Poemas de Julio Cesar Monteiro Martins



AS ALGEMAS DA TERRA    

Que tenho eu a ver com Cuzco
Guayaquil
ou Conceição do Mato Dentro?
Por que sou assim
Tão sem cursos e recursos?
Por que tão oceânico?
Por que sou assim
Tão latino-viralata?
Por que tantas perguntas
E miséria ideológica?
Por que tanta terra
Coagulada?
Por que essa pele parda
Da cor do cavalo do Rey?
Por que são meus cabelos
Morcegosos?

Que tenho eu a ver
Com calendários astecas
E cuias bororos?
Que tenho eu
Com a agonia antártica?
Por que me envolvo
Con haciendas e corporeichons?
Por que viajo
No trem da morte?
Por que assim
Tão barroco e futurista?
Por que me esgano
Pelo Peñarol ou Vila Nova?
Por que tão plácidas
As margens do Ypiranga?
Por que deste jeito
Tão otário e hospitaleiro?  

Que gestação maldita
Me faz assim
Tão mal parido?

Que tenho eu
Com os filhos da desgraça?

Sim
Que tenho eu
Com as ordens da Inglaterra
Ou com as tropas de Pizarro?
Com as folha de coca?
Com tabaco e canivete?  

Por que tantas léguas
Pela Virgem de Guadalupe
Ou pra chegar a Aparecida?
Por que tão longe
O purgatório?
Por que palmeiras
Onde cantam os assassinos?
Por que assim
Tão visceral e podre?
Por que assim
Tão assim-assim?

Que tenho eu
Com o rótulo sanguíneo
Destas plagas?

 Sim
Que tenho eu a ver
Comigo mesmo?

 

                 

 

 

VIA SALÁRIA

 Até quando, Roma
Terei que suportar
Tua decadência?
Até que ponto
Injetarás poder
Em tantos césares?
Se tuas vinhas secaram
Se mais não brotam parreiras
Se o vinho da safra melhor
Avinagrou.

Até quando, Roma,
Terei que lamber teu pus
E afiar teus paus?
Até que ponto
Inda assarás teus porcos
Para os grossos corpos?
Se teus pratos racharam
Se teus copos trincaram
Se a prata da melhor jazida
Azinhavrou.

Até quando. Roma,
Terei que cobrir teus vales
E mentir teu saldo?
Até que ponto
Vestirás em trapos
Teus heróis eretos?
Se teus grãos rarearam
Se tuas pragas vingaram
Se o trigo da melhor colheita
Mofou.

 Até quando, Roma,
Terei que fincar teus cravos
Nas crucificações?
Até que ponto
Cederás teus filhos pródigos
Aos tridentes e aos leões?
Se tuas vaginas trancaram
Se tuas entranhas murcharam
Só o óvulo das melhores luas
Menstruou.

 Até quando, Roma,
Terei que venerar
Teus falsos deuses?
Até que ponto
Entregarás os pontos
Às bárbaras falanges?
Se tuas forjas ruíram
Se tuas bigornas racharam
Se o gládio do bronze melhor
Espiralou.

 Até quando, Roma,
Terei que subornar
Centuriões?
Até que ponto
Recusaras em fogo
As tuas vias?
Se tuas selas soltaram
Se tuas baias se abriram
Se a manada das melhores éguas
Debandou.  

   


 
 
 

DESENCANTO EM UNIVERSO

 Fiz de mim
(ou me foi feito)
um projeto original
esboço
de quem antecipa
grande festa
carnaval colosso.

Minha construção  
foi traidora. 
Labirinto.  
Pêndulo alterado.  
O esqueleto articulado  
do futuro  
era conceito impuro,  
era fantasma duro  
dos meus sonhos:
Muro.

Nem cheguei a perceber
o momento volátil  
do ser.  
O ápice  
amputado no processo, 
entre o ir e o vir  
da morte.  
A consciência do corte  
na fadiga  
das pernas  
do mundo.  
Partícula atômica  
idéia
fragmento de segundo.

A aventura humana
é uma parábola  
cega  
que ao prometer  
nega.  
Rastilho de pólvora  
em círculo.  
Malogro.  
Uma piada.  
Uma roleta  
degenerada  
que ao dever a todos  
não dá prêmio a cada.  
Um assalto  
do tempo
à mão armada.

Armário vazio
coleção de perdas  
espaço.  
Gavetas que reclamam  
seu frio.  
Cadelas castradas  
em pleno cio.
Mormaço.

