– Alô!
– Hugo?
– Sim.
– É a Janaína. Está lembrado de mim?
– Janaína?... Claro! Mas há quanto tempo... Você sumiu...
– Pois é... Sumimos, né?
– Há quanto tempo... Uns quinze anos...
– Dezesseis anos, Hugo... É muito tempo mesmo... Mas eu fiquei tão
feliz ao ver uma foto sua na Veja, há uns meses atrás... Você está bem.
Está mais sério... Ou foi só a foto?
– Devo estar mesmo. Tanta coisa aconteceu... E você, como está?
– Tenho muita coisa pra contar... Coisas demais... Depois eu te conto
pessoalmente...
– Eu li sobre você há uns cinco anos, no jornal. Você montou uma
galeria de arte no Rio, não foi?
– Foi, a Maison Vert... Mas já mudou tudo. Escuta, eu estou ligando de Cuiabá,
em Mato Grosso. Foi uma odisséia conseguir o seu telefone... Ainda mais aí
onde você está morando, uma praia, Ponta Negra, não é?
– É... Resolvi sair do circuito por uns tempos...
– Olha, eu estou interessada em conhecer os seus trabalhos em cerâmica...
Depois eu explico... Vou tomar um avião pro Rio amanhã cedo e alugar um
carro no aeroporto. Como é que eu chego aí?
– Bom, pega a estrada antiga pra Búzios, a do litoral, e uns vinte
minutos depois de Maricá tem uma entrada pra Ponta Negra, você dirige mais
uns quinze minutos e chega na cidadezinha. A minha casa fica na Rua das Azaléias,
número trinta e seis. Mas qualquer dúvida, você pergunta pelo meu nome na
Padaria Central ou ao gerente da pizzaria, que fica aberta até tarde. Não é
difícil de achar.
– Tudo bem. Lá pelas oito ou nove da noite eu estou chegando aí...
Não vou te atrapalhar?
– Não, eu estou tranqüilo aqui... Vai ser ótimo receber uma
visita... Ainda mais você... Que incrível!...
– Tá legal, querido. Então até amanhã. Um beijo.
– Beijo.Tchau.
– Você está nervoso, meu gato? Que telefonema foi aquele?
– Não foi nada, Lídia... É um pessoal que vem aqui amanhã. São
de uma galeria de... de São Paulo. Vêm conhecer os meus trabalhos.
– Que legal, Hugo! Eu não falei que ia dar certo? Você vai ver...
Você vai viver do seu trabalho como artista. Vai vender à beça...
– É... Vamos ver...
– Hugo, você tem que pensar positivamente. Esse seu pânico de que o
dinheiro vai acabar e de que você não vai ter como viver, isso está
destruindo você, meu gato. Olha, viver, todo mundo vive, com muito ou com
pouco dinheiro. Vai pintar grana, você vai ver. E se não pintar, de fome a
gente não morre... Eu te ajudo. Pelo menos nas compras de super-mercado, tá?
E o meu projeto pra Fundação Ford vai sair, você vai ver... Aí a gente
fica sem problemas de grana, pelo menos por um tempo...
– Lídia, você é um amor, mas você acha que eu, que sei das suas
dificuldades, vou deixar você comprar comida pra mim? Seria humilhante, não
é?... Além disso, você pensa que eu não lembro que, na semana passada, você
estava quase chorando porque não podia ajudar a sua irmã a pagar a prestação
da geladeira... Você mal pode pagar as passagens de ônibus pra vir aqui me
ver... Nós vamos sobreviver como?
– Eu sei... É que eu não agüento ver você assim, tenso o tempo
todo, Mas amanhã esse grupo de São Paulo vai encomendar uma porção de peças,
você vai ver... Aliás, você devia estar contente...
– Lídia, você não vai se vestir, não? Daqui a meia hora sai o ônibus
pro Rio. E é o último de hoje.
– Tá legal... tá legal... eu já vou... Mas me dá um beijinho só
antes... Deixa eu montar em você?...
– Vem, vem... Você tem um cheiro tão gostoso... Mas rapidinho, tá?
Depois a gente sai correndo pro ponto de ônibus...
– Mandou chamar, dona Janaína?
– Só um momento... Carlão, Pepe, vão lá pra fora um instantinho.
Olha, peçam pra Tiana trazer um chá pra mim. Chá de camomila, com aquela
geléia de damasco que eu trouxe... Antônio, pode sentar aí. É o seguinte,
eu vou ao Rio amanhã de manhã e na quarta-feira eu já estou de volta. Como
é que ficou aquele acerto com o pessoal da Polícia Federal?
