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Sobre a obra de Gabriel Nascente |
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(...)
e onde fui encontrar a marca de uma personalidade poética intensamente
mergulhada no drama do mundo contemporâneo. Para
certa poesia reinante, sofisticada e cerebral, exangue de lirismo,
desafiando-nos com o nevoento mistério de um transcendente mundo interior que só
os eleitos e iniciados penetram, policiada por uma crítica que, com rigor científico,
a expulsou do seu campo emotivo para integrá-la na matemática de rígidas
estruturas verbais, os poemas de Gabriel Nascente, imprevistos e lucinantes,
explodem como brados de protesto e irreverência. Uma espécie de Fernando
Pessoa da quadra atômica, não raro pedestrenante demagogo, mas original, ingênuo,
espontâneo e sempre artista. O
impacto de seus versos resulta da atmosfera social da qual deflagram. Era da
comunicação, sua forma agressiva e contundente é uma linguagem de processo. Colméia
de anônimos (Livraria Martins Editora, São Paulo, 1973) causará inquietação
e pânico no melancólico arraial dos decadentistas (...) O pecado deste poeta
é a sua lateralidade pessimista, mas esta resulta de um ângulo da tragédia cósmica
atual que, pisando com pés humanos as estrelas, destrói mitos, sonhos e
deuses. A
poesia de Gabriel Nascente tem esse acento antigo e patético dos profetas ou
dos alucinados, gaguejando num tom de maldição e de terríveis presságios.
Parece-me a voz eterna da humanidade preocupada com problemas elementares e por
isso insolúveis dos homens e de suas mesquinhas coisas. Num
mundo profundamente dominado pelo utilitarismo e pelo egoísmo, Gabriel Nascente
é ainda uma força da natureza — vento ou nuvem — gritando coisas próprias
desses homens que ainda muito jovens possuem um acervo tão grande de ciências
e conhecimentos que ninguém sabe explicar como e quando as pode acumular. Num
tempo em que a poesia é construída como se constrói um relógio, ele faz
poemas como quem come com a mão. Seu
vulto, sua maneira de ser, sua arte lembram-nos Castro Alves ou Rimbaud. Poeta
Gabriel, chegou hoje aqui na floresta, os seus “Aventais
da Púrpura”.
Abri o livro, dei com estes três primeiros versos “Um galo esparrama a
treva”. / E punge longe o silêncio / pelas fendas do mistério”. Fechei o
livro e vim logo, no silêncio da madrugada na floresta, dizer que estou feliz
com a felicidade que a sua poesia me dá. É verdade: “As águas da alcova / são
de fogo”. Viajo hoje de manhã para o rio Andirã, onde tenho a casa que mais
me sabe. Vou levando os Aventais comigo. Um
abraço do seu companheiro. O
que vejo em seu trabalho é a ânsia pela verdade, o atordoamento que lhe causa
a meditação sobre a vida, patente na sua própria declaração LXXXVII -
“Aqui estou à espera da estrela / que possa caber no peito dos homens”. À
espera da Verdade todos nós nos encontramos. O
Chão de espera
traz as pegadas dos andarilhos que somos. Espantam-se
os que confrontam a vasta bibliografia de Gabriel Nascente com a idade quase
menina do poeta. Quem lhe conhece (e reconhece) o talento tem torcido os dedos
em figa para que ele pare de publicar com tanta sofreguidão. Ou lhe tem puxado
imaginariamente as orelhas nos botecos pelo simples fato de ele ser um gênio
que amanheceu nos anos 60/70 - portanto, no auge do arbítrio - como se,
inconformado embora, vivesse em plena belle époque - quem sabe reencarnando a
figura de um Paula Nei mais fecundo e consistente, quem sabe revivendo a
despreocupada boêmia e criadora de um Emílio de Menezes sem banha e sem
encilhamento. Gabriel
Nascente é um produto típico - melhor seria dizer atípico - desta geração
sacrificada, já que, se em 1964 não passava de criança imberbe, seu estro só
veio estalar nos negros anos subseqüentes. Em outras palavras: em pleno
fascismo, e este, como se sabe, não costuma hierarquizar suas vítimas,
ceifando, mutilando, tolhendo e massacrando tudo com a brutal eficiência de mil
demônios ensandecidos. A
irrupção de seu talento se dá, pois, no momento em que o fascismo caboclo
cava fundo um fosso entre as gerações, esterilizando culturalmente as mais
jovens. Seguindo
o conselho de Robert Frost (“É o mundo quem julga se você é um poeta ou não”).