E uma paixão antiga
a morrer  
de asfixia.  
Um apetite, 
de anorexia.  
Um tesão  
corado, 
de anemia.  
Uma rebeldia,  
de tédio.  
Um ácido.
Um remédio.

Fica de tudo
um quase.  
Um prédio  
que perdeu a base.  
Um caminhão  
de cacos  
abstratos.  
Uns poucos atos.  
Saltos.  
Mergulhos.  
Sensações de enjôo.  
Uma locomotiva  
que ao perder o freio
não levanta vôo.  


 
 
 

O ELEVADOR  

Você que espera o elevador
Que espera  
Sua carruagem mecânica  
Para o alto  
Lembre-se que o alto  
Não existe.  
Que o movimento humano  
É horizontal e oceânico.  
Que o único elevador possível  
É o elevador interno  
Suspenso pelo tempo  
Que leva todos os homens  
Em sua caixinha lacrada  
De constrangimentos, desejos  
E acariações generalizadas
Para um andar desconhecido  
Onde você 
Impaciente  
Está só  

À espera de si mesmo.



UMA VISÃO  

naquela tarde  
na estrada do sítio  
o sol penetrando a chuva  
fez pintar no céu  
um  arco-íris tão vivo  
que parecia tinta  
tão denso  
que parecia sólido  
tão feliz em seu mistério  
de aparição  
que parecia um espectro  
súbito
de uma euforia

durante meia hora  
como um portão de cores  
o arco se oferecia  
diante de mim  
e eu o seguia  
e o perseguia  
na estrada de terra vermelha  
como um cachorro  
que ladra e corre  
ao lado de um cavalo

a chuva  
que lavava as folhas  
e toda a natureza  
lavava a minha alma pequena
de elevador  
e seu apêndice de medo  
onde engarrafado  
escondo  
no cinzeiro sujo do painel  
um maço vazio de mim

e o arco-íris  
tão perto  
sempre perto  
sempre igualmente perto  
e daí inalcançável  
caminhando à minha frente  
com meus próprios passos  
era o desejo de ter sido  
meu desejo  
de ter sido outro  
dentro de mim mesmo  
de ter sido encantado  
na magia da infância  
no desenho rabiscado  
do homem simples  
que não fui  
do homem folha  
em discreto arbusto  
de floresta virgem

e então pensei  
no espectro das décadas  
que como um arco-íris  
sobre mim  
lentamente  
se desvela  
e me acompanha ao largo  
pela estrada da Terra  
pensei no balão que sobe  
pingando parafina  
pela noite  
já fui também esse balão  
pensei na namorada  
e seus cabelos fartos  
no cheiro de seus cabelos  
na saliva morna e ansiosa 
do desejo  
pensei no acidente  
no acampamento
nas ondas  
nos comícios  
nas crianças  
nos tiros em Lennon  
já fui esses tiros  
já fui tantos tiros  
que assassinei-me  
no projeto inútil de mim mesmo  
na morte eficaz  
do transformar-me  
reconhecendo a humanidade  
no espelho do banheiro  
no espelho ferido do banheiro  
na teia de nervos  

há no homem  
um vazamento  
silencioso  
de ser  
um conteúdo  
que escoa invisível  
para o nada  
uma essência  
que evapora
uma abrasão  
no atrito  
de seus mecanismos  
diários  
com seus projetos  
cada vez mais raros  
uma colônia de traças  
que prolifera na alma  
e deixa a vontade  
oca
e a substância  
pouca  

o arco-íris  
foge de mim  
tão rápido  
quanto o persigo
deixo que a chuva  
encharque  
meus cabelos  
e sapatos  
e camisa  
e lave  
e borre a estampa de meu rosto  
no mapa de meu tempo  
não tenho mais tempo  
nem década  
nem falsa promessa

na manchete das nuvens  
leio mais  
que na tinta dos jornais  
há mais notícia  
no casulo  
que no vídeo  
na informática das pedras  
no laser dos vagalumes  
nos bits  dos girassóis  
desapareço  
na estrada do sítio  
pendurado firme  
nos meus ossos  
a caminho  
de um arco-íris real  
filho do sol  
que penetra a chuva  
inatingível

é a minha estrada  
um desvio mágico  
da outra  
da falsa estrada  
do asfalto negro  
que me conduz  
veloz  
desesperado  
a um arco-íris  
sem cor  
impresso opaco em off-set  
no céu público  
estático  
à espera do meu ser  
esvaziado  
como um arrepio  
como um arco frio  
de cimento armado.  


