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[ do livro Venho de um país obscuro ] |
Escrever
é caçar caranguejos
pelo método do guaxinim.
Enfiando o rabo no buraco
onde se aloja o crustáceo,
ele espera que este o morda
com suas impiedosas tesouras
para sacar logo em seguida
a presa cravada em sua cauda.
O próximo passo é saboreá-la
com a memória da dor em carne viva.
Enquanto
espera, o guaxinim chora
sofrendo
de antemão a investida.
Caçador
e vítima, é sua própria isca,
motor
da mortal armadilha.
Contorcendo-se
na auto-emboscada
o
sabor e a cicatriz ele preliba:
a
água na boca é a mesma das lágrimas.
1.
Venho
de um país obscuro,
de
uma infância repleta de muros.
Meu
pai foi leve lembrança
que
me marcou com sua ausência.
E
enquanto caminhava pelas ruas
do
tempo mais triste da ditadura
ia
perdendo meu país
como
quem deixa uma moeda cair,
ia
perdendo meu pai
como
quem de si mesmo se desfaz.
Desfilei
todos os 7 de setembro
fazendo
continência ao silêncio.
Obedeci
a professores vis
e
não tive como destruí-los.
Sou
o filho da ditadura
e
não ter sido rico me orgulha.
2.
As
lembranças me torturam,
querem
escalar os muros,
roubar
as frutas do futuro,
gastar
a pedra do presente
mordendo
o próprio dente,
com
raiva e ruidosamente.
3.
Minha
mãe costurava para as putas
e
com os retalhos da luxúria
cosia
minhas poucas roupas.
Minha
mãe comprava um único pão,
repartindo-o
entre quatro bocas.
Que
seria de nós sem a prostituição?
Minha
mãe costurava para as putas
como
quem limpa uma igreja
e,
humilde, diante do altar se ajoelha.
Minha
mãe costurava para as putas
enquanto
a gente crescia sob a ditadura.
Não
me lembro do cheiro das mulheres
mas
me recordo das frestas
pelas
quais eu podia vê-las.
Eram
elas que exploravam políticos,
fazendeiros,
médicos, milicos,
e
depois repartiam com os pobres.
Eu
vivi um tempo destas sobras,
-
cão que afia as presas em ossos.
Por
isso não presto, minha filha,
sou
tarado, sou sujo,
cresci
no meio do lixo
e
o meu foi um tempo pútrido.
Cresci
sentindo o cheiro das putas,
vesti
os retalhos da luxúria,
sentindo-me,
na catequese, impuro
com
minhas roupas de monturo.
4.
No
meu país, as abóboras medravam
no
canto onde se jogava o lixo,
e
no fundo do quintal havia um chiqueiro
onde
criávamos um porco roliço
com
a lavagem da casa
e
com os restos dos vizinhos.
Um
desses porcos pouco civilizados
um
dia rompeu o cercado
e
estragou o belo jardim
da
casa em frente à minha.
Este
foi todo o meu exemplo de rebeldia.
5.
Os porcos de casa
me punham bichos nas patas
e a coceira quente no pé
era um convite para a raiva.
Hoje, olho meus dedos
e não há sinal algum daqueles
tempos,
nenhuma cicatriz me devolve
a lembrança dos dias pobres.
Mas sou o mesmo,
menino criado entre chiqueiros,
numa casa velha de madeira
que está intacta no tempo.
6.
Minha vó lavava roupas para
fora
e sempre trazia alguma sobra.
E a ditadura era uma sombra
crescendo em todos nós.
Vivíamos num tempo mítico,
minha vó narrando feitiços,
casos do século passado,
de parentes com mau-olhado.
E
minha mãe recordando o bulício
da
infância num pequeno sítio,
histórias
da menina que tanto queria
estudar
português e outras geografias.
E
a gente ia crescendo no exílio,
sem
saber que ditadura também era isso
7
Um
dia apareceu um padrasto
e
nosso país foi alargado.
Agora
cabiam outras dores
em
nossa geografia pouca.
Também
não tinha discurso
nosso
padrasto rústico,
confiando
totalmente e apenas
em
seu poder de sobrevivência.
A
mãe parou de costurar para as putas
e
a vó não deixou rastros em sua fuga.
