Iracema Maria de Macedo Gonçalves da Silva nasceu em Natal em 27 de junho de 1970. Filha do casal João Agripino e Francisca de Macedo. Atualmente é professora de Filosofia do Instituto Federal Fluminense , IFF- Cabo Frio, no estado do Rio de Janeiro. Licenciou-se em Filosofia pela UFRN em 1991, concluiu mestrado na mesma área na UFPB, em 1995, e defendeu doutorado também em Filosofia, na Unicamp, em 2003.

Viveu em Ouro Preto por vários anos e trabalhou como professora pesquisadora da CAPES junto ao Departamento de Filosofia da UFMG, em Belo Horizonte (2003-2007) e como professora visitante do Departamento de Filosofia da UERJ no Rio de Janeiro (2007-2008).

Recebeu os seguintes prêmios literários no Rio Grande do Norte: Othoniel Menezes (1992), Myriam Coeli (1992) e Auta de Souza (1994). Em Minas, ganhou menção honrosa no Prêmio Nacional de Poesia da Cidade de Juiz de Fora (2003). A partir de 1991, começou a apresentar seus poemas em coletâneas realizadas com seus amigos Eli Celso e André Vesne, em Natal.

Publicou dois livros de poemas Lance de dardos, Edições Estúdio 53, Rio de Janeiro (2000) e Invenção de Eurídice, Editora da Palavra, Rio de Janeiro (2004).

Em 2006 lançou “Nietzsche, Wagner e a época trágica dos gregos”, pela editora Annablume, São Paulo. 

          OBRA

                    Poesia

  • Vale Feliz, coletânea, ed. dos autores, 1991, Natal – RN.

  • Gravuras, coletânea, ed. dos autores, 1995, Natal – RN.

  • Ceia das cinzas, coletânea, ed. Boágua, 1998, Natal – RN.

  • Lance de dardos, edições Estúdio 53, 2000, Rio de Janeiro

  • Invenção de Eurídice, Editora da Palavra, 2004, Rio de Janeiro

     Obras acadêmicas

  • Idealismo e Amor fati na estética de Nietzsche. 1995, inédito.
  • Nietzsche, Wagner e a época trágica dos gregos. 2000, inédito.

Prêmios:           

  • Prêmio Othoniel Menezes, 1992, Prefeitura Municipal de Natal.

  • Prêmio Myriam Coeli, 1992, Fundação José Augusto, Governo do Estado do RN.

  • Prêmio Auta de Souza, 1994, Fundação José Augusto, Governo do Estado do RN.     

 

Para adquirir os livros de Iracema Macedo, envie email para macedoamerica@yahoo.com.
Cada livro custa R$ 20.00, incluindo a correspondência registrada para qualquer lugar do país.


capa do livro Invenção de Euridice

   

       Crítica: 

        Segundo Nonato Gurgel (autor da orelha de Lance de dardos), Iracema celebra uma estetização da existência, uma alegria poderosa que reside no fundo de todas as coisas. Sua poesia é lírica, corpórea, alegórica e intensamente aliada à vida. Marcus Vinícius, em crítica publicada no Jornal Panorama da Palavra (RJ), diz que Iracema tem uma poesia erótica, delicada, incisiva e questionadora, exprimindo um lirismo incômodo e não-reconciliado com uma linguagem enxuta e inquietante. Nei Leandro de Castro, em artigo publicado no Jornal O Galo (RN), diz que na obra de Iracema existe um equilíbrio perfeito entre paixão e expressão poética.

textos críticos a propósito de Lance de dardos

Poesia.net 193

São Paulo, quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

Caros amigos,

Neste número, o poesia.net entra em seu quinto ano de circulação. Desde o boletim número 1, distribuído por e-mail em 12 de dezembro de 2002, centenas de poetas já passaram por essa modesta página semanal. Vê-la completar quatro anos é motivo de contentamento para mim. Porém melhor ainda é encontrar razão para acreditar que há, sim, algum lugar para a poesia e que faz sentido continuar por mais algum tempo. A todos que vêm acompanhando o poesia.net meus sinceros agradecimentos pela companhia nesta jornada.

                                               ...

      Confesso que fico tomado de entusiasmo quando descubro um novo poeta. Descobrir, aqui, não tem o sentido pretensioso de “ninguém viu, eu vi primeiro”. Tem, antes a idéia de “como é que eu não havia notado?” É com esse tom de descoberta que trago a vocês a poeta potiguar Iracema Macedo, escritora que me foi apresentada virtualmente pelo poeta juiz-forano Edimilson de Almeida Pereira. Nascida em Natal, em 1970, Iracema leciona filosofia na Universidade Federal de Minas Gerais.