Gabriel Nascente, ao revisar e reunir aqui (refere-se a Águas
da meia ponte,
Civilização Brasileira /Massao Ohno Editores, Coleção Poesia Hoje, Volume
48, RJ, 1981) o que de melhor produziu, informa, que a sua poesia deixa de ser
explosão de fogos- fátuos na noite da nossa insônia, para se fazer constelação,
poderosa invasão de luz, manhã de sol faiscando na sensibilidade de cada um.
Por quê? Porque Gabriel Nascente é antes de tudo poeta, irremissivelmente irmão
dos anjos - e um poeta que sabe cultivar a metáfora e outras belas e cada vez
mais raras figuras de estilo. Aqui
e ali, em seus poemas, pontos luminosos indicando as alturas a que atinge o seu
espírito recriador; e, igualmente, aqueles instantes de baixo astral, em que
forças borônticas parecem dominar o espírito, que se confunde e amesquinha
com as chulices do cotidiano - mas, mesmo assim, consegue o poeta superar-se,
sem perder o ritmo e a beleza, sem deixar de dar o seu recado. Apontam
os críticos esta nova fase de Gabriel Nascente, em que o poeta amadurece, afia
melhor o seu instrumento, vence com mais facilidade a luta tremenda com as
palavras, para produzir textos que podem ser tidos como definitivos. Nesta
altura do campeonato, quando você já pôs o time todo no campo (e os
reservas), já varou tantos campeonatos, é um faixa preta inconteste, está com
trinta e tantos “books” no campo... Você, sob qualquer consideração,
justa ou não, é um santo. Embora se faça passar por um vira-lata sem dono.
Como qualquer poeta da província ou d’Além mar. Você sim, tem dono, são as
gentes e essa terrinha de Goiás, que muito estimam você, que não se deixam
enganar por palavras minhas. Você
é um vigoroso ser que tem uma vigorosa poesia, que me parece muito leal ao seu
tempo, o que é essencial. Você não é um emotivo, não é um educador: é
antes um mais discursivo, admoestador, agitador. Mas que garra, que decisiva e
vital participação! Você sempre foi um anjo estuprado pelos demônios do mal.
Uma virgem num bordel. Li
com sincera e crescente admiração os poemas de seu livro mais recente,
Janelas da Insônia. É
uma obra madura, na qual, porém, você revela grande juventude espiritual e
moral: ela é toda viva, calorosa nos sentimentos vigorosos que revela, tanto de
bem-querer quanto de repulsa. Tenho comigo que, infelizmente, o avançar do
tempo nos enriquece a capacidade de refletir sobre o que nos cerca, mas diminui
ou embota nosso tonus emocional. Isso não se passa com você, embora aqui e ali
aflore um colorido algo melancólico: Janelas
da Insônia
é um livro denso e tenso, full of sound and fury, mas - ao contrário do que
escreveu o imortal Bardo de Straford-on-Avon, signifyng much! Muito
grato pela visita de sua bela poesia, dessa A
lira da lida cujo
primeiro poema já diz bem da força e da finura de sua Lira. Há, neste livro,
pelo menos, uma dezena de poemas que o situam entre os poetas mais
significativos de nossa modernidade. Composições como “As rugas do
outono”, “Compêndio dos esquecidos” ou “As faces da faca” não me
deixam mentir. Que
magnífica Madrugada
nos muros.
Que forte poesia! Que avalanche! Que relampejar surrealista do verbo! Invejável.
A vassoura dando coice na miséria. E o corpo saindo em devaneio como um boi
saindo para os enigmas da morte. É isto: desordenadamente a vida nos arrasta. Ainda
outro dia eu dizia ao O GLOBO a propósito de uma pergunta idiota sobre a sucessão
de Drummond: não há sucessão; essa questão é falsa e anti-drummondiana. O
que há é uma dezena de bons poetas espalhados por esse País que deveriam ser
melhor conhecidos do público. Não só porque os poetas merecem, mas porque o público
os merece. É
o seu caso, Gabriel, em sua renascente poesia. Affonso
Romano de Sant’anna, RJ, 1987 Custei
mas posso dizer o meu presente! ao apelo que você faz com Chão
de espera.
Inteiramente de acordo com a sua poesia, bárbara, raivosa, revoltada e Chico.
Gostei muito do seu livro. O título mostra que em você ainda há esperança.
