Poemas de Iracema Macedo  ( do livro  Lance de dardos )

 

           

 

                                                                                       

DANDARA

Eu só acreditava em Drummond:
o amor chega tarde
Não conhecia o amor que fulgura sem aviso
esse que se sabe proibido
o amor que já se sabe perdido desde o início
Eu não acreditava no impossível
vinha tão sóbria, tão cheia de medidas
não conhecia o esplendor da queda
nem a violência dos abismos

 


POEMA DO LOBO-DO-MAR  

           
Como proteger-me desse lobo que vem vindo
Em que ilhas poderei me ocultar
em que barcos ousarei fugir
desse lobo que domina os barcos e as ilhas?

Reúno roupas negras  faca  escudo
De que adianta enfrentá-lo do meu jeito
se ele me despe do jeito que ele quer?

Como proteger-me dessas ondas 
de prazer que ele traz em suas brisas
De que vale feri-lo com meus versos
De que vale me lançar ao mar

Se não há como esconder-me de mim mesma
do exílio que sinto quando fujo

da vontade que tenho de ficar?

 


O RETORNO DE SATURNO


Saturno veio colher as romãs  

brasas no pomar  
Vivo nua pela casa  
leio cartas, fecho as portas  
Saturno me espia pelas frestas  
me sussurra nomes feios  
vivo cheia de varais  
lampiões e pássaros acesos  
Parece que estou esticada entre dois abismos  
entre dois homens  
entre dois vendavais  
Abro a janela  
encaro o deus 
me vejo nos seus olhos  
me vejo dentro dele  
Quando é que esses olhos irão me acordar?  
Quando é que irão me levar?  
 
Quieto no seu canto  
 
Saturno me estende a mão e um cálice  
 
e é como se a vida chegasse  
 
silenciosa e indolor  
 
como os milagres  

 


IDÍLIO


Entre notícias antigas e muralhas  
construí com você  
um amor feito alucinadamente de palavras
Meus versos seduzem os seus  
seus versos aliciam os meus  
Coloquei nossos livros juntos na estante  
para que se toquem  
e se amem clandestinamente  
durante as madrugadas  

 

 


O  CHAFARIZ


Parece que saí de algum sonho, de alguma caverna  
de algum lugar inóspito e aquecido  
Imobilizado feito os corpos de Pompéia  
virei uma estátua de cinza  

Sou uma miragem entre os edifícios
mas tenho a realidade dos fantasmas  
a errância dos bardos  
a necessidade dos mendigos  

Minha imobilidade é um artifício  

A todo tempo oscilo  
entre a inércia do meu corpo  
e a fluidez do rio que abrigo

 

 



REPOSTA AO ANJO GABRIEL


Agora que aprendeste a incendiar-me  
e me adivinhas inteira dentro do vestido
agora que invadiste a sala e o chão de minha casa
agora que fechaste a porta  
e me calaste com teus lábios e língua  
peço-te afoitamente  
que me faças assim  
ínfima e sagrada  
muito mais pornográfica do que lírica  
muito mais profana do que tântrica  
muito mais vadia do que tua

 

 



O RITO DE CARMEM


Ela é uma forma de alucinação  
de hino ao perigo  
e ao furor  
Perfuma-se com um poema  
e se apronta  
como quem vai ao cinema  

Parece que não há riscos  
em tudo que ela faz  
mas ela acorda e dorme  
sitiada  
Mulher em que se atira facas  
ela recebe os golpes um a um  
Arremessos de perda, luxúria, ciúme  

No centro do picadeiro  
Um homem de olhos vendados  
ameaça matá-la  
todas as noites  
diante dos aplausos inocentes

 

 



DESTINO


Matei o gato, mamãe, matei o gato  
mas o gato, mamãe, não morreu  
passou o resto da vida  
atravessando a sala  
ensangüentado  
Dona Chica não se espantou  
e disse em tom muito sábio:  
Esse bicho, Marília, não morre nunca  
ou você foge ou finge suportá-lo  

 



ANCESTRAL


Minha avó era pobre, muito pobre  
mas morava diante do mar  
Minha avó à noite dormia 
                  
[ sobre as águas  

era mulher, era homem  
mas era também peixe  
e era lobo  
mas era também águia  

estendeu sobre mim  
suas asas delicadas  
suas garras  

menina dividida  
eu que levei doces  
voltei cheia de feridas

 