   A autora estreou na poesia ao participar da coletânea Vale Feliz, publicada em 1991 em parceria com Eli Celso e André Vesne. Quatro anos depois, e como os mesmos parceiros, ela integrou nova antologia, Gravuras. Em 1998, marcou presença em nova obra coletiva. Ceia das cinzas, também na companhia de Eli Celso e André Vesne. Seu primeiro livro-solo foi Lance de dardos, que saiu em 2000.O trabalho mais recente de Iracema é Invenção de Eurídice, de 2004.

    Todos os poemas incluídos neste boletim vêm do livro Lance de dardos. Trata-se de um volume que, na minha opinião, está entre o que surgiu de melhor na poesia brasileira nesta primeira década do século XXI. O título obviamente brinca com o “lance de dardos”de Mallarmé. Mas, ao contrário do que sugere, a refer6encia ao poema experimental do poeta francês não leva a uma poesia construtivista.

    Os dardos de Iracema Macedo são atirados por uma poesia solar, emocionada e nitidamente feminina. Em literatura, quando se escreve o adjetivo “feminina”, corre-se o risco de conscientemente ou não, chancelar uma certa visão machista. Não é disso que se trata, aqui. Reafirmo o que disse no início: Lance de dardos é um dos melhores livros de poesia lançados desde o ano 2000. Creio que os poemas transcritos ao lado, por si sós, são capazes de provar isso.

   Mas, feminina, sim. O que se descobre nesses poemas são vozes femininas. Leia-se, por exemplo, “O retorno de saturno”: “Saturno veio comer as romãs/brasas no pomar/ Vivo nua pela casa/leio cartas, fecho as portas”. Em “Idílio”, é também uma mulher que, apaixonada, ama clandestinamente por meio dos livros.

   Mas atenção: não estamos falando de mulheres ingênuas. As múltiplas personagens femininas que habitam a poesia de Iracema são rebeldes, enfrentam o mundo e tentam molda-lo do seu jeito. Uma delas, atrevida, tem reposta na ponta da língua para o Anjo Gabriel: “peço-te afoitamente/ que me faças assim/ muito mais pornográfica do que lírica/ muito mais profana do que tântrica/ muito mais vadia do que tua.” Aqui, o anjo – dominador e masculino – é bem direito e conforme. Gauche é ela, a mulher,  que impõe sua regras no jogo.

O poema do anjo Gabriel comunica-se com este outro, “O Horto”, que vale transcrever na íntegra:

 

O HORTO

Juazeiro, Juazeiro
o peso de tanta gente
vou levando na ladeira
imagens estilhaçadas
cacos de virgens Marias
santos decapitados
braços e pernas de gesso
corações de cera
partes que foram curadas
estilhaços de um guerra
mulheres vestidas de preto
dentro de mim vou levando
cruzes pesadas, romeiros
e uma capela de Santa Clara
acesa dentro do peito

   O ambiente parece ser Juazeiro do Norte, cidade do Padre Cícero e de tantos pedidos às potências celestes. As “imagens estilhaçadas/ cacos de virgens Marias” seriam ao mesmo tempo os ex-votos e as próprias romeiras, carentes, em busca de milagres.

  As personagens femininas desses poemas, sempre mulheres, vão desde a dona Chica da canção infantil “Atirei o pau no gato”até essas criaturas em brasa que abrigam nos braços a ventania de Mercúrio. Mulheres com “o coração cheio de vespas”. Eis um lirismo que,  embora amoroso, não tem o dom de acalentar, mas de ser incômodo. Talvez uma das mulheres de Iracema Macedo explique tudo. É Carmen. Auxiliar do atirador de facas, “ ela recebe os golpes um a um/ Arremessos de perda, luxúria, ciúme.”

Um abraço de aniversário, e até a próxima.

