Poemas de Salgado Maranhão

 

 




A cidade

Espaços da cidade
agônica
fluem com os bárbaros
insurretos. Noiados.
Sem visgo de afeto
que adoce as ranhuras .

Quito ao meu olhar
                              virtual
sua cota de sonhos:
gatas de chocolate
e bundas avulsas.

Que passam e não me agendam
em nenhuma manhã.

( Egos de bife e batom.)

Estrelas de carne e faíscas
entrefodem-se no Olimpo.

 

 

 
 
 

Transfiguração sob o olhar de Manet
(um bar em Folies-Bergère)

Estão retidas na cor
as imagens. Farpas
e tons do real. Constela-se
Na estampa o vinho. E rubras
arestas avançam no êxtase.

Estão regidas no acaso
as retinas. A dama
em negro e sua desnudez.
E o que induz seu fruto
e seu olhar lunar,
investe o tempo
ao revés.

(Rumores de assédio com champanhe.
Reclames. Ocultas falas
e cinema lúdico
ancoram tertúlias
e prelúdios.)

Estão cingidas na cor
as miragens. O insondável
e sua geometria. Luas cortesãs
– e alhures – frutas frescas
e cristais.

 

 


 
 

          Transfiguração sob o olhar de Di Cavalcanti                                                
                              (cinco moças de Guaratinguetá)
 

São bocas rubras do vinho
de uma festa que não houve
são incêndios represados
são lábios sujos de love.

São segredos que se acoitam
na passagem dos vestidos
são  reveses que se atrevem
entre o haver e o havido.

Lume no lago dos olhos
que a aurora dissemina
são rumores da natura
no que é fêmea e feminina.

São recatos do silêncio
nos desacatos da cor
são a estiagem úmida
do sonho que transbordou.

 

 


 
 

0 azul e as farpas
 

Sigo a sangrar, do peito ao vão das unhas,
os dardos do amor: o que há sido e o que há.
Naufragado ao vento de um cais sem mar
o que serei se alia ao que me opunha.
As farpas do desejo – esse tear
das aranhas da dor e sua alcunha
– fazem da luz do dia uma calúnia,
cravam no azul da tarde o zen do azar.
Tento amarrar o tempo e a corda é curta,
tento medir o nada e nada ajusta.
(Meus nervos tocam para os inimigos
que chegam sob o som de uma mazurca.)
 Resta a mó do destino – o desabrigo
– a devolver meu pão de volta ao trigo.

 

 


 
 

Corda bamba
 

o poeta é mercador
traficante de caminhos
que vende raios,
sinfonias
e horizontes.

frugal mercador de eternidades
 – porta a porto –
 aos quatro cantos do luar
 ao mar
ao ar
sob o tempo
e o temporal.
 
o poeta corre o risco
entre o amor livre
e a palavra.
está sempre atrás do pano
em plena corda bamba
do mistério.
e atravessa submerso as metrópoles
dos olhares
feito um louco solitário
 que come fogo.

 

 


 
 

Delírica XI

Teu olhar desenha
metáforas
em meus domínios. Volúpia.

Alcalinas,
tuas águas deságuam
módulos de tempo
pleno.

Sabe-se que o silêncio
é pedra. E na sua agudez
– palavra.

Sabe-se que o amor
desarvora . E da sua lavoura
– dálias em dádivas.

Faminto em tua carne
assalto romãs
e abrigo. E sons do que somos
açoitam guitarras.


 


 
 

Deslimites 2
(o som do sonho)

   

em que rua perdi
minha casca de vidro?
em que guarda-chuva
                                     de  nuvens

me dissolvi?
em que medo?
em que medro?

que destino me adestra
a marejar com as pedras
a resmungar com o mar?

tísico de revirar desertos,
                                          deserto.  

não morro
pela essência
morro de essência.
 
expira o século
                          a vinte
em usura exausto
a destilar cinza ao suor.

 de tule
            a primavera gane
            sob as unhas do feitor,

de tanga
           a servidão sorri
           talhada ao delírio voraz
           de ferir.

quem paga o carcereiro
do mundo.
o censor da paralítica paz?
Quem adoçará o rancor
dos bárbaros?

[...]

range o coração sob as costelas
reza o declinar  do tempo
em seus castelos

– ferrovias dormentes
sobre plantações de crânios.

em meus sonhos
esqueci meus limites?


