Poemas de Marco Valença


        

                          


 

                               Cobra de vidro

 

morde-se
a carne
e o tempo acalma a marca
mas não a do prazer
na memória,
nos labirintos de lembrança e pêlos
frestas, flancos, ângulos
em cada gota
de suor
o gozo pelo esforço encarniçado
o gosto mútuo – trabalho forçado,
espelho múltiplo: pés pernas pescoço rosto
colo seios cabelos
mão braços.

morde-se
o momento
mas o sabor é urgente e lasso
nó desfeito
corpo destrançado
pele inaderente (adereços dissipados).
mas este túnel
e esta seta
em nossos corpos
é passagem e endereço.

morde-se o vento –
ele não fica sem nenhum pedaço.


 
 

 
 

Constipação

Estar gripado
me dá a sensação de choro
a cada fungada
que traz do fundo da alma
uma lembrança.
Me dá a impressão do tempo
se esgueirando pelas paredes do nariz
em momentos filtrados.
E eu que andava tão precisado de amor
fui dormir espirrando as primeiras horas da manhã.

 

                                   


 
 


           Homem


não me faço de rogado  
sou um homem apaixonado  
pelo mundo e suas artes  
não me faço de desentendido  
sou um homem acometido  
da praga da vida  
tão forte e tão contraída  
que não posso  
não faço de demente
minha febre é veneno de serpente  
meu andor carrega o céu  
por baixo a terra  
e em meio disto  
eu não me faço de desprevenido  
sou um homem decidido  
no meu rosto um asterisco
não decifra não devora  
sou um homem como todos  
sem mistério nessa hora sem remédio  

sou um homem nos meus pêlos e  
pedidos e pedaços e suicídios e fracassos
e perigos  
eu sou um homem nos meus pesos e medidas e trapaças e saídas e desgraças  
e armadilhas  
eu sou um homem nos seus becos e botecos, nos meus gritos, nos seus ecos,  
no meu brio mais possesso, no meu  
cio a descoberto  
eu sou um homem com meus meios e  
meus fins, meus anseios, meus confins, minhas barganhas ruins, minha erva-  
santa e capim  
eu sou um homem com seus secos e molhados, espírito enxovalhado, num  
ritmo acelerado, conflitos segredos nos ouvidos dos espantalhos,  
amigo pro seu trabalho,  
colírio pra mau olhado.



 
 

 
 

Palavras palavras

Pensar nas palavras:
o som de metal
exalado.
Batalha travada
o bom e o mau
emparelhados.  

Pensar palavras:
um pulo de gato
no escuro.  

Barulho de enxada
terra escalavrada
trem alucinado
percorrendo o mundo.

Pensar as palavras:
um susto calado.
Navalha.


 

 

Sussurrando na orelha

não é que eu queira  
criar mais uma cratera na lua
nem fazer de uma favela  
um lugar sem amargura,  
não é que eu possa  
mudar a rotação  
e a gravidade da terra  
ou transformar  
girafa  
em mosquito.  
não é bem contar  
o último segredo que resta apesar da imprensa,  
das inconfidências,  
não é que eu vá  
salvar coisa alguma  
ou morrer amanhã de manhã mas ‘eu te amo’  
já é ótimo  
para um fim de noite  
e começo de conversa.  

 

 

Querência  

 

quero-te, como
e engulo
feito um pobre
qualquer resto.

quero-te, feito
e efeito
como um murro
numa faca.

quero-te assim
com os desejos menores
e os sentimentos enormes:
quero-te pulga na unha
quero-te nuvem no céu

preso que prepara a fuga
monge que crê e jejua
dique nos países-baixos
ponte por sobre veneza
a strip trip desnuda
moça do rosto de véu
dia de sol, realeza
noite farol fogo e facho.

quero-te feito
um vadio
na cidade
busca um beco.

quero-te como
um perdido
no deserto
sonha a água.  


 

                    Mais que o futuro

 

por você
até comer a cebola que bóia
na bacia dos acarajés.
você é mais
cheiro de coentro
e o maduro das goiabas nos cestos.
por você
cultivar Acres com estrume,
lavar Bahias de caranguejos.
você é mais
essencial que a essência da baunilha,
especial mais que a espécie
mais remota de orquídeas do Abaeté.

por você
no devido lugar
é abrir o corpo e a imaginação
sem limites.
você é mais
que o mais do máxi do máximo
do mais infinito.

mais do que eu exprimo.
mais do que eu pressinto.


 

 

Poema  

rima não é talento:
há dicionários.

rima é teima.

vezes som sabedoria
meses antigo inventário.
fezes deixadas ao vento
sangue pinçado na veia.

poemas tem teto de vidro
mas sobrevivem
ao relento.

       

 

 

Verbo

às vezes
saudável e imprescindível
como tapa
no recém nascido.  

às vezes
ato inútil
como barbear
um morto.  

                                                               

 




Pés de bailarina

 

vida,
amo
sua arte !