Carlos Machado

 

 

A vida num lance de dardos

Viviane Milward Azevedo

 http://jornalaldrava.vilabol.uol.com.br/artigos/

 

Como se fossem de mármore
Os dardos duram dentro de mim
perfeitos
E aprendi com eles a lançar-me
E aprendi com eles a ter medo
A me esconder dos nomes
Fugir das luzes fortes
E da insensatez dos automóveis
Aprendi com os dardos
Uma espécie de vida iluminada
Uma sutileza para arremessos
Estratégias de ataque
Fugas
Um modo impecável de me abrigar da chuva
E aprendi também uma crueldade
E uma coragem toda feita de começos.
(MACEDO:2000,36)

 

      O poder de libertar o corpo e a alma, dançando com as bacantes, em pleno delírio de sacra orgia. Este que se atenua ao defrontar-se com a possibilidade do amor tardio, tornando a mulher refém do homem amado. Refém e pitonisa de histórias passadas e futuras, já que o presente só o amor conduz. E nesse lançar de dardos tirar a lição para a vida de uma coragem toda feita de começos.

       Essa é a magia do livro de poesias de Iracema Macedo. Magia nordestina que, agora, se instala nas paisagens mineiras. Para nosso prazer, aldravistas ou não, Iracema veio lançar seus dardos por aqui. Dardos delicados, dardos agressivos, como se fossem de mármore causam um arrepio na espinha. Dardos que em Minas, nos põem perante o risco de não mais vivermos sem essa palavra cantada, cheia de cores do nordeste, do Brasil, do mundo. Mundo mulher, mundo menina, realizado pela palavra coisa, palavra som. Esse é o tom do livro de Iracema. Essa poetisa que traz a poesia desde o nome, conseguindo transformar em viagem poética toda a sua vivência fêmea do mundo macho, sempre a procurar o seu porto. Mostrando um eterno desejo de repouso, de âncora:

 

Cada vez me afoito mais
E não encontro margens
E não encontro porto
Só encontro tempestades
Onde atracar
( MACEDO:2000,26)

 

        A brincadeira de signos e sentidos inicia-se na capa, a qual representa delicadamente um dardo, leve, suave, mas que sabemos poder perfurar os vários mundos de uma mulher, o coração de vários homens. Dardo que pode furar o ventre da vida, mas que também capacita no jogo sutil dos arremessos de palavras e sentires. Mas, não se engane o leitor com a aparente simplicidade de seus versos, por trás dessa roupagem simples há uma complexa riqueza. É preciso embarcar de olhos bem abertos com toda a sensibilidade e percepção de pele:

 

Matei o gato, mamãe, matei o gato
mas o gato, mamãe, não morreu
passou o resto da vida
atravessando a sala
ensanguentado
Dona Chica não se espantou
e disse em tom muito sábio:
Esse bicho, Marília, não morre nunca
ou você foge ou finge suportá-lo
(MACEDO, 2000,49)

 

      Iracema vem comprovar que não existe uma escrita só de mulheres, como afirmam alguns curiosos literários, pois sua escrita não marca o gênero, só a vivência do corpo, da alma, do sexo. O sujeito poético que se mostra nesses versos é um ser assexuado: mulher-homem-mulher. Há a permissão para o assujeitamento feminino perante a masculinidade do homem amado e desejado. Sujeição superficial, que domina a fera-homem. Mulheres que se fazem dominadas para conquistar seus homens. Fazendo-os fortes mesmo na fragilidade:

 

Quando o homem sobre mim
Fizer a cara do gozo, estarei velando
Velarei como uma viúva, como uma freira
Como uma puta
(MACEDO, 2000,111)    

 

     A poesia de Iracema é um passeio pela vida da mulher frágil, forte, indefesa e fera. Mulher que se espanta com a pressa do tempo, mas que se entrega  ao prazer do corpo e da alma, se libertando de preconceitos feministas ou machistas. Ela não busca uma doutrina, uma falsa ideologia-mulher, simplesmente se mostra como se vê. Um ser de lado diversos, que se deixa prender pelas armadilhas do sentir, mas que é audaz o bastante para devorar a carne de quem a fere. E essa força ela expõe quando nos conta que enfrentou furacões com vestidos claros ou quando recorre a Drummond para comprovar os desvarios da chegada do amor maduro.

        Passear pelas trilhas de Lance de Dardos é participar de um ritual de vida. E se predispor a encontrar a si mesmo, sem medo dos arranhões que esse passeio possa causar a nós leitores. Esse livro é um brinde à vida, é um convite à busca do ser feliz e inteiro:

 

Há tantas danças e os rituais. Tu não vês o rito de alegria
na planta e mesmo na ferida, tu não vês um rito de alegria
nessa alegria com bordas sagradas em tua perna? 
(MACEDO:2000,109)

 

                              outras críticas a propósito do livro “Lance de dardos”