Poemas de Osório Peixoto Silva - I

 

          

          

 

                                                                                       

   

                     NASCIMENTO
 

Nascimento nasceu. 

Espinhela caída
pé de cabra
sarampo
catapora
caxumba
quebranto, 

E lá vai Nascimento. 

Enxada pra Nascimento.
Já tem dez anos de idade,
gozou muito a mocidade,
 
enxada de quatro libras
de quatro libras e meia,
pra não fazer cara feia
pra aprender a viver. 

E lá vai Nascimento. 

Corta
coivara
queima
capina
semeia,
não colhe.
Praga
seca
lagarta
e patrão. 

E lá vai Nascimento.


Nascimento, jumento,
Nascimento, jumento,
larga esta merda
pega o trabuco
mata e esfola,
pois estão te esfolando.
Com a vida que tens
tu vales por cem,
ou mais Nascimento, 
Ou mais Nascimento. 

E lá vai Nascimento. 

A cara pro sol
envolto em lençol
com dez Nascimentinhos
chorando atrás. 
Uma velha rezando
(tem trinta anos de idade)
oração praga e lamento, 
pois nem rezar direito
lhe ensinaram no mundo. 

E acabou Nascimento. 

                         Réquiem pra Nascimento: 

Deus bom, Deus justo,
desculpa o que vais ouvir,
mas será muita safadeza
se o céu não existir...

 

 

 


 

POEMA

 

Resta-me ainda
curtido quinto de cachaça,
fumo de rolo pra fazer fumaça
e as mãos em concha pra beber do rio. 

Resta-me ainda
estrelas azuis nos céus de maio, 
crepúsculos morrendo flechados de pássaros,
manhãs nascendo vestidas de luzes. 

Resta-me ainda
o mar,
querido mar que meu amar não finda
e que eles não conseguiram cercar ainda.

Resta-me ainda
e tão-somente
o rubro sol nos dias quentes,
o pó dos caminhos,
a flor não notada.

Resta-me um nada,
mas deste nada, como um Deus potente,
ergo meu canto e fabrico um mundo.

Resta-me tudo,
a mim que trago as mãos vazias,
seu calor nas noites frias,
seu olhar nas horas escuras,
seu cantar quando meu canto é mudo.

Resta-me seu amor,
e seu amor é tudo...

 

 

 


 

ABELHA MINHA

 

Abelha minha,
amiga,
nenhum gesto seu está perdido,
linha reta entre a flor e o mel
e seu zumbido
desperta o sono das manhãs. 

Carrega em seu vôo
a flor futura, 
o futuro fruto,
o mel presente.
Por você esperam as sementes
e a sua espera se enfeitam as flores.

Obreira minha,
seu vôo é vida,
é flecha fértil,
alado elo na corrente eterna. 

Suspenda um pouco,
doce amiga,
a ânsia de seu vôo apressado
e veja em meu túnel despojado
flores também e palpitar de vida.
É certo,
são flores mais sofridas
e talvez mais belas.

Siga depois,
que a vida tem sua pressa,
as flores têm seu tempo
e os frutos seus compromissos.

Mas deixa aqui
em meu túnel solitário
a marca de seu rastro apressado
e viva eu para sempre iluminado
de sua presença frágil
e poderosa...
   

 

 

 


 

SOLAR DO COLÉGIO

 

Você e o sol
invadem
o tempo adormecido.
Portões se abrem
num gemido,
cortinas correm
apressadas.

A luz do sol
(que morre)
caminha nos salões,
escorre
até o sol dos olhos seu.

Acordam luzes
nos sonolentos castiçais,
a prataria desperta
e os vitrais
acendem seus desenhos.

O riso estala,
janelões abrem as asas,
a vida invade a sala.
Ressoam passos sobre o piso,
renascido
na claridade de seu riso,
na primavera de seus passos. 

Pratos fumegam sobre a mesa,
estalam taças,
a alegria acesa
rompe a barreira das vidraças.

Desperta o casarão.
O
lírio rompe o chão
na glória da plenitude.
Todo solar estua
no calor da alegria sua,
na luz de sua juventude
.

 

 

 


 

BOI  BRABO

 

quando cheguei,
sem ser ouvido
nem consultado,
já encontrei
banquete ao meio,
tudo ocupado.

Mourão,
esteio
porta
cancela
cadeado
taramela
mata-burro
fios farpados.

Vitrines gordas
buchos vazios
velhos tabus
antigas peias.
Mãos vadias
fartas e cheias,
mãos vazias
cheias de calos,
velhos e duros.