– Tudo certo, dona. Eles vão abrir pros colombianos. O Doutor Macedo
me disse pessoalmente que está tudo limpeza. Amanhã ele vai mobilizar a
equipe toda, inclusive esses novos que chegaram de Brasília, pra dar uma
batida fajuta na fazenda do Cirino. O pessoal do Cirino já foi avisado pra
deixar uma barraca de refino desativada, pra não dar muito na vista e não
frustrar totalmente a batida. O pessoal da polícia só volta por essas bandas
na terça à tarde, e até lá o carregamento já foi despachado.
– Quanto vem desta vez?
– Setecentos... Oitocentos quilos...
– Podiam aproveitar pra mandar o dobro disso.
– Mas o acerto foi esse, madame...
– Só um momentinho, Antônio... Tiana, pode deixar a bandeja aqui
que eu mesma me sirvo. Pode ir agora... Quer chá, Antônio?
– Não senhora. Obrigado.
– É o seguinte. Eu sei que tem muito mais mercadoria seguindo pro
sul toda semana. Mais de cinco mil quilos. Esses colombianos filhos-da-puta
estão negociando com mais alguém por aqui. E eu acho que eu já sei com quem
é...
– Não é isso não, dona Janaína. É que o carregamento do pessoal
de Cáli também está passando por aqui.
– Pois é... Aproveitando a rota segura... Usando o meu esquema de
segurança... E quanto é que eu estou levando nisso? Nada! Eu sei que você
tem contato com eles também, Antônio...
– Eu, dona ?... Eu não!...
– Antônio... Porra! Você acha que eu sou babaca? Tudo bem... Manda
um recadinho pros seus amigos de Cáli. A próxima batida “fajuta” da Polícia
federal vai ser em cima do carregamento deles. Ou então trinta por cento
ficam por aqui. Eles escolhem. Segurança tem preço.
– Sim, senhora.
– Na terça à noite eu lhe telefono do aeroporto, antes de embarcar.
Vou perguntar se a filha da Tiana já ficou boa da febre. Se tudo tiver
corrido bem, você só responde que sim. Qualquer zebra, você diz que a febre
continua alta, e não diz mais nada, entendeu?
– Entendi, sim senhora.
– Então está bom... Até quarta-feira, Antônio. E não esquece o
meu recadinho.
Parte da tarde Hugo passou arrumando as peças de cerâmica nas
prateleiras ou pelos cantos da pequena casa de praia, estrategicamente.
Colocou um vinho branco para gelar, tomou um tranqüilizante e deitou-se na
rede, com uma prancheta e algumas folhas de papel, fazendo esboços para novos
vasos e esculturas. Mas pouco desenhou. Gastou o tempo recordando o seu antigo
namoro com Janaína. Foi em 1975, ela tinha dezessete anos e ele pouco mais de
vinte. Eles se conheceram numa festa lotada, num pequeno apartamento, onde mal
dava para conversar ou dançar. Era uma festa de aniversário. Mesmo assim ele
se recorda de que os dois dançaram muito. Na verdade, ele se lembra apenas de
uma foto que o dono da festa depois lhe deu de presente, onde os dois aparecem
suados da cabeça aos pés, apanhados de surpresa com imensos e idênticos
sorrisos. Há anos ele perdera aquela foto, em uma de suas várias mudanças.
Depois da festa ele a levou em casa de carro. O irmão dela estava
junto, mas desceu logo do automóvel e deixou o casal a sós. Hugo procurou um
outro trecho mais escuro da rua e durante meia hora, talvez mais, eles fizeram
amor no banco reclinável do carro. Era uma noite fria, e os vidros embaçados
lhes deram a privacidade necessária. Ele se lembra de ter adorado fazer sexo
com ela naquela noite, e que, no espaço e no intervalo de tempo tão curtos,
entre a maçaneta, o porta-luvas, a alavanca de marchas e o freio de mão,
eles haviam experimentado e gozado em várias posições: ela deitada, ela de
quatro, ela montada sobre ele... Depois disso encontraram-se umas poucas vezes, sempre apaixonadamente.
Ela tinha um “segredo terrível”, que impediria qualquer namoro. Ele sabia
que ela o amava, mas Janaína não atendia aos seus telefonemas e não marcava
encontros, a não ser em cima da hora e sempre por iniciativa dela. Eram
encontros rápidos, de poucas palavras, sem planos, sem promessas e sem a
revelação do segredo impeditivo. Ele se lembra de ter pedido várias vezes
que ela lhe desse ao menos uma idéia do que estava acontecendo, mas nesses
momentos ela ficava furiosa e ameaçava largá-lo ali mesmo e ir-se embora.