Eu me contento em ir escrevendo meus livros, onde de vez em quando brota um
palavrão, uma obscenidade, uma escatologia que são a forma de protesto que
ainda resta aos 80 anos que completei a 5 do mês passado. O meu chão é o de
des espera. Acredito em mais nada vendo os 130 milhões que dizem que somos, 130
milhões de cadáveres, dando a podridão de seu lombo ao relho. A gente de
minha idade está na hora de passar o facho aos mais novos. Receba o meu, meio
apagado e sopre-o e acenda-o com sua mocidade. Após
a leitura de todos os livros anteriores de Gabriel Nascente - cujos momentos
mais altos geraram e impuseram o rumo destas reflexões posso e me empenho em
afirmar que ele é um poeta que colhe a manhã em seus dedos porque pagou o preço
de escrever “como se catedrais doessem à porta dos crepúsculos”. (...)
Gabriel Nascente em seu escolhido destino de poeta sabe o que é ficar “na
direção de mil janelas”, pois “o ventre que me pariu / chama-se praça”.
Seu olhar é longo, vivo, ágil, inquieto, turbulento, e se fragmenta - ora como
chuva amorosa, ora desordenado como a areia de estátuas demolidas - sobre os vários
aspectos do cotidiano do mundo e da natureza. Nesse cotidiano é que vai
colhendo sombra de ossos, sóis desfalecidos, sorrisos paralisados, velas
queimando à beira dos esquifes, fomes do ser humano, ou a sonoridade das
enxadas e dos braços transformando a Terra à imagem e semelhança do
sofrimento e das esperanças do Homem. Gabriel
Nascente, você é realmente um dos maiores poetas deste nosso país! Moacyr
Félix, RJ, 1981 Com
tua poesia límpida, ligada á terra e à gente. Por isso viva, cheia de infância
e resitência, duração. Gostei de ler teu livro que se bebe com avidez de um
copo de água pura ou se come com a precisão de um pão saído recém do forno.
Labareda ou flor dentro do copo, sua palavra sabe da vida e dos irmãos. Sua
poesia não é apenas bela pelo que tem de forma; ela encanta e desperta aplauso
pelo que encerra, pelo conteúdo. Desejo que continue a escrever assim e ajude o
nosso povo a caminhar. Cada
livro seu me dá mais confiança no dia de amanhã. Porque poetas com a sua visão,
sua pugnacidade, seu combate permanente é que fazem o amanhecer. E não deixam
o sol se apagar, nem a lua sumir de seu luar para que possamos ver as faces do
crime, as mãos dos fascínoras, a vergonha desses homens que se amacacaram no
poder para aumentar sua fortuna e diminuir a nossa (que nunca tivemos). Seu
poema Que país é
este
precisava ser distribuído em volantes, de mão em mão, porque é um duro
manifesto. E que tem feito você com seu poema senão manifestos contundentes,
bofetadas na cara dos demagogos, dessa legião do povo? Mas o que mais me
impressiona em você, na sua poesia, na sua disposição de luta é que você é
incessante, não desanima, nem devolve o facão à bainha. Suas armas estão
sempre em sua mão e são manejadas com esse privilégio que é o verso ardente,
labareda. Olha: seu encontro com Brecht me leva a dizer que você e ele são
pelo menos parentes. Por fim, depois de um belíssimo passeio por Recife, volto
à sua dedicatória para dizer que aquele verso “o sol operário dos meus
dias” vale por quantas obras foram escritas para dizer isso mesmo... mas nunca
o conseguiram. É um verso que vale por um comício, como diria Oswald de
Andrade. Parabéns por tudo. E nunca se esqueça do velho admirador, com você
sempre... Jorge
Medauar, SP, 1988 Sua
poesia continua viva e atuante, e testemunho disto é Pastoral, que recebi há
pouco, e onde encontro muitas confirmações do seu engenho criador, sempre
alerta diante da vida. Obrigado, poeta, pela mensagem generosa dos seus versos. Carlos
Drummond de Andrade, RJ, 1980 O
seu Ventania,
sem dúvida alguma afastará para bem longe o cisco dos poemas epidérmicos de
uma multidão de poetastros, que não trabalham como você, no eu profundo da
linguagem e da vida. Parabéns por mais este tento. Assis
Brasil, RJ, 1996 A
sua poesia, que sempre apreciei, foi um prazer. Ela continua forte, inspirada,
engajada e, principalmente, bela. A sua beleza multiplica a eficácia do
engajamento. Isso não é para qualquer poeta. Lendo-o,
Manuela não
se sentiria menos triste... Mas talvez sua intenção, ao contrário do
enunciado, será antes a de abrir os olhos de Manuela
para
tudo que é vida, e o canto amargo, que não é único no livro, pois o rosto em
pânico, as prisões do ser, a toada do desespero, enchem o balde de flores dramáticas,
procura trocar em lucidez e consciência o pranto feminino. Enfim, seu livro
deixa impressão funda - e foi a que me ficou da leitura imediata. ...