Talvez existisse
a minha espera
alguma mulher sem dono,
de flor em punho
e pernas graciosas,
pois as mulheres nascem
aos milhões,
como flores nas primaveras
e eles não podem esmagar a todas.

Igual boi brabo,
rompendo cercas
partindo peias,
quebrei os cornos
nos muros altos,
cuspi meu sangue
na suja areia.

Couro ferido,
lombo lanhado,
deixei dependurado
fiapos coloridos
de vida e sonhos
nas ferpas finas
dos fios farpados.

Estaco exausto.
Limpo as feridas
refaço os sonhos
renovo a vida.

Cornos quebrados
lombo ferido
couro lanhado
cascos partidos,
perdida a terra
o céu perdido,
cavando o chão
de novo invisto.

Pois neste mundo
de vida cão
não me deixaram outra opção.

 

 


 

AMOR EM CABO FRIO

 

O mar e o amor mar-
caram a pedra,
e nada mais.
Os passos descalços dos casais
gravaram a rocha,
os dedos do mar,
aflitos,
arranharam a cara do granito
na ânsia da escalada.

,

(existem, é certo,
a vela escada,
o Forte assaltado pelo tempo,
velhas peças
que atiraram contra a vida,
mas não deixaram impressas
canções maiores
nem ânsias definidas.)

Só você marcou a tarde
e a loura praia perdida,
as dunas de areia branca
os rumos de minha vida.

Pássaro fugido
pousaste na penedia
trazendo nas formas esguias
os cantos dos mares todos.

Flutuaste como a pétala,
enfeitando de moreno
as águas do mar azul.

Incendiaste a praia-leito
com teus gemidos de amor.

Sobreviventes do desamor
nos afogamos em nossos braços
e no imenso mar do bem querer...

 

 

 

 

POBREZA

 

Iguais raízes
sugando a terra
as mãos em garra.
Em guerra e gana
o bucho
murcho.

Os pés feridos
ferindo o chão.
A mente curta
enxerga pouco 
pra desencanto 
do canto
vão.

Telhas de palha
cama de palha
cesto de palha
e o juquiá.
O par de esporas
fere o cavalo
que já

morreu.

Quadro rasgado
que se balança
mostra São Jorge
– só a cavalo
e a ponta da lança –
na lamparina
que se consome
a peregrina
chama da 
fome.

Lá no canto
toda empinada ergue seu canto,
vitoriosa,
malassombrada,
a fria
enxada.

Cheios de fé
e de certeza
vamos dizendo:

sabeis ateus,
         somos criados          
 
à semelhança 
do grande
Deus.

 

 

 

CANCELA

 

Esta maldita cancela  
precisa ser derrubada,  
faz uma zoeira danada  
quando alguém passa por ela.  

Entre o curral e a capela,  
na porta de minha porta,  
escancara a boca torta,  
grita, berra e se esgoela.  

E cada vez que gargalha  
a cancela no batente  
eu fico de mão tremente,  
meu coração se escangalha.  

Pensando que ela volta,  
minha estrela, meu morrer,  
minha razão de viver,  
minha dor, minha revolta.  

Corro sempre. Nunca é ela,  
grita a bicha no batente.  
Meu Deus, como passa gente  
nesta maldita cancela.  

 

 

 


 

CANTO SELVAGEM

 

A chuva deixou  
(gota de pranto)  
um poço branco  
no verde capim.  

A garça selvagem  
estica o pescoço  
junto às aves caseiras  
que se banham no poço.  

Da choupana vizinha, um moço,  
com uma cadela malhada,  
corre ligeiro pra poça dourada.  

Só a garça selvagem  
tem a coragem  
de alçar o seu vôo...  

 

 

 


 

VOCÊ ERA AZUL

 

Em antiqüíssimas eras  
você era montanha  
e eu fui riacho.  

Você era azul  
e os últimos raios de sol  
eram depositados em seus seios,  
você guardava nos dourados veios  
o ouro, o diamante e o rubi.  

Eu nascia em você,  
banhava seus pés  
e corria para outras terras e montes,  
mas sempre preso ao seu corpo azul.  

Depois  
eu me fiz cigarra  
e você se fez flor.  
Meu canto durou  
o tempo de sua floração.  

Depois  
me fiz homem e poeta  

cigarra humana –  
você se fez mulher e professora,  

iluminada flor –  
( o tempo, com suas imensas barbas brancas  
e seu cajado luminoso,  
continuará a caminhada.)  

Serei o ipê dourado  
 
e você a quaresmeira  
abraçados os dois no alto do monte,  
num tempo onde as flores  
serão respeitadas.  

Depois  
seremos um só e seremos estrela  
a despertar o canto dos poetas.