Eu
corria ainda pelas ruas
brincando
na lama e na chuva.
Eu
corria livre pelas ruas
8.
O
meu país foi uma pátria morta
que
só sabia fechar as portas.
O
meu país não me deu conhecimento,
na
escola estudávamos silêncio.
O
meu país não soube soletrar meu afeto,
me
matou quando eu ainda era feto.
O
meu país não foi um país,
foi
um estado de sítio.
E
eu vivi em seu coração
como
quem morre no exílio.
9.
O
padrasto trazia arroz-e-feijão,
mas
não me dava nenhum livro.
O
padrasto me ensinava a somar,
mas
não conversava comigo.
O padrasto me ensinou a ser
correto,
a não mentir, não furtar e
todo o resto,
mas exigindo ser obedecido em
tudo,
reduzindo-nos a passivos súditos.
E sem saber ao certo o sabor da
fruta,
plantou em nós sementes da
ditadura.
10.
E a época mais crítica,
estação de frutas cítricas,
foi quando entramos na escola.
Só havia duas matérias:
silêncio e jogo de bola.
Só havia duas posturas:
submissão e indisciplina.
Só havia dois destinos:
pobreza ou crime.
E muitos amigos
tornaram-se bandidos,
latoeiros, mendigos,
sem-terra,
traficantes.
A
escola nos mastigou a todos
e
depois nos cuspiu no esgoto.
Foi
ela que nos fez escrotos,
que
nos ensinou o arroto.
Tive
que aprender a calar,
sem
discurso como meus pais.
11.
Mas
no fundo da escola
havia
um velho depósito.
Apenas
mais um lugar de castigo,
onde
o silêncio também era exigido.
E
um general de maneiras femininas
sentava-se
atrás da escrivaninha.
E
era ali que fazíamos a lição,
decorando
data, mapa, conjunção.
éramos
apenas comportados estudantes.
12.
No
armazém de meu padrasto,
freqüentado
por tudo quanto é parvo,
eu
ia aprendendo a miséria
de
um grande país de merda
em
que as pessoas eram exploradas
como
se esgotam as terras.
Agricultores
encardidos
vendendo
o último viço,
mulheres
enroladas em trapos
e
de rachados pés descalços
comprando
apenas o mínimo,
banda
de feijão e arroz quebradinho.
Eu
vi meninos com mãos calejadas
de
tanto escrever a vida na enxada,
vi
meninas com olhares baços
soletrando
a solidão dos matos.
Foi
no armazém de meu padrasto
que
conheci este país descalço.
13.
E
havia um tio devidamente louco,
analfabeto
como todos os outros,
que gostava de ler as gravuras
dos jornais usados para
embrulho.
Passava horas com os velhos
jornais
como quem decifra o hebraico,
tentando entender o que diziam
aquelas pequenas manchas de
tinta.
Meu tio não sabia ler mas lia.
Foi o grande exemplo para minha
futura carreira de leitor
esse tio analfabeto e louco.
E meu tio lia jornais amarelados
recusando-se a estar informado,
queria apenas o divino gosto
de desenterrar o que estava
morto.
É a ele que devo este vício
de não me interessar pelas notícias,
de buscar nos jornais apenas
aquilo que pode ser perene.
14.
Foi este exemplo que me conduziu
à pequena biblioteca da escola.
Havia então um outro mundo
atrás daquelas estantes todas?
E,
analfabeto que também era,
fui
decifrando aquelas letras,
estrangeiro
em minha própria língua,
soletrando
mal as suas belezas.
E
se de todas as lições da escola
não
me sobrou absolutamente nada,
daquelas
minhas sofridas horas
ficou
este fascínio pelas palavras.
Súbito
me lembro de um antigo telefone.
Seu
número irrompe em minha memória
e
não sei de quem é, nem quando nem onde,
sei
apenas que é um endereço que dói.
Disco
sem esperança estes dígitos antigos
e
então ouço chamar numa casa no tempo
à
qual me prendo pelo cordão do umbigo
que
não pôde ser cortado a contento.
Através
de um fio imaterial me religo
às
ruínas de uma infância só mito.
Do
outro lado, alguém atende o telefone
e
a voz que me chega por este conduto
é
a da criança que tem o meu nome,
é
a que perdi quando me tornei adulto.