Sua Crônica da manhã
- uma boa amostra da sua poesia, feita também de indignação oportuna diante
do que há de brutal neste mundo. Em
mãos, e já nos portais da alma, o teu Trono
de areia.
Excelente coletânea, onde o teu verso, mantendo o seu vigor inaugural, cresce
em fatura e maturidade. A rispidez da lança e a pureza da semente mantêm-se,
mas já temperadas pela chama holocausta da forja. Embora os “búfalos
(continuem) mordendo as nuvens”, ao poeta há de caber sair “pelas manhãs
libertando (suas) rebeldias de anjo”, “reconstruindo-se em metáforas de
sonhos” e “ recosturando suas entranhas” (RP-66). Vai
em frente, anjo anunciador, que nasceste para perturbar as gentes com tua
palavra forte, generosa e bela. Comecemos
com dois livros do poeta goiano Gabriel Nascente:
Os aventais da púrpura (Goiânia:
Ativa, 1997, 160p.) e A
lira da lida (Florianópolis:
Fundação Catarinense de Cultura, 1997, 176p.). O primeiro nos mostra um poeta
que, embora sempre se distinguindo pela veia combativa, sabe cuidar da poesia
enquanto pura expressão verbal, ou seja, não se preocupa em expor e condenar
apenas, e sim em construir uma obra poética. Para tanto, curiosamente, excele
neste livro pelo emprego exaustivo da metáfora e das imagens inusitadas. Os
exemplos enxameiam por todo o livro e seria fastidioso enumerá-los. Digamos
apenas que semelhantes metáforas nunca aparecem como um fim em si, o poeta não
se compraz em criá-las para encher olhos e ouvidos do leitor. Assim, pelo contrário,
funcionam como suportes da visão do poeta em relação ao mundo como ele o vê,
algo um tanto caótico, porém assimilável e passível de mudança. Vale-se
Nascente de figuras da mitologia grega (Orfeu, Jacinto, Sísifo), da Bíblia
(Salomão), e da pessoa de outros, já clássicos (Keats), para estabelecer os
parâmetros do livro: uma reflexão sobre a existência e sobre a função da
poesia. Nascente se inclina para o poema curto e incisivo, muito bem elaborado,
e suas imagens afinal compõem um discurso cuidado que abre vastas perspectivas
de interpretação da sua poesia. Um
aspecto dessa poesia será o uso de paronímias, por vezes aliteradas, que
Nascente emprega para realçar as imagens: “Tordilhado fui tordo”. (pág.
24). Em A lira da
lida,
tal aspecto surge desde o título, mas não só não é gratuito como o poeta,
sem insistir nele, se ocupa mais em elaborar uma poesia (Lira) que surja do
esforço (Lida) em obtê-la. Vemos aqui Nascente muito mais preocupado com o
acabamento do poema, sem abrir mão de suas imagens e metáforas, que formam um
conjunto bem mais coeso que no livro anterior. Diga-se de passagem que ambos os
livros, quando inéditos, foram premiados: Os
aventais da púrpura
obtiveram o 1º lugar no Concurso Literário Hugo de Carvalho Ramos, em 1997; e
a A lira da lida ganhou o Prêmio Cruz e Souza de Literatura, seção Poesia
Nacional, no mesmo ano, conferido por um júri do qual fiz parte juntamente com
Affonso Romano de Sant’Anna e Alcides Buss. Mantendo esse pendor para a imagem
inusitada, a metáfora quase surrealista, Nascente retorna à prática da poesia
humana que já o distinguira desde Chão
de espera
(nova edição, 1981). Seus poemas onde ele cuida de “imprimir estesia nas
palavras” (p. 26) são igualmente o lugar em que a poesia é feita “de
carne, tumulto, execrações” (p. 80). Num estilo a um tempo agressivo e
intimista. Gabriel Nascente faz vigorar sua poesia voltada para si mesmo e para
a vida exterior, num conjunto de união perfeita e bem acabada. A
sua poesia é de uma riqueza léxicoimagística, de uma limpeza, de uma
liberdade exata admiráveis. Há versos ou estrofes suas que valem mais e são
mais prenhes de poesia do que livros inteiros que por aí se publicam. Cumprimento-o
pelo Prêmio Cruz e Sousa e pelas opiniões consagradoras transcritas nas abas
do volume de A lira
da lida,
às quais não me atrevo, por dispensável, acrescentar o que quer que seja.
