Poemas de Luís Sérgio dos Santos
1 - seleção de poemas publicados em livros - parte  I


                                                                                                Parte II                

                                      
 


 

"DEUS NÃO JOGA DADOS" 

Apesar de tudo, as experiências do novo Diretor do Instituto da Universidade de Duke parecem ter impressionado mais fortemente a comunidade científica do que o trabalho pioneiro de seu predecessor, Prof. Rhine - embora Precognição e psicocinésia sejam ainda mais difíceis de aceitar do que a adivinhação de cartas por telepatia. O impacto do trabalho de Schmidt poderá ser devido, em parte, à aparelhagem eletrônica por ele usada, por seus sistemas de registro inteiramente automáticos, que excluem a possibilidade de erro humano. Também, talvez, por se desenrolarem suas experiências num nível subatômico no qual os fatos são imprevisíveis, segundo a própria palavra do físico; no qual o determinismo causal desmorona e "Deus joga dados como Universo". Seja o motivo qual for os relatos das experiências de Schmidt foram publicadas nas revistas científicas mais conservadoras e provocaram controvérsias teóricas que ainda hoje se prolongam. / Ver por exemplo, no New Scientist and Science Journal, Londres, 24.6.71, artigo de H. Schmidt: "influência mental sobre fatos acidentais" e a correspondência dele resultante, nos dias 15 e 29 de julho e 5 de agosto de 1971. 

( Em: AS RAZÕES DA COINCIDÊNCIA, de Arthur Koestler – 2ªed. - Ed. Nova Fronteira)  
           

            I -

"Deus não joga dados" 
um dia disse o sábio Albert Einstein 
e neste momento 
                               pela perda ou pelo dano, 
                               pelo ganho de um engano 
                               numa rua qualquer 
                               do mundo 
                                            entre 
                               o claro e o escuro 
um tiro explode o corpo de alguém.

Explode
e se transforma em fragmentos
de uma rápida estrela,
em cicatriz,  num arame farpado
de energia, massa e luz
                                         onde; E=m. c²
Há luz na consciência de uma pedra.

Einstein, és uma rocha.

Ouvi tiros
e pensei: O morto.
                                Deus é matéria
                                 sólida / líquida / gasosa
                                 o universo
                                                  é a carne de Deus.
                                                   Há Deus dentro de nós,
                                                   há nós dentro de Deus.
                                                                                                                                                                                                                Uma       Uma mulher me ama,
 
na minha janela 
existe o Atlântico, o Cruzeiro do Sul : 
há vastos 
                equilíbrios suspensos 
entre pequenas e grandes esperanças, 
Há vastos campos de tempos 
do que é / será 
manhã, tarde, noite 
                                e nisto sucede, 
que ouvi tiros, e pensei: 
                                         - o morto.  

Sei 
     do ser da morte: 
     Todos os dias 
     dentro de um minuto, 
     o último instante, 
     barcos cheios de gaivotas, 
     os peixes se afogando, sem oxigênio 
      - peixes fora do mar.

A morte: 
              não se entenderá 
              em seus símbolos. 

II - 
 
CARTA A UM MORTO
 
Imagino-te 
agora entre touros sombrios.

Estás na última agonia.
Dormes, 
              acordas, 
                             não voltas. 
                             Re (voltas). 

Nada é igual. 
Tudo é semelhante. 
Estás morto, 
                      distingues 
as diferenças. 

Não se morre 
                       a mesma morte, 
                       duas vezes. 

Aqui não podem impedir 
o tempo. 

Removo pedras, 
                            há uma oração: 
                            é o ciclo da natureza. 

Abelhas 
inumeráveis 
                    são impressas 
na perfeição 
                     dos relógios, dos calendários 
                     das chuvas, 
e as águas 
                   voltam entre rios, 
                   chão e céus. 

Tudo se dissolve. 

Tua cruz  
                   são várias 
                   outras cruzes. 

Não conheço 
as portas 
por onde estás 
no finito / infinito 
da morte. 

Se és 
          um morto comum, 
disto que um tiro 
é de vários em um, 
levas na morte 
o acender de várias palavras. 