 



AGOSTO


Como um hiato às voltas com o escuro  
pulsa o meu poema  
e vibra frio vidro estilhaçado  
numa ameaça de espanto que me ronda  
Como uma espécie de arma, como um músculo  
o meu poema me cerca  
com gargalhadas de doido  
com esperanças de cura  
Ele me assusta me segura me defende  
com uma mão de fantasma  
contra a morte  
O meu poema é um cio, uma dor que me cuida  
um cão, uma mãe que canta  
um corpo moreno e luta  

 

 



BACANTE


Em meu ninho longínquo  
inicio ventos  
invento cios  
canto e danço em volta do fogo  
transformo meu leite em vinho  
e ofereço meu corpo para os lobos  

 

 



A CHEGADA DE MERCÚRIO


Acendes espelhos por onde passo
e mesmo em tua fúria  
inventas silêncios que me acalmam  
mirantes fogueiras viagens  
tudo me trazes nos dias  
em que ancoras  
tua ventania nos meus braços  

 

 

 



ARDOR  


Um oceano inteiro não basta
para calar no meu peito  
este murmúrio  
de tantas formas de ardor  
tantas formas de estar banida e só  
e não há terra ou chuva  
que arrefeça  
esta porção de mim  
que trago cálida  
esta porção de mim  
que trago presa  
esta meu coração cheio de vespas  

 



O ESPANTALHO  

Ao meu redor cresce verde a lavoura  
e eu sou de seca palha    

Ao meu redor homens se movem e trabalham  
e eu resisto imóvel ao meu ofício triste  

Estou cercado de arame por toda parte
por toda parte assusto pássaros que amo  

Meus braços estão abertos para o espanto  
não para o trabalho ou o abraço  

Meu corpo de palha seca  
nunca sentiu a volúpia dos bichos  

Vivo abismado e só  
Escancarado sob a luz dos astros  

 

 



BILHETINHO  


Quando eu morrer  
mesmo em tristeza devastada  
morrerei da alegria de terem sido possíveis:  
o amor a tristeza e a aventura de ser carne  
em meio a tantas pedras  

 

 



O HORTO


Juazeiro, Juazeiro,  
o peso de tanta gente  
vou levando na ladeira  
tanta imagens estilhaçadas  
cacos de virgens Marias  
santos decapitados  
braços e pernas de gesso  
corações de cera  
partes que foram curadas  
estilhaços de uma guerra  
mulheres vestidas de preto  
dentro de mim vou levando  
cruzes pesadas, romeiros  
e uma capela de Santa Clara  
acesa dentro do peito  

 

 



LORENA NO SÉCULO XIX


O professor amava Lorena  
tão rítmica graciosa  
O lampião se acendia junto às paredes antigas  
e iluminado o latim se oferecia às línguas  
mas fugia o latim, esse danado,  
desertava da vida quando olhos  
de mestre e aluna se encontravam  

Houve latim algum dia? pensava o professor.  
Não, nunca houve  
Inventei essa língua só para amar Lorena  
É a minha ponte para seus olhos  

 

 



O TEU DEMÔNIO  


O teu demônio me segue  
anos a fio  
ele tece flores para mim  
divide meu corpo em partes  
Ele me culpa  
acena feliz por trás das labaredas  
dança ao meu redor  
cresce como uma planta  
eu aparo suas bordas seu rabo seus chifres  
O teu demônio me encanta  
como um retrato antigo amarelado  
uma xícara de louça no mercado  
O teu demônio me espanta  
canta para mim todas as noites  
me arde me explora me atormenta  
O hálito quente sobre a minha boca  
a febre sempre  
O teu demônio vai embora hoje  
eu fujo dentro dele a galope  
eu vivo dentro dele feito um passarinho  
feito uma coisa miúda enorme pobre  
dilatada como um crucifixo  
dura como uma esmeralda  
Me esmero e espero  
um dia me chamo Laura  
tu me abocanhas os peitos  
eu te abocanho a alma  

 

 



ORÁCULO

 

O pássaro no seu vôo encontrará o infortúnio  
Será ferido por um raio  
seu  coração de ave trespassado  
por setas de ilusão e de beleza  
Querendo o temível  
e transgressivo  
o pássaro assim tão desmedido  
poderá espatifar-se no rochedo  
ou despencar no mar  
atordoado  
no vôo proibido do desejo