Cordialmente. Um
aspecto que me parece bastante válido para o conjunto de obras de Gabriel
Nascente (seis livros em apenas oito anos) é a constância com que ele o está
construindo. Daí a possibilidade de se falar da sua confiança no poético, na
sua fidelidade a si mesmo e (por que não) na sua total indiferença aos que,
camuflada ou provincianamente, tentaram ou ainda tentam desmerecer as suas
conquistas pessoais e instransferíveis. Não
se trata de um poeta de iniciação tribal. Neste sentido, aliás, é o poeta
mais solitário de Goiás (“Eu sou / uma solidão / que anda”). Daí também
a sua força produtiva: escreve para si, para a Poesia e para esse além de si
que é o povo, na sua mais alta concepção antropológica e poética. Unamuno,
num ensaio em que diferencia eloquência e ênfase, defendendo esta, mas
mostrando que a confunde com a primeira, adoraria estes versos de Nascente: Ó
desordem imensa de homens intimados / à melancolia sádida das palavras! / Ó
desajeitados serventes do mundo! - Plebeus, sorrisos de mocambo. / Ó pés tão
íntimos da terra, / operários do destino. Gabriel
Nascente é o Evtuchenko do Brasil. Porque ele ganhou o direito de dizer as
verdades, dizendo as próprias. Desde
os dezesseis anos (Os gatos, 1966) vem Gabriel Nascente violentando os
espíritos, conflitando opiniões, de qualquer maneira se impondo em nosso palco
literário, se não pela forma ainda inacabada, ao menos pela indiscutível
multivalidez de seus achados, pelo nervo, pela consistência de sua expressão
poética. É uma força. Força que se afinou progressivamente através de Reflexões
do conflito (1969), Menino de rua (1970), Viola do povo (1972)
e do inédito Colméia de anônimos. Não se trata portanto de um anônimo,
de um obscuro que o artifício de um apadrinhamento amigo procure valorizar. Nem
sua poesia precisa disto, pois já se pode proceder honestamente à avaliação
estética e humana de seus versos, como um de seus críticos neste livro
(refere-se a Escalada poética de Gabriel Nascente, de Manuel de Jesus
Oliveira, Editora Oriente, Goiânia, 1972) intentou, concluído que esse
“importuno” adolescente é um espírito “fadado a construir uma grande e
inabordável edificação”. Quanto
ao desencontro de opiniões, a não-aceitação unânime de seu alcance, as
interpretações mais ou menos geralmente endossadas de que sua obra não
passaria de retardada expressão de um derrotismo “fin-de-siécle”, certo é
que muitos não souberam ver que o “menino de rua”, por exemplo, é uma visão,
uma constatação de ordem social, e não uma pessimista, amarga, angustiada e
trágica revulsão do poeta sobre si mesmo, ressumando tédio e íntimo
desespero - o que, aí sim, o delimitaria como um tardo fruto do mais ronceiro
romantismo. Muitos não souberam perceber que Gabriel se arma de uma visão não
só de ver, mas de somar e relacionar os elementos que o cercam e absorvem. E o
faz manipulando como instrumento essa ferramenta fundamental que é a vida.
Assim a sua amarga consciência do poema, se expressa a revolta do feto em vir a
um mundo de ódio conturbado pela bomba, também exprime a visão do momento em
que, superada a ameaça da destruição da Poesia, cada homem levará / uma
estrela para o plantio, / o amor será geral, / todas as mãos estarão dadas /
na construção do novo dia, / e uma manhã tão grande / como a alegria de um
menino / se estenderá sobre o mundo. Elementos de força assim, jovem e
indomável como Grabriel Nascente, são garantia suficiente de sobrevivência da
poesia. O
poeta Gabriel Nascente é bem uma gota de ácido sulfúrico pingada na menina
dos olhos de muita gente boa (que vive em paz com suas consciências, mas que não
alcançará a vida eterna). Porque
sua palavra é pestilenta, contamina os ambientes rarefeitos, torna enfermiça a
saúde do corpo e a paz do espírito. Aquele que a escutou, terá doravante
perturbada sua tranquilidade doméstica, porque será como se tivesse respirado
gás carbônico. Este
Gabriel não é - positivamente - o anjo do bem, mas sendo anjo do mal anda
fabricando suas peças de bondade como esta viola (refere-se a Viola do povo,
Ed. Oriente, 1972) que não dá ao povo: antes a devolve sem polí-la em
demasia, mas suficientemente afinada para que todos nela possam tocar, pois a
todos ela tocará, sensível que é, sensíveis que são: o poeta, a viola, o
povo - agora seu dono. Se
a doença da poesia moderna é não incomodar a ninguém esta viola, este
Gabriel, desse mal não sofrem. Viola e poeta continuarão inoportunos durante
muito tempo. Ainda bem. Comecei
por O Anjo em Chamas, atraído pela ilustração de Omar Souto e pela raridade
em encontrar um livro composto a quente, em linotipo, o que me lembrou o nosso
(in)comum Amigo e Editor Taylor Oriente, Quixote de tantas liças. Tanta coisa já
se escreveu sobre Rimbaud, e agora vem você dizendo coisas inteiramente novas.
