Poemas de Miguel Sanches Neto

          [ do livro Venho de um país obscuro ]




CAÇADOR E VÍTIMA
 

Escrever é caçar caranguejos
pelo método do guaxinim.
Enfiando o rabo no buraco
onde se aloja o crustáceo,
ele espera que este o morda
com suas impiedosas tesouras
para sacar logo em seguida
a presa cravada em sua cauda.
O próximo passo é saboreá-la
com a memória da dor em carne viva. 

Enquanto espera, o guaxinim chora

sofrendo de antemão a investida.

Caçador e vítima, é sua própria isca,

motor da mortal armadilha.

Contorcendo-se na auto-emboscada

o sabor e a cicatriz ele preliba:

a água na boca é a mesma das lágrimas.  

 

 

PAÍS OBSCURO  

 

1.

Venho de um país obscuro,  
          de uma infância repleta de muros.  

Meu pai foi leve lembrança  
          que me marcou com sua ausência.  

E enquanto caminhava pelas ruas  
          do tempo mais triste da ditadura  

ia perdendo meu país  
        como quem deixa uma moeda cair,  

ia perdendo meu pai  
         como quem de si mesmo se desfaz.  

Desfilei todos os 7 de setembro  
       fazendo continência ao silêncio.  

Obedeci a professores vis  
       e não tive como destruí-los.  

Sou o filho da ditadura  
         e não ter sido rico me orgulha.  

2.

As lembranças me torturam,  
         querem escalar os muros,  
roubar as frutas do futuro,  
gastar a pedra do presente  
mordendo o próprio dente,  
com raiva e ruidosamente.  

3.

Minha mãe costurava para as putas  
e com os retalhos da luxúria  
cosia minhas poucas roupas.  
Minha mãe comprava um único pão,  
repartindo-o entre quatro bocas.  
Que seria de nós sem a prostituição?  

Minha mãe costurava para as putas  
como quem limpa uma igreja  
e, humilde, diante do altar se ajoelha.  
Minha mãe costurava para as putas  
enquanto a gente crescia sob a ditadura.  

Não me lembro do cheiro das mulheres que freqüentavam nossa casa de madeira,  
mas me recordo das frestas  
pelas quais eu podia vê-las.  
Eram elas que exploravam políticos,  
fazendeiros, médicos, milicos,  
e depois repartiam com os pobres. 
Eu vivi um tempo destas sobras,  
- cão que afia as presas em ossos.  

Por isso não presto, minha filha,  
sou tarado, sou sujo,  
cresci no meio do lixo  
e o meu foi um tempo pútrido.  
Cresci sentindo o cheiro das putas,  
vesti os retalhos da luxúria,  
sentindo-me, na catequese, impuro  
com minhas roupas de monturo.  

4.

No meu país, as abóboras medravam  
no canto onde se jogava o lixo,  
e no fundo do quintal havia um chiqueiro  
onde criávamos um porco roliço  
com a lavagem da casa  
e com os restos dos vizinhos.  
Um desses porcos pouco civilizados  
um dia rompeu o cercado  
e estragou o belo jardim  
da casa em frente à minha.  

Este foi todo o meu exemplo de rebeldia.  

5.

Os porcos de casa  
       me punham bichos nas patas  
    e a coceira quente no pé  
era um convite para a raiva.


 Hoje, olho meus dedos  
e não há sinal algum daqueles tempos,  
        nenhuma cicatriz me devolve
           a lembrança dos dias pobres.  

Mas sou o mesmo,  
        menino criado entre chiqueiros,  
        numa casa velha de madeira  
        que está intacta no tempo.  

6.

Minha vó lavava roupas para fora  
            e sempre trazia alguma sobra.  

E a ditadura era uma sombra  
           crescendo em todos nós.  

Vivíamos num tempo mítico,  
        minha vó narrando feitiços,  

casos do século passado,  
     de parentes com mau-olhado.  
    E minha mãe recordando o bulício  
     da infância num pequeno sítio,  
   histórias da menina que tanto queria  
estudar português e outras geografias.

E a gente ia crescendo no exílio,  
sem saber que ditadura também era isso

7

Um dia apareceu um padrasto  
        e nosso país foi alargado.  

Agora cabiam outras dores  
         em nossa geografia pouca.  

Também não tinha discurso  
        nosso padrasto rústico,  

confiando totalmente e apenas  
        em seu poder de sobrevivência.

  A mãe parou de costurar para as putas  
         e a vó não deixou rastros em sua fuga.  