No coração do silêncio 
há rios que não dormem, 
e os regatos 
                      refletem 
quase nenhuma transparência 
onde possamos ver os movimentos 
das areias 
                  no fundo de ser dos rios. 

Não discuto meridianos & latitudes 

Há vida 
             no vento da morte. 

As cruzes 
                também dormem 
                mas não se desmancham 
                                                             das madeiras, 
                                                             dos mármores, 
                                                             dos aços. 

Tudo se dissolve,
                              a morte não.

A morte não tem cor.

Estás morto.

Teu tempo
                  não mais se dissolve.

Estás
          assim como um:
          morto em Dunquerque,
          ou morto,
          ontem em Nova Iguaçu.

Morto
         estás
em toda qualquer parte
                                       - onde -
os mortos se reúnem
e são semelhantes.

Se és
          um morto de guerra
és um eco.

Tens as sombras
de todos os mortos do século.

Teu ombro dissemina
uma espada, estrela ou bandeira.
Percebo lagartas dos tanques
correndo entranhas dos campos
esmagando teus pés.

És assim
de alguma forma soldado
com solda entre ferros e aços.

A morte
não te distingue
mais
em Monte Castelo,
ou numa Floresta Negra.

Nada impede
que numa rua qualquer
de um lugar do tempo
tentes arrancar
uma bala do corpo.

É uma bala
que não cala.

É uma bala
que sobre todos
resvala.

Agora,
             entre árvores,
raízes no útero da terra - mãe,
                                                     sobre ti
pousam os ventos,
                                 ao teu lado
ainda correm
                       todos
os rios, as planícies, as montanhas.

  Agora
           não te faz
                            a morte
                               o grande dos mistérios,
e a noite é espessa,
                                       sem fim,

 

O dia
         é um sol
         cheio de palavras
onde não amanheces,
                                      e não poderás
retornar 
desta mesma manhã:
                                      - imensamente.

Ouvi tiros
e sei que "Deus não joga dados".

Os pescadores
                          recolhem as redes
de qualquer tarde,
o arco-íris
                 é um milagre,

Nossos filhos
serão ossos
                      entre deuses.

Todos são espíritos.

Todos
hão de conhecer
que Deus
                não os jogou
                Como dados.

"Deus não joga dados".


III -

 CARTA AOS FILÓSOFOS


Nada, em todo universo
                                  é um acaso,
nada é indiferente
aos nossos atos.

Desabam filosofias
como colunas de um templo dos anos A. C.?

Onde estás?
Ó filosofia
aparecestes na Ásia Menor
com Tales de Mileto?

Qual é a tua realidade?
Qual é a nossa real-idade?

Anaxímenes é o ar?
Anaximandro é o indeterminado?

Empédocles
são os 4 elementos?
Ar, fogo, água, terra?

 Amor e ódio?

  Xenófones de Colofão:
  " - Amigo quem és?
       Para onde vais?
       Que idade tinhas
       quando surgiu o medo?"

Demócrito
são átomos e o nada?

Anaxágoras
é o nus?
É o luminoso universal?

Heráclito:
   “ – Se vocês derem ouvido
         não ao que eu digo
       mas ao verbo da existência
       (o nexus), então é justo
       concordarmos
    
    que um é tudo.”

Pitágoras
No princípio eram os números?

Sócrates
tens toda razão.
És o proprietário da ética.
És sábio.
Tua morte vive.

Aristóteles
quero te dizer palavras de mortais,
quero te dizer
que Alexandre
não era o Grande da Macedônia.
Felipe também morreu.

Platão
onde está a tua República?
E a dialética?

Sócrates
estás cada dia mais vivo.

 IV –

CARTA GERAL

Terra, terra
teu nome me aterra.

É azul, somente azul a terra Yuri Gagarin?
Vista de que distância?

Há 400 bilhões de sóis
apenas na Via-Láctea,

Na Terra
temos apenas um sol.

Sol e solo
transparência
onde pisamos na luz.

 Exobiologia
és/serás uma ciência.