O poeta das Iluminações com certeza deve estar muito feliz. Não
é fácil para um poeta ser também mão leve na prosa. Ao adentrar
A Cova dos Leões,
logo se percebe que romance também é sua praia. Realmente anda faltando algo
de novo no gênero. Pra lá de válida a sua incursão, a sua nova experiência. Os
catarinenses é que foram premiados ao lhe darem o Prêmio Cruz e Sousa com A
Lira da Lida.
Não lhes restava outra saída. E com isso o Brasil inteiro saiu ganhando. A edição
ficou um primor, com gabarito para atingir todos os pontos do orbe. Não
só como o rapsodo, mas como artesão de imagens, Gabriel é a voz mais
ferozmente autêntica de nossa época. (...) Gabriel Nascente, sem dúvida, é a
mais permanente presença poética na língua portuguesa falada no Brasil. Há
trinta anos exterioriza os grasnidos de uma alma inquieta, como se sozinho
carregasse as litanias de uma geração de defuntos. Aide
nor
Air Todo
homem gostaria de ser Zorba, o grego. E todo goiano gostaria de ser Gabriel
Nascente, o poeta. De
uma coisa tenho certeza: quando passar o último expresso de superfície,
levando em suas canseiras os despojos da memória, ainda restará a perenidade
da obra poética de Gabriel Nascente. Numa
época temerária porque é incerta, pessimista porque é cruel, alarmante
porque é transitória, como a em que vivemos, é de se estranhar que alguém
ainda faça e leve poesia tão a sério como Gabriel Nascente, mesmo porque não
existe nada que a justifique no contexto social do momento. EDUARDO
JORDÃO, GO, 1975 A
cosmovisão de Gabriel Nascente é singular, por isso mesmo incompreendida, mas
nunca incompreensível. A sua “dor-de-ser”, o seu desespero manifesto, a sua
maneira interjectiva de exprimir o mundo que o cerca, conferem à sua poesia
certa originalidade: ele retrata o próprio homem sensível, o vate que “gane
para a eternidade”. Muitas
vezes, a impressão que se tem dos poemas de Gabriel Nascente é a de que
edifica seu mundo poético, tendo como idéia fixa a imagem de um menino que
saiu para a vida de mãos cortadas. Cognominado pejorativamente de O Corvo,
apresenta, em muitos aspectos, identidade com o trágico, denso e gutural das
obras de Adgar Allan Poe, quando utiliza de uma linguagem forte e contundente,
aproxima muitas vezes da concepção de Augusto dos Anjos, em relação à
fisicalização das coisas vivas no universo. Gosto
muito de sua poesia, que consegue - com economia verbal - mostrar a brandura e a
beleza das coisas (O caminho para o pão / é trigo). E com humor inteligente. Miguel
Florian, Sevilla, Espanha, 2000 Seu
livro sobre Rimbaud: O
anjo em chamas.,
é belo, flamejante e de intensa adesão à chama do poeta. Luciana
Stegagno Picchia, Roma, 1999 Li
o seu Madrugada nos
muros.