 
 

 

FOTO LUX, MAIO DE 48  

Minha mãe sempre teve dezessete anos  
como na foto em sépia  
no centro do papel-cartão  
cor marfim.  
Minha mãe sempre teve dezessete anos.  
Fui eu que envelheci em seu lugar.  

Ela nunca foi tão minha mãe,  
tão ela mesma,  
tão bela, essencial  
e sem mistura  
quanto aos dezessete anos,  
muito antes de eu nascer.  

A minha silhueta hoje,  
a minha sombra na parede,  
já faz de mim  
estranhamente  
o pai de minha mãe  
aos dezessete anos.  
O retrato de Dorian Gray  
do seu retrato.  

Devo permitir  
que o tempo me arruine
porque vícios e remorsos  
dão sentido à decadência.  
Mas algo de meu brilho  
permanecerá brilhando  
em sépia e marfim  
nos olhos da menina  
que cresceu tão de repente  

e que descobriu-se bonita  
no olhar ofegante do fotógrafo  
na imagem invertida pela lente  
que fez de sua câmera a gaiola  
para o pássaro mais belo  
e mais canoro  
que ele jamais ouviu.  
O pássaro era minha mãe.  
Minha mãe aos dezessete anos.  
(E eu,  
que nunca tive dezessete anos…)  

 

 

A NOTÍCIA 

Quando recebi a notícia  
fiquei calmo.  
Não quis correr  
nem gritar  
nem desaparecer no mundo.  
Apenas abri o meu peito  
como uma velha gaiola  
e retirei de lá meu coração,  
um pombo agitado.  
Então abri os dedos,  
soltei-lhe as asas,  
e deixei-o voar de volta  
para o país distante  
de onde ele veio um dia.  

 

 

 

DESPEDIDA

Dia de chuva e frio,  
preguiça  
e cheiro de coisas boas:  
alho na frigideira,  
café fresco,  
bolo de baunilha, canela.

O piano de Nazareth  
baixinho,  
os dedos dela nos meus cabelos  
e o cheio dela  
inconfundível  
perto da nuca,  
ou na barriga  
por baixo do pulôver de lã.  

É possível despedir-se assim,  
de olhos fechados, casando um inverno  
com outro inverno.  
Envelhecer  
tomando chá de capim-limão  
e cochilando na rede.  

Marcar o penúltimo capítulo
do romance  
com um arco-íris de cetim.  
Florescer  
em fios brancos  
em fins de maio. Já bem longe  
de um janeiro  
selvagem,  
pré-histórico, e um pouco antes  
do fim do mundo  
por volta de setembro e outubro,  
quando chega a primeira primavera  
que não foi feita pra mim..  

 

 


 

  NA MOCHILINHA DE LORENZO

   

Uma grande aranha peluda,  
um gafanhoto,  
um escorpião,  
uma formiga,  
dois sapos  
e uma lagosta que grita  
quando eu, distraído, piso nela.  
Este repugnante grupinho  
de borracha  
é o brinquedo favorito  
do meu menino de três anos.

É meio dia.  
Ele tem que ir embora.  
Vai ficar na casa da mãe  
por uns dias.  
Tenho que vesti-lo melhor  
e levá-lo de carro até lá.  
Ele sabe que tem que ir agora.

Encho a sua mochila verde  
de plástico  
com todos os seus insetos.  
Um depois do outro  
eles voltam ao ninho.  
Onde quer que vá  
ele leva os seus medos  
domesticados.  
Até a mim ele os apresentou.  
É valente o meu guri!  

Enquanto os coloco na mochila  
sinto que estou só repetindo  
um velho gesto conhecido.  
Há muito tempo guardo  
os meus terrores  
dentro de mim,  
e eu também, 
onde quer que vá,  
os levo para passear  
junto comigo.  
No lugar da alma  
hoje trago uma mochila  
cheia de bichos.  
Serão eles de verdade,  
ou de borracha também?  

O meu coração se aperta  
ao vê-lo pronto para partir.  
Ele está me esperando  
diante da porta da rua  
com a mochilinha nas costas.  
Ele em olha e me espera,  
inconsciente de si mesmo,  
tão pequenino, tão frágil,  
tão leve,  
mas já um brioso vencedor  
de tantos difíceis troféus.  

