mal calvinista diagnosticado por Herold Bloom, Nascente louva com poemas os poetas que ama: Shakespeare, Laforgue, T.S. Eliot, Nerval, Whitman, Pessoa. Sobre este último, canta: “Bendito Fernando Pessoa/ eu me encharco da robusta/ metafísica dos seus versos (...)”. Seu poema “A torre da ereção”, contraparte da outra torre que dá nome ao livro, é uma saudável contribuição à lira de Eros. Enfim, a loquacidade poética de Nascente não cabe num único estilo. Como Mário, é múltiplo, mesmo na poesia ligeria.

Nelson Patriota, RN, 2000

 

 

 

É imbuído dessa perspectiva, desse espírito que os gregos confundiam com a metafísica, mas sempre na perspectiva jornalística, que Ney Teles de Paula vai analisando discursos alheios, devotando-lhes o devido valor, como o faz ao menino multiplicador de sonhos, Gabriel Nascente. Ney Teles é um dos poucos críticos goianos que, à época, chamou a atenção para este humilde poeta que se avulta nas letras goianas. Poeta discriminado, não se sabem as razões. Talvez porque recrie o mundo através da linguagem, através de imagens sui generis, arrancadas do interior de quem carrega uma alma menina, capaz de ler poesia na fala infantil, que deseja encontrar a tomada do sol, às três horas de uma febril manhã. Sem parodiar Octavio Paz, que vê nas imagens a cifra da condição humana, Ney Teles encontra explicações metafísicas para a poesia desse monstrinho sagrado, reinventor de vida e de linguagem, objetivando sobrepujar a angústia e as misérias da existência. Se à época, década de setenta, Ney já percebia a magnitude poética desse pequeno grande homem em poesia e palavras, que diria hoje, diante de A lira da lida e A torre de babel, monumentais obras em que se lêem imagens, como Já faz segunda-/feira na/alfaia dos lençóis:/é manhã nos objetos, ou Eis-me a bordo/de uma estreIa./(Sabendo sim: sabendo não)/pérgulas de jardins! — que/ cargas de eternidade/impregnam o instante?/Trouxas de sonhos/rolam pelo chão.? Certamente repetiria as mesmas palavras ou o mesmo pensamento. Não porque o poeta não tenha mudado. Amadureceu, e muito, em poesia e em humanidade. Por isso, sua arte poética continua cifrando a condição humana e, desse modo, recriando realidades de imaginário e de homens humanos, através das imagens.

(José Fernandes, in A Rosa Paradisíaca, de Nei Teles de Paula, pág. 13, Ed. Kelps, GO, 2000)