Sua poesia me agrada porque vibra, participa, vive - de um lado - e mostra - de
outro lado - uma alta qualidade. Já conhecia a que nível ela pode chegar mas
os versos de “Na Fazenda Dulcinéia” e de “Natal”, mostram-me que ela é
ainda ascendente. Nelson
Werneck Sodré, RJ,
1987 Ventania
confirma a trajetória de resistência da poesia do goiano Gabriel Nascente. A
poesia, aqui, jorra aos borbotões, de lirismo, de indignação, basta sopesar o
volume do livro. Foge à regra da contenção tão pregada pelos estetas da
atualidade. Não
preciso dizer a você que fiquei comentando aqui alguns dos poemas, de uma
densidade verbal rara, de uma força vocabular madura e contida, destilando a
tragédia pública e a ela colocando a sensibilidade de um poeta maduro. Não
vou lhe dizer qual o poema de que mais gostei, pois eles formam uma unidade
gestaltiana impossível de se separar em partes. Um universo mágico e trágico,
mas elaborado em linguagem das mais condensadas e verbalmente fortes (permita-me
este termo agora desprezado pelos corifeus da crítica universitária) atingindo
a dramatização desse seu universo doloroso e vibrátil. Essa
sua linguagem, própria, pessoal e inimitável faz de você o poeta não apenas
do protesto goiano, oriundo dos problemas regionais, mas o poeta que desdobra a
sua poesia como continente de uma angústia maior, cósmica que lhe dá uma
dimensão universalista. A
poesia de Gabriel Nascente é feita de definições, de verdades, de lamentos,
de denúncias, de protestos, de gemidos - tudo sob forma de metáfora. Não
podia ser diferente, pois Arte é metáfora. Decidi
mergulhar nas já fundas águas do conjunto de obras publicadas por Gabriel
Nascente, a fim de ler e reler. Atravessei, sem perder o fôlego, o universo de
seus eloquentes volumes, de vários tamanhos, desde o de opúsculo - Viola do
Povo - até ao de caráter e dimensão de antologia - Águas da meia
ponte. É
isto mesmo! Feita de eloquentes lampejos, surpreendentes fosforescências,
certeiras percepções, comovedoras autodefinições do poeta, a poesia de
Gabriel Nascente expressa um jeito de ver e sentir o mundo. O jeito gabrielino
de ver e sentir o mundo: dolorido, sofrido, amargo, mas também repleno de amor
à vida, e de esperança no Homem. Gabriel
Nascente pertence a uma estirpe de poetas para os quais se poderia planejar um
potenciômetro da plenitude verbal. É o verbonauta de arrojadas metáforas e cósmicas
verbalizações figurativas. O
romance de Gabriel Nascente, A cova dos leões, caminha, em sua forma
estrutural, pelos liames poéticos da narrativa, inserindo em si o fato agradável
das nuances estóicas, profundas e humanas, da rara plenitude de quem sabe
edificar o enredo, o foco narrativo, toda uma razão de história, sem, contudo,
perder-se, cair no emaranhado da chatice, da forjação, que, de certo modo,
reina nos chamados “grandes” romancistas que há na literatura feita em Goiás
e, sobretudo, na literatura brasileira, (vide, por exemplo, “Estorvo”, de
Chico Buarque de Holanda, que é, na verdade, um estorvo de tão chato e pouco
significante). Gabriel
Nascente é o maior poeta vivo de Goiás. Trouxe ao mundo versos que voam nas
alturas de Pablo Neruda e Venícius de Moraes, porque chegam molhados de alma,
com a inspiração em chama, e não a poesia pensada ao seco dos sentimentos.