Eu corria ainda pelas ruas  
      brincando na lama e na chuva.  
      Eu corria livre pelas ruas  
     
  desafiando o código de posturas.  

8.

O meu país foi uma pátria morta  
          que só sabia fechar as portas.  

O meu país não me deu conhecimento,  
           na escola estudávamos silêncio.  

O meu país não soube soletrar meu afeto,  
          me matou quando eu ainda era feto. 

O meu país não foi um país,  
         foi um estado de sítio.  

E eu vivi em seu coração  
           como quem morre no exílio.  

9.

O padrasto trazia arroz-e-feijão,  
          mas não me dava nenhum livro.  

O padrasto me ensinava a somar,  
          mas não conversava comigo.

 O padrasto me ensinou a ser correto,  
         a não mentir, não furtar e todo o resto,  

mas exigindo ser obedecido em tudo,  
          reduzindo-nos a passivos súditos.  

E sem saber ao certo o sabor da fruta,  
          plantou em nós sementes da ditadura.  

10.

E a época mais crítica,  
         estação de frutas cítricas,  
         foi quando entramos na escola.  

Só havia duas matérias:  
         silêncio e jogo de bola.  

Só havia duas posturas:  
            submissão e indisciplina.  

Só havia dois destinos:  
          pobreza ou crime.  

 E muitos amigos  
         tornaram-se bandidos,  

 latoeiros, mendigos,  
          sem-terra, traficantes.  
        A escola nos mastigou a todos  
         e depois nos cuspiu no esgoto.  

Foi ela que nos fez escrotos,
          que nos ensinou o arroto.  

Tive que aprender a calar,  
           sem discurso como meus pais.  

11.

Mas no fundo da escola  
         havia um velho depósito.  

Apenas mais um lugar de castigo,  
          onde o silêncio também era exigido.  

E um general de maneiras femininas  
          sentava-se atrás da escrivaninha.  

E era ali que fazíamos a lição,  
      decorando data, mapa, conjunção.
        E no meio de livros tantos pelas estantes  
         éramos apenas comportados estudantes.  

12.

No armazém de meu padrasto,  
       freqüentado por tudo quanto é parvo,  
         eu ia aprendendo a miséria  
          de um grande país de merda  

em que as pessoas eram exploradas  
          como se esgotam as terras.  

Agricultores encardidos  
          vendendo o último viço,  

mulheres enroladas em trapos  
          e de rachados pés descalços  

comprando apenas o mínimo,  
           banda de feijão e arroz quebradinho.  

Eu vi meninos com mãos calejadas  
         de tanto escrever a vida na enxada,  

vi meninas com olhares baços  
       soletrando a solidão dos matos.

Foi no armazém de meu padrasto  
          que conheci este país descalço.  

13.

E havia um tio devidamente louco,  
            analfabeto como todos os outros,  
           que gostava de ler as gravuras  
        dos jornais usados para embrulho.

Passava horas com os velhos jornais  
         como quem decifra o hebraico,  
        tentando entender o que diziam  
        aquelas pequenas manchas de tinta.  

Meu tio não sabia ler mas lia.  
        Foi o grande exemplo para minha  
        futura carreira de leitor  
        esse tio analfabeto e louco.  

E meu tio lia jornais amarelados  
         recusando-se a estar informado,
           queria apenas o divino gosto  
           de desenterrar o que estava morto.  

É a ele que devo este vício  
         de não me interessar pelas notícias,
          de buscar nos jornais apenas  
            aquilo que pode ser perene.  

14.

Foi este exemplo que me conduziu  
          à pequena biblioteca da escola.  

 Havia então um outro mundo  
           atrás daquelas estantes todas?  
          E, analfabeto que também era,  
           fui decifrando aquelas letras,  

estrangeiro em minha própria língua,  
          soletrando mal as suas belezas.  

 E se de todas as lições da escola  
         não me sobrou absolutamente nada,  

daquelas minhas sofridas horas  
         ficou este fascínio pelas palavras.

 

   

 

LIGAÇÃO  

Súbito me lembro de um antigo telefone.  
        Seu número irrompe em minha memória  
       e não sei de quem é, nem quando nem onde,  
     sei apenas que é um endereço que dói.  

Disco sem esperança estes dígitos antigos  
       e então ouço chamar numa casa no tempo  
       à qual me prendo pelo cordão do umbigo  
         que não pôde ser cortado a contento.  

Através de um fio imaterial me religo
          às ruínas de uma infância só mito.  
        Do outro lado, alguém atende o telefone  

e a voz que me chega por este conduto  
         é a da criança que tem o meu nome,  
       é a que perdi quando me tornei adulto.