Por fim, ela parou de lhe telefonar e continuou recusando-se a atender aos seus
chamados. Ele sofreu por alguns dias, talvez semanas, e nunca mais a esqueceu.
Tempos depois, por uma amiga comum, Hugo ficou sabendo finalmente do “terrível
segredo”. Janaína, naquela época, era amante de um cantor popular muito em
moda, casado, quase sempre drogado e extremamente ciumento. Com ele ela teve
um filho, anos depois, que ela criou longe da presença do pai. O cantor
desapareceu das capas das revistas e da vida de Janaína. Ela, por sua vez,
desapareceu da vida de Hugo após o último encontro, por dezesseis anos, e
agora lhe telefona de Mato Grosso, com a voz alegre, confiante, como se os
dois tivessem feito amor há apenas poucos dias.
Hugo escuta o motor de um carro sendo desligado e pula da rede.
– Entra, Janaína! São onze horas. Eu já estava preocupado.
– Pois é... O avião fez duas escalas demoradas e chegou muito
atrasado. Mas o importante é que eu estou aqui.
– Senta, fica a vontade. Bem vinda! Eu vou apanhar a mala no seu
carro...
– Eu não trouxe mala. Só esta sacola de mão. Vou ficar só até
amanhã à tarde. No outro dia cedo eu embarco de volta para Cuiabá.
– Cuiabá?... Mas isso é tão longe... Lá na Amazônia... Como é
que você foi parar por aqueles lados?
– É uma longa história... Deixa eu respirar um pouco, que eu te
conto...
– Tá legal. Vou apanhar um vinho branco enquanto você relaxa.
– Ótima idéia.
– Pronto. Tin-tin. Ao reencontro.
– À vida!
Ela toma meio copo de vinho em um só gole. Cerra as pálpebras por
alguns segundos e depois fixa os olhos carinhosamente no rosto de Hugo,
perguntando:
– Você está bem?
– Agora estou melhor. Tive que mudar de vida. Como você vê. Foram
mais de dez anos trabalhando como advogado de uma empresa seguradora. Há três
anos, tive um estresse do tipo fatal: colapso nervoso, úlcera gástrica e
outras pequenas seqüelas. Há dois anos larguei tudo, comprei esta casa,
aprendi a trabalhar com cerâmica com a irmã de um amigo, comprei um jipe e
mudei de vida. Tomei a decisão de sobreviver...
– Que bom, Hugo! As peças são lindas, são fortes... Esses rostos
angustiados, essas mãos assim... crispadas na argila... De onde você tirou
este estilo?
– Acho que dos dez anos que eu passei na Companhia de Seguros. Estou
me desintoxicando aos poucos, através do barro. É a vingança do artista...
– Você fez uma exposição no Rio há poucos meses, não foi?
– Pois é... Foi no Centro Cultural Banco do Brasil... Andei
procurando a sua galeria, mas parece que já não funcionava mais.
– É, eu fechei a Maison Vert
há uns três anos... Resolvi assumir a direção dos negócios da família em
Mato Grosso. Naquela época em que nós nos conhecemos, meus pais ainda eram
vivos e moravam em Cuiabá. Nós tínhamos vários negócios por lá: muitos
terrenos na cidade, fazendas de gado, lojas e uma empresa de água mineral...
– Água mineral deve ser mesmo um excelente negócio na Amazônia.
Produto de consumo obrigatório...
– É, mais ou menos. Bom, depois que mamãe morreu de câncer, o meu
irmão mais velho assumiu, mas ele já tinha os seus próprios negócios, e os
da família ficaram uma bagunça. Um grande patrimônio totalmente
negligenciado, dando prejuízo. Então nós fizemos um “conselho de família”,
e decidimos que eu fecharia a galeria de arte e me mudaria para lá, para por
as coisas em ordem novamente.
– Quer dizer que a minha namoradinha virou uma grande empresária...
– É... Não dá pra reclamar... Só que eu adoro mexer com arte.
Andei sondando por lá e descobri que há um mercado para a arte em Mato
Grosso, pequeno, mas que ninguém explora, ninguém se preocupa em levar pra lá
coisas bonitas. Daí que eu resolvi, inicialmente, improvisar uma espécie de
galeria dentro da minha casa. Convido algumas pessoas para um vinho e mostro
as peças. Sempre vendo alguma coisa. E quando vi as suas peças na reportagem
da Veja, enfiei na cabeça que eu teria que levar algumas para Cuiabá, e
resolvi “caçar” o seu telefone.