 


 
 

Deslimites 8
(louvação à Santa Clara)
 

minha santa santa clara
santa nave claridade
clariai      clarividência
claramim
clarim

clariai o som do tempo
a fibra onde o vento medra
clariai o sempre
onde a água água
onde a pedra pedra

Ó rainha do clã da lua
alumbrai meu pensamento
(afluente do silêncio
que é quase lamento)

clariai o afeto
clariai a fé

clariai os santos em sua loucura
clariai os loucos de santidade
clariai os malfeitores
os assassinos em suas off-sinas, incendiai
suas usinas
seus ritos de desviver

ó bailarina do amanhecer
ó musa do meu clã-mor
clariai a terra
(a tenra)
seiva do ser.

 

 


 
 

Fetiche
 

Tal como os dendritos surgem
da pedra, nessa penugem

que o sol doura em tuas coxas
há um quê de pluma e rochas

e muito mais que isso, apelos
já que nuvens de pentelhos

desabrocham. São preâmbulos
ao vértice do triângulo.

Sopra um halo de fetiche
que da selva de azeviche

flui – um pouco mais em cima –
onde jorra o mel da mina.

 


 
 

Flor de amido
 

Ao desvendar o saco de pipocas desfruto a sensação
de mastigar estrelas. Evoco as explosões em cadeia
sob a tampa da panela (a conversão do azeite em fogo
torna o – já despido – grão em algo que se debulha

em flor). Algo que de intuir-se fervilha a maxila. E
junta-se às ínfimas pepitas de sal a derme do amido.

Tal que os apelos da saliva e sua espessa volúpia
são meros subtextos do vôo do olho ao irresistível.

 

 


 
 

Fortuna 2
 

meu olho plurivê
prospecta
                 tua mina

entre coxas
plataformas
teu minério
– orquídea de dez mil pétalas.

meu olho iça
– treliça – 
estremece.

até mesmo os cegos
e os espelhos
                       captam

tua fortuna
entre pentelhos.

 



 

Kuarup
 

de seis milhões
em mil e quinhentos
restou apenas uma legião
de vultos soletrando
uma algazarra
zorra,
 um kuarup de calça jeans

os outros foram mortos
até os que estão vivos
até os que não nasceram

 

 


 

Deslimites 10
(taxí blues)
 

eu sou o que mataram
e não morreu,
o que dança sobre os cactos
e a pedra bruta
                          –  eu sou a luta.
o que há sido entregue aos urubus

e de blues
                em
                     blues
endominga as quartas-feiras.
                                       – eu sou a luz
sob a sujeira.

(noite que adentra a noite e encerra
os séculos,
farrapos das minhas etnias,
artérias inundadas de arquétipo)

eu sou ferro. eu sou a forra.

e fogo milenar desta caldeira
elevo meu imenso pau de ébano
obelisco às estrelas.

eh tempo em deslimite e desenlace!
eh tempo de látex e onipotência!

 



 
 

Da série problemas pessoais
 
 
meto a cara na manhã
empoeirada da metrópole,
arrasto comigo um poema
em busca de palavras exatas
para ser tecido.
 

jogo o corpo na manhã
cinzenta da cidade
com a cara lavada de perspectivas
e o coração que é um largo lençol
de cicatrizes.
 

navego longamente na manhã
urbanotrópole
com o saco cheio de sair pela traseira
da vida.

 

 


   

  Punho da serpente
 

eu acompanho o movimento da serpente
e seu diálogo com a rã.

é tanto que quando a chama
ao seu seio,
não o faz como quem mata
mas como quem constrói seu ser.

e o faz com tal leveza
que a rã se esquece que é presa
e passa a ser sua irmã.

que no combate
o punho seja assim:
quase uma imaginação.
que entre tão suave
como a nossa afeição.

 



 
 

0 poeta e as coisas
 

as coisas querem vazar
o poema
em sua crosta de enredos,

as coisas querem habitar
o poema
para serem brinquedos.

chove nas fibras
de alguma essência secreta
e o poema rasga
                         a arquitetura
do poeta.

 

 


 
 

Ode à rede
 

o design da rede
se aprimora no corpo

e no espaço. seu côncavo
abraço de mulher

induz ao santo ócio
tema para sombra e

solo de árvores, inda
que seja breve o toque

é manjar para deuses
amantes – o