Nem é um desses antológicos de um verso só na vida, mas um caudal que se
despeja entornado de oceanos. O
poeta Gabriel Nascente parece ter relação sexual com as palavras, que se
entregam aos seus poemas derretidas como mulheres fazendo amor. Ele não vive
aqui aonde está. Sua cabeça viaja mundos lá onde as estrelas se esfarelam de
luz ou talvez ali mesmo no coração do menino que nunca será velho nesse
Gabriel que não escreve sua poesia, mas a poesia é que escreve o Gabriel. No
segmento da tradição discursiva da Geração-60, pelo menos 10 poetas
realizaram textos épicos de alto nível. Nada semelhante a Homero ou Virgílio,
Dante ou Milton, Camões ou Tasso, mas em perfeita consonância com a realidade
da épica e com o “horizonte de expectativa” do nosso tempo. Gabriel
Nascente abre o ciclo com Menino
de rua
(1970) revisto e reeditado (1984) com o título de Chão de espera (mudança
poetizante porém desprovocante), em que disseca o cotidiano grotesco dos
abandonados e explorados, sem pouso e sem rumo, numa realidade em que apenas a
linguagem poética consegue infundir alguma esperança. A
sua monumental Torre
de Babel trata-se
de uma poesia afinal otimista, sábia, culta. Parabéns. O seu berço, a cidade
de Goiânia, revelou-se nestes últimos anos uma extraordinária usina de
literatura. Luciana
Stegagno Picchia, Roma, 2000 Belo
e opulento A Torre
de Babel,
cujos poemas já comecei a degustar. Você faz muito bem em não cogitar de
salvar a humanidade, mesmo porque ela não quer ser salva, como cheguei a pensar
quando era adolescente. Não só por sua densidade cósmica, mas também por seu
teor de lirismo e de meditação sobre a vida e a linguagem, julgo ser este seu
melhor livro de poesia. Mas é bem de ver que a vida ainda não terminou. E
muito menos o seu estro. Ivan
Junqueira, RJ,
2000 Neste
inverno carioca, pude aquecer-me por bons momentos com A
taça derramada, obra
de grande intensidade poética do consagrado goiano Gabriel Nascente. Sovir,
degustei, amei. O
poeta derruba mitos temáticos de forma inusitada. Vai fundo nas teses e antíteses
e transfigura a palavra arqueológica. Faz escavações na morada dos deuses e
traz o poema lapidado à luz e o entrega aos mortais privilegiados. Gabriel
Nascente é um mestre. Edir
Meirelles, RJ, 1999 Não
é comum que um poeta brasileiro lance um livro com o requinte desse A
Torre de Babel,
do goiano Gabriel Nascente. Em suas 593 páginas comprime-se a poesia de um dos
mais fecundos poetas em atividade em nosso país, com dezenas de lvros
publicados, inclusive um romance e uma novela. Seu Lebensraum literário, porém,
é mesmo a poesia. E poesia é o que esbanja A
Torre de Babel.
No autobiográfico poema “O discurso dos cinquent’anos”, afirma: “Sou
filho de marceneiro / e aprendi poesia, no outono, / com o gemente assovio das
cigarras: / cordas de metais que ardiam na solidão dos ventos (...)”. Sem a
“angústia da influência”, mal calvinista diagnosticado por Herold Bloom,
Nascente louva com poemas os poetas que ama: Shakespeare, Laforgue, T.S. Eliot,
Nerval, Whitman, Pessoa. Sobre este último, canta: “Bendito Fernando Pessoa/
eu me encharco da robusta/ metafísica dos seus versos (...)”. Seu poema “A
torre da ereção”, contraparte da outra torre que dá nome ao livro, é uma
saudável contribuição à lira de Eros. Enfim, a loquacidade poética de
Nascente não cabe num único estilo. Como Mário, é múltiplo, mesmo na poesia
ligeria. Nelson
Patriota, RN, 2000 É
imbuído dessa perspectiva, desse espírito que os gregos confundiam com a metafísica,
mas sempre na perspectiva jornalística, que Ney Teles de Paula vai analisando
discursos alheios, devotando-lhes o devido valor, como o faz ao menino
multiplicador de sonhos, Gabriel Nascente. Ney Teles é um dos poucos críticos
goianos que, à época, chamou a atenção para este humilde poeta que se avulta
nas letras goianas. Poeta discriminado, não se sabem as razões. Talvez porque
recrie o mundo através da linguagem, através de imagens sui generis,
arrancadas do interior de quem carrega uma alma menina, capaz de ler poesia na
fala infantil, que deseja encontrar a tomada do sol, às três horas de uma
febril manhã. Sem parodiar Octavio Paz, que vê nas imagens a cifra da
condição humana, Ney Teles encontra explicações metafísicas para a poesia
desse monstrinho sagrado, reinventor de vida e de linguagem, objetivando
sobrepujar a angústia e as misérias da existência. Se à época, década de
setenta, Ney já percebia a magnitude poética desse pequeno grande homem em
poesia e palavras, que diria hoje, diante de A lira da lida e A torre
de babel, monumentais obras em que se lêem imagens, como Já faz
segunda-/feira na/alfaia dos lençóis:/é manhã nos objetos, ou Eis-me
a bordo/de uma estreIa./(Sabendo sim: sabendo não)/pérgulas de jardins! —
que/ cargas de eternidade/impregnam o instante?/Trouxas de sonhos/rolam pelo chão.?
Certamente repetiria as mesmas palavras ou o mesmo pensamento. Não porque o
poeta não tenha mudado. Amadureceu, e muito, em poesia e em humanidade. Por
isso, sua arte poética continua cifrando a condição humana e, desse modo,
recriando realidades de imaginário e de homens humanos, através das imagens. (José
Fernandes, in A Rosa Paradisíaca,
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