– Que legal... Espero que eles gostem... Será que as esculturas não
são um pouco... agressivas demais para o gosto deles?
– Por enquanto, o gosto deles é o que eu digo que é bom...
– Uh-lá-lá, que autoridade!
– Mas é isso mesmo... Olha, antes de eu ir embora, amanhã de manhã,
eu vou escolher algumas peças, você vai me dar o preço que elas custariam
numa galeria, sem “descontos especiais”, tá? Eu acrescento trinta por
cento para os seus gastos com o transporte, você embala direitinho e manda
por avião pra Cuiabá, O.K.? Sem pressa...
– Puxa... Que presentão!
– Que nada... Pode deixar que eu vou ganhar muito em cima delas
quando elas chegarem lá... Não se preocupe. E algumas eu vou guardar comigo,
é claro.
– Tá legal. Elas vão chegar direitinho lá... Você quer que eu te
mostre os trabalhos agora?
– Amanhã, quando a gente acordar... Agora não. Agora eu quero saber
de você. Casou? Ficou solteiro?
– Casei com uma mulher muito chata, muito exigente, que eu chamava de
“minha marida”. Era arquiteta. Ela tinha muita garra, ambição, mas para
coisas que aos poucos fui deixando de valorizar, como dinheiro, status social,
poder. Eu chegava cansado, e ainda tinha que receber pessoas em casa, fazer
papel de anfitrião, com todos os requintes... Ela foi responsável por metade
do meu estresse. Ela não quis filhos, nem eu. Larguei a “marida” quando
larguei tudo. Ela foi um dos itens da minha “massa falida”. Não deixou
saudade... E você? Soube que você tem um filho do meu “rival secreto”...
– É, o Alexandre... Ele já fez doze anos. É um menino lindo. Mas o
pai nunca assumiu. Ele sempre foi um porra-louca, você sabe... E tinha também
aquela “marida” dele... Mas foi melhor assim... Depois eu vivi seis anos
com uma cara incrível, um crítico de arte, que eu gostaria que você tivesse
conhecido. Ele morreu com um problema no fígado.
– Foi só isso? Um problema no fígado?
– Foi isto, exatamente. Eu adorava ele. Foi com ele que eu aprendi
tudo o que eu sei sobre arte, e foi por causa dele que eu montei a galeria.
Era um antigo sonho dele. Depois que ele morreu, a Maison
Vert perdeu o sentido de existir. Ainda fiquei por lá por mais um ano,
mas depois fechei e fui vendendo o acervo aos poucos.
– Eu entendo... E agora?
– Agora eu estou sozinha... Não quero saber de me casar por
enquanto... Tinha vontade de ter outro filho, mas queria que tivesse sido com
o Rogério, o tal professor de arte. Como não foi possível...
– Imagine, Janaína. Se nós tivéssemos tido um filho naquela época,
já seria um rapaz, ou uma moça, de dezesseis anos... Seria engraçado, não?
– Seria lindo, eu acho... Mas não era possível também...
– Por quê? Você era assim tão apaixonada pelo meu concorrente?
– Apaixonada? Não, eu era meio obsessiva, meio doente por ele... Era
uma relação patológica, entende? Tipo sado-masoquista... Ele era louco, me
batia, perseguia os meus namorados, dizia que ia me matar...
– E mesmo assim vocês tiveram um filho...
– Bem, eu também era meio louca... Mas eu era apaixonada por você,
não por ele...
– Por mim? Mas então por quê você não quis mais me encontrar? Eu
quase fiquei maluco de paixão! Bem, é verdade que eu não era nenhum “músico
famoso”... Não poderia competir com...
– Eu tinha medo de você.
– Medo? De mim?
– É. Você era muito sensível, inteligente, impetuoso. E muito
bonito também. Parecia um príncipe. Isso me dava medo. Já ele não. Ele, eu
já sabia como funcionava. Era todo previsível. Mas você, Hugo, era como um
grande animal selvagem, perigoso, entende? Se eu me envolvesse mais, a
qualquer momento eu poderia ser devorada por você, e você nem perceberia...
Eu era muito imatura, e você era assustador... era como... como um tigre de
dentes-de-sabre, compreende?
– Tigre de dentes-de-sabre... Só rindo mesmo... Eu era um menino, só
isso... E onde você foi buscar esse animal? Logo um animal extinto... Mas a
imagem não podia ser mais perfeita. É assim mesmo que eu me sinto hoje: um
animal extinto...
– Hugo, você não tem idéia de como você era, e nem de como você
é hoje. Eu acho que eu sei mais sobre você do que você mesmo...
– Isso só pode ser piada... Depois de dezesseis anos!...
– É... Mas eu só quero que você saiba que eu fugi de você por
medo, só isso. E a partir dali, eu sempre pensei em você como o meu homem
ideal, inatingível. Você não estava ao meu alcance. E eu me conformava. Mas
sonhava com você. Me imaginava fazendo amor com você, sempre.
– Que loucura, Janaína... Que desperdício...
– É a vida, meu querido... Feita de escolhas... entre diversos tipos
de desperdícios... Nós tivemos o nosso...
– Eu já colecionei vários... Acho que todos...
– Escuta, pelo jeito da conversa, o vinho já está fazendo efeito. E
eu quero acordar cedo amanhã para olhar as peças. Você poderia colocar uma
música baixinho e nós podíamos ir para a cama agora. Isto é, se você
quiser...
– Claro... claro...
– Me leva no colo?... Eu sou levinha...
– Quer outro café?
– Não, obrigada. Aqui está o seu cheque. Já pode depositar. Como
eu te falei, não precisa ter pressa pra mandar os trabalhos. O importante é
que eles sejam bem embalados e cheguem lá inteiros.
– Tá bom... Obrigado, mesmo.
– Que é isso, Hugo... Bom, eu já vou indo...
– Espere um pouco... Tome mais um vinho...
– Não posso, meu querido...
– Um copo só. Eu quero lhe perguntar uma coisa...
– Está bem. Um copo só.
– Janaína, é o seguinte: eu não quero te perder de novo. Foi ótimo
você ter vindo de tão longe só pra comprar os meus trabalhos, mas vender os
trabalhos não é a coisa mais importante pra mim. Eu quero ficar perto de você...
Eu estou sozinho, você também. Vamos morar juntos um tempo. Experimentar uma
convivência. Quem sabe dá certo?...
– Hugo, meu amor. Eu te quero muito... muito... Mas não dá... Eu não
posso morar numa praia deserta, longe de tudo... E se você for pra lá, você
morre. Quer dizer... é muito estressante também, entende? Além disso, lá
eu tenho a minha vida, os meus negócios, as minhas relações sociais. Você
não agüentaria uma semana... Eu seria uma outra “marida” pra você...
Talvez pior que a outra...
– Eu não quero ficar sozinho.
– Você é tão moço ainda, tão bonito. Arranje umas namoradinhas,
sem compromissos. Divirta-se um pouco. Cobre da vida o prazer que está te
devendo...
– Mas eu não sou assim, Janaína.
– Então aprenda. Antes que seja tarde. Olha, daqui a uns seis meses
eu vou voltar ao Rio e lhe telefono, tá?
– Eu vou lhe telefonar antes...
– É besteira. Eu não vou atender. Lembra como era?
– Janaína, não é possível... Até hoje...
– Não gosto de despedidas. Me dá um beijo e não diz mais nada, tá?
Eles se beijaram com paixão. Ela virou as costas, entrou no carro, fez
uma manobra rápida e dobrou a esquina sem olhar para trás.
Hugo tomou outro tranqüilizante e deitou-se na rede, esperando o remédio
fazer efeito. Sentiu novamente aquela dor fina no coração. Há meses ele
sabia que aquela dor era uma angina, e que mais cedo ou mais tarde ele teria
que tomar coragem e procurar um cardiologista. Lembrou-se de um artigo que
lera há algumas semanas que dizia que os homens morrem de infarto porque
demoram demais a comunicar a dor no peito aos médicos.
As mãos de Hugo ficaram geladas, talvez pela dor, talvez pelo medo.
Mas era só esperar um pouco, que os dois passariam logo. Ao lado do coração,
Hugo sentiu com as pontas dos dedos o cheque dobrado ao meio.
Janaína dirigiu apenas por mais meia hora. Saiu de Ponta Negra, tomou
a estrada principal para o Rio e parou no primeiro posto-restaurante.
Sentou-se numa mesa de canto, pediu uma cerveja e sorveu um longo gole. Deixou
a cabeça pender para trás do encosto da cadeira, e com um sorriso nos lábios,
os olhos brilhando, o cabelo solto, um copo gelado na mão e os dedos cruzados
para dar sorte na outra, celebrou ali mesmo, em silêncio, o início da sua
segunda gravidez.