Poemas de Luís Sérgio dos Santos
2- seleção de poemas inéditos em livro - parte  I


                                                                          Parte II

                     


                                 


ITAIPU 

    Onde a onda anda indo e vindo
    entre as rochas e o vento,
    onde
    a gaivota vai buscar o peixe,
    e o olhar do homem e da mulher
    decifram o azul se transformando em verde,
    se derramando sobre o branco
    sendo tingido de amarelo
    do sol
    entre as mãos de seus filhos.

    Onde
    o sol
    incansável sobe e desce montanhas
    carregando nuvens e mais nuvens nas costas.

    Onde o horizonte tenta esconder o mar,
    e há casas e mais casas no alto de uma colina
    frente ao mar,
    longe, não tão longe,
    casas no alto
    no meio do caminho
    entre o mar e a nuvem,
    no alto, não tão alto.

    Onde a orquídea escolheu viver
    bebendo gota a gota luz e sombra
    se equilibrando nas rochas,
    dançando no claro-escuro
    com os vários tons dos verdes
    com que a mata se veste.

    Se veste, e se despe a mata
    e fica nua íntima das estações,
    e ao mesmo tempo lhe visitam
    o verão-outono e pode ser
    a primavera-inverno num só dia qualquer,
    mata que se abre
    e recebe, e acolhe sementes,
    e se instala e se cria
    mais mata inundando os olhos,
    mata, árvore, folha, mulher.

    Onde raso-fundo, bravo-manso,
    azul-verde-claro-escuro, o mar
    canta se apresentando plural
    pulsando o seu ritmo marítimo-ritmo
    voz do mar, som do mar, língua de espuma
    que beija a língua negra do asfalto
    querendo chegar a praia.
    Entre a natureza em curvas



    montanhas-seios apontados para os céus
    bocas-flores de hibiscos, ou
    bocas-flores de bromélias, e tantas outras
    entre o mar-montanhas para se ver o verde,
    se ver o mar do alto e de longe, o mar
    para se ver só se vendo.

    Praias irmãs, Itaipu, Piratininga,
    Camboinhas, Itacoatiara, Itaipuaçu
    anunciando o poder das águas,
    e nosso humano compromisso
    com as lagoas, as aves, as folhagens
    porquê nossos filhos devem ter
    o direito de ver o que nelas vemos.

    Praia, praia, praia
    horizonte diante do mar
    para se ver a lua,
    ou ir onde perto Várzea das Moças
    lindo nome, onde perto Engenho do Mato,
    onde quero saber o que produz
    este engenho. Sei não distante
    Largo da Batalha onde não espero
    nenhuma derrota, onde sei perto um rio
    que não poderia ser outro qualquer,
    Rio do Ouro.

    Praia, praia, praia
    horizonte diante do mar
    para se ver o sol,
    e se ver lagoas enquanto lagoas
    espelhos d'água refletindo luz solar.
    Sons, tons
    dos pássaros
    onde podem escolher viver:
    sanhaçu, mutum, trinca-ferro,
    araponga, tangará, gaturama, tiê-sangue,
    saira, viuvinha do brejo, papa-capim.

    Igreja pequena, casa pequena, barco pequeno,
    coração grande,
    modo de falar parecido com o de um índio,
    onde um museu arqueológico

    foi escolhido para ficar
    te esperando diante do mar.

    Onde podem escolher viver:
    Quaresmeira, tuia, amarelinha,
    ave-do-paraíso, sálvia, azaléia,

    plumbago, jasmim-manga, árvore da felicidade,
    onze-horas, chuva-de-ouro,
     trevo-de-quatro-folhas, 
    maria-sem-vergonha, brinco de princesa,
    aguapé, cróton, dama-da-noite,
    e muito, muito mais.

    Onde
    quero te levar a um jardim.

    Onde o homem pode criar,
    e ir fundo em seu mergulho
    até querer ser defensor do mar,
    porque a fome do homem
    não é como a dos pássaros, a dos peixes,
    nem como a das árvores diante do ar.

    0 homem
    pode saber
    o tempo da semente, do mergulho, e do revoar,
    pode saber
    que a caça, caça antes a natureza,
    e assim deve saber caçar, e deve ser
    como as árvores que nada exigem pelas sombras,
    e os pássaros que plantam outra mata
    onde a mata não pode morrer.

    Onde
    o Criador
    construiu com sua infinita calma,
    e continuou construindo além
    anos e anos, como se não quisesse
    deixar o ritual dos sete dias.

    Onde
    o homem
    não deve começar uma mobilização
    às vezes rude, às vezes indevida
    de pedras e de árvores, de terras e areias.

    Onde
    o homem
    vem vindo às vezes feroz
    trazendo consigo
    toda a extensa parafernália,
    de grandes máquinas com imensos pneus de borracha,
    que esperamos não ter intenções de apagar
    verdes-páginas-folhas,
    deste caderno da natureza.

     
                                                        
    Fotos de Luis Fernando Valverde S.

                                                                e-mail: luisval@cruiser.com.br

    Data de nascimento: 14.05.1963, em Tegucigalpa, Honduras. Arquiteto e Urbanista formado pela Universidade Federal Fluminense em 1987. Mestrando em Urbanismo - Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro Subsecretário Regional das Praias Oceânicas de Niterói até abril de 2000. Morador da Região Oceânica. A foto da entrada do museu foi retocada no Photo Shop por Carlos Kryktine.

     
     

      
    DECLARAÇÃO 

    Por tudo isso e mais, pelo invisível, 
    o insondável, o obscuro, o indelével. 
    Pelo inaudível, o indivisível, o enigmático, 
    por tudo isso e mais acrescento. 

    Pelos sinais em cada esquina, 
    as caminhadas repentinas, os vários degraus 
    e o fim das escadas de cada dia. 

    Pela travessia do dilúvio, 
    pelo crepitar das chamas. 
    Pelo sussurro do vento em tua boca, 
    pelas metáforas escritas em cada parede, 
    e pelos céus existentes em seus símbolos. 

    Pela quietude que ecoa, 
    pela fruta aberta após a fome. 
    Pelas tardes que se expandiram para as noites, 
    e os dias que prolongaram o amanhecer. 

    Pelos meus olhos saciados. 
    Pelo que não verei: 
    Vazios na plenitude, repletos nos vazios. 
    Pelo agasalhar da alma, da pele e do apelo 
    dentro e fora. Pela vida, ensaio da eternidade. 
    Pelo excesso que transborda e se transforma 
    pelo que já fomos, pelo que nunca seremos, 
    e se não bastar pelo que nunca poderemos ser: 
    - te amo. 

     

                 

              

       TODOS AQUELES 

      Todos aqueles 
      que foram marcados pela vida 
      como gado a ferro e brasa, 
      e sem desânimo como mágicos tambores 
      continuaram a bater seus corações 
      em batalhas que nunca desertaram: são heróis. 

      Todos aqueles 
      que um dia tinham palavras 
      para transformarem o mundo, 
      e que viram o tempo e as nuvens 
      carregando seus sonhos como balões, 
      e mesmo assim desarmados apenas com a coragem 
      enfrentaram os tanques, as baionetas, e as fúrias 
      sem provocarem qualquer derramamento de sangue: são heróis. 

      Todos aqueles 
      que no fundo de seus bolsos 
      guardam apenas pombas brancas 
      para libertarem diante de Deus: são heróis.