 

 


 

RORAIMA, ALASCA  
 

Palpitações no vazio.  
Horas de confeito  
sobre uma taça de névoa.  

Sobre a cômoda  
tinha um mapa do Brasil  
feito de espuma de borracha  
onde cada estado  
era uma pecinha colorida:  
o meu país perdido  
era, ali em cima,  
nada além  
de um quebra-cabeças.  

Lá no alto do mapa  
tinha um estado  
isolado  
onde não vai ninguém,  
não conheço ninguém  
que já tenha pisado lá.  
Se chama Roraima,  
e as pessoas só sabem que ele existe  
porque lá vivem ainda  
alguns índios Yanomami,  
a tribo mais primitiva  
e mais sábia  
– ao menos é o que dizem –  
que vive sobre o nosso planeta.  

Roraima é o Alasca do Brasil  
– pensei,  
– divertindo-me com a idéia. 
Ali também se encontram  
montanhas altas e desertas
sempre cobertas pela névoa  
que se alça da selva:  
o Pico da Neblina.  
Um Olimpo  
úmido e inútil  
para monoteístas e ateus  
como nós.  

Estava olhando  
aquele mapa  
sobre a cômoda  
pelo buraquinho  
do prendedor da prancheta.  
Mirei  
a Baía da Guanabara  
e ali  
apontei para a minha casa.  
Fantasiei  
que se eu conseguisse passar  
por dentro daquele buraquinho  
chegaria súbito em casa,  
do outro lado do mundo.  
Que pensamento esquisito!  

Me veio um acesso de tosse.  
Desde que eu acordei  
sabia que tinha apanhado  
um resfriado.  
Depois aconteceu  
que a porta da geladeira  
se recusava a fechar-se  
porque tinha acumulado gelo  
dentro do congelador.
Desliguei-a  
e deixei descongelando.  
Depois limpei-a  
e enxuguei-a,  
e com isso  
a gripe acabou por me pegar.  
Mas o que é que eu podia fazer?  
Deixar a geladeira
a noite toda  
com a porta aberta?  

O que é que tem a ver
a geladeira  
com o Pico da Neblina?  
E onde está a poesia,  
caro meu?  
Sabe o que é?…  
Tudo tem a ver com tudo,  
e a poesia está por toda parte,  
caro meu.  

Tudo tem a ver com tudo.  
Quer ver só?  
O frio dentro de mim  
parece a água que pingava  
dentro da geladeira desligada.  
E aí entra a música  
que eu estou escutando agora  
enquanto escrevo:  
É o “Drácula”  
de Phillip Glass.  
Tem tudo a ver  
com o Pico da Neblina  
ou com uma porta  
que se recusa a fechar-se.  

Sim, porque a verdade  
é que tudo tem a ver com tudo.  
Tem a ver a lua  
com as ondas do mar  
– dizem.  
Tem a ver o cu  
com as calças.  
Tem a ver o mel  
com a banha  
e o tipo de estrada  
com o tipo de calos.  

E além disso,  
tem a tumba sempre à espera  
com seu fedor de mofo
– aqui entra o Drácula  
novamente.  
Tem o desejo  
das grandes coisas
e o gozo  
das pequenas.  
(Hoje à noite  
eu vi um filme na TV
no qual um homem  
morria  
e deixava a sua amante grávida  
de seu primeiro filho,  
que ele jamais conhecerá.  
Em silêncio  
agradeci não-sei-quem  
que me permitiu  
de viver o bastante  
para conhecer o meu).  

Vocês todos  
são ótimas companhias  
(um pouco discretas demais,  
é verdade)  
mas agora queiram desculpar-me:  
uma xícara de chá  
vai melhorar a minha tosse.  
Os esquimós do Alasca  
se gripam também
e também bebem chá?
Os esquimós do Alasca  
não serão menos sábios  
do que os Yanomamis…  
A poesia sem dúvida  
é uma bela coisa,  
e é uma bela coisa  
poder escrevê-la.  
Mas quem disse  
que a poesia  
vale mais  
do que uma xícara de chá?  
Até Eliot teve que enfrentar
esta mesma dúvida  

before the taking  
of the toast and tea  

Eu pelo meu lado  
já tomei uma decisão.  
Tomarei chá  
com biscoitos amanteigados.  
E assim tomo um pouco de vida.  

Ao menos tento