"Ciência" palavra latina
que quer dizer "conhecimento".
Onde estás?

Kepler
vistes a mecânica celeste,
graças a ti
pisamos leve na lua.

Heisemberg
da indeterminação tens o princípio.

Ó criação
crédula/incrédula
do mundo.

Richard Gott
bolhas, bolhas, bolhas,
a criação do mundo?

Steven Weinberg
em quantos/quantas vezes
3 minutos teríamos
para nos destruirmos
neste universo?

Ó teorias cosmogônicas!

 
V–

 
CARTA AOS GUERREIROS

 

Napoleão
                no exílio
                perde a ilha do tempo.

Não há "nada de novo no front ocidental".
Não há nada para dizer ao Remarque.

 Os seres,
                 a anti-matéria,
                 o jogar os dados
             a pretensão de um cálculo
             entre labirintos
             de vida X morte.

 "Deus não joga dados".

A realidade é um todo :
não somos números
no jogo de mais um na multidão.

              No momento
            há outro tiro,
            outro ser explode.

               Num inverno
desabamos na ideologia,
o céu a tremer
                         na lei, des - lei
e ruína do vôo metálico,
                                          onde
ir ao imaginário
                           mata,
apaga,
liberta:
um oceano
                  de um provisório
                  espaço.

               Neste ano
nascem crianças armando circos líricos
que passarão vésperas a verem
os símbolos
da morte e da ressurreição.
               
E = m . c2

 Há rios no mar.

Há diferentes
olhos nas bíblias.

Dividiremos
o infinito
              em conteúdo de todos
                                      os mortos:
                                        - o Homem de Neanderthal.

 Dividiremos
                 as metamorfoses
                 dos dias:
                      ou hão de surgir às noites,
                      do existir e/ou
                                              não
existir
          uma angústia mortal
          no interior
          das espadas & razões.

Dividiremos
                     a cruz,
                                luz,
                     na agonia do indi-visível,
                                 no fim
                                            do multiplicar
                                             o que endividamos
                                                                                aos Profetas,
aos vinhos, e aos pães do Apocalipse.

Nota: 
   Este poema faz parte do livro lançado pela Civilização Brasileira em 1984 com o mesmo título. 


 
 
 
 

 DIAS LATINOS 

Há muito que haver, e ainda haverá 
na argila dos teus Tótens 
- América. 

Nós aqui 
sentados na praça conversando, 
com esta mochila de pesares e discórdias, 
presa nos olhos por um couro dos teus abismos 
- América. 

Ali na frente, no armazém de eucaliptos e sabonetes         
o espírito da floresta dorme, enquanto: 
a boca da caixa registradora tem um intestino imenso 
que deságua fora de muitos dos teus rios, 
e abastece as margens das tuas nuvens do norte 
- América. 

Nós aqui a telefonar para o Corpo de Bombeiros 
e prevendo o recolher das cinzas frias. 
Nós aqui soltando cães (di)versos 
sem vacinas, sem madames, e com carrocinhas. 

Ali por trás, na Rua da Matriz 
pela sexta vez ao dia, 
o padre ajoelha frente ao Cristo, após, 
coloca a mão direita nos ombros do confesso e pede: 
que reze, que volte para o pão de domingo. 

Ali na calçada 
o fiscal fecha a língua dos jornais, 
e na loja dos relógios, 
o proprietário aumenta o volume do banho-maria 
das estações de mormaço no rádio. 

Na esquina 
com a mesma faca das cebolas, 
um João deu mais um corte no seio de uma Joana, 
e confirmou a expulsão do Paraíso. 

Nós sem poder te defender 
e sem caravanas, cavalos e rifles, 
Nós cheios de sinais de fumaça 
como teus índios 
- América.

Ali na periferia da metrópole, 
os vagões de um trem 
carregam tua certidão de especiarias, 
e trazem de volta um cartório de algemas 
- América. 

Nós aqui despertos por um avião vasculhando pouso   
nas verminoses do teu ventre, 
nem de todo livre, 
Nós abrindo uma melodia 
para ver o movimento dessas asas. 

Ali do lado 
há uma fábrica de redes, 
que como uma prodigiosa aranha tece um escombro
por definirem ser uma missão 
a busca dos derradeiros peixes. 

Nós aqui comprometidos e férteis 
na barganha das tuas lendas bambas e coloridas 
- América. 

Ali na parede, 
no bar, um velho confere o resultado 
do bicho, ou da desesperança em canas nas
                                                               [mesas
 
dos deuses da sorte. E bêbado e esquecido, 
ri como um jovem ante os botões 
do "flipper" da tua aventura 
- América. 

Nós em toda parte 
fantasiados e sem guias, 
incoerentes, 
a sair para tua festa, e pulsando ofensos 
ao ouvir-te chamarem de mulher vadia 
- América. 

 Nós 
gastando a sola dos bandeirantes,
 
nós 
batendo botas.

Nós amarrados nas cordas 
desses nós, 
dentro de caravelas surreais 
de abstratos mares. 

Nós, os calcanhares 
dos teus pés puídos e descalços, 
num corpo estranhíssimo 
em que usas e abusas 
da tua cabeça, 
a ruir em ouro e sangüíneos diamantes 
- América. 


 

 CARTA AO VIZINHO CHINÊS 

Deve ser gêmea, senão a mesma, 
é a de ontem, é igual e se disfarça 
numa metade escurecida 
a lua 
que neste momento ronda 
como eterna sentinela 
a trazer fosca iluminação 
sobre a caixa de fósforos, 
sobre os palitos 
que conhecerão em chamas - um sol. 

(Existe o inverso sentido, 
o sol iluminando a lua, 
e a lua iluminando os pedaços de sol 
guardados nos fósforos). 

Deve ser sem dúvida a mesma, 
a lua que amanhã olhará 
um desconhecido 
que neste momento mora na China 
e faz uma vigília qualquer 
sobre o arroz. 
(Temos a mesma lua, 
somos cúmplices destas iluminações). 

Já chega a ser mais do que gêmea, 
é exatamente a mesma, 
quero simplificar 
a lua que volta 
amadurecida, 
e não estou mais só apenas 
olhando a lua, 
e seria como se ela me olhasse 
e de outras existências 
ela, a lua, me permitisse conhecimentos. 

Assim sendo 
ó desconhecido chinês 
não sei o teu exato tráfego 
entre esta lua, 
e há uma grave denúncia, 
uma sonora, uma metamorfoseada denúncia 
quando a lua 
vem nos dizer que apenas passa 
sempre por uma frágil rua 
que chamam mundo, 
uma única rua descalça 
que é a mesma 
que existe na Grande Muralha, 
que é a mesma 
por onde o carteiro 
chega a minha porta. 
A lua nos faz um só acontecimento. 

Assim sendo, 
ó já visto chinês, 
peço que também 
coloques a tua mão sobre a nossa lua. 

Tenho olhado esta lua, 
venho pensando nos grãos de arroz, 
e no instante em que morreu 
a tua última imperatriz 
de pequenos pés. 

Tenho pensado numa embarcação 
cheia de muitos, 
muitos 
antepassados olhando a lua enquanto era uma noite 
uma espessa noite, 
até que todos eles reunidos 
pudessem vir me trazer apenas dois olhos 
para olhar esta lua. 

Tenho visto tuas porcelanas, 
tenho visto algo do azul 
desbotando 
e sendo devorado por dragões. 

Sei, 
deves gostar de pingue-pongue 
e o mar, o mar 
é uma grande mesa quando sobre as águas 
passa a lua, - uma bolinha 
sobre as águas 
e que vai 
e volta, 
e que vai 
e volta. 
Estamos assim dentro de um jogo. 

Por fim já vizinho, 
conhecidíssimo 
e amigo chinês - 
o jogo é muito antigo. 

Olhes a tua lua, 
olhes a minha lua, 
jogues para cá, 
jogarei daqui a tua lua. 

Fico aqui pensando em milenares dragões 
que querem devorar 
o mar, 
o arroz, 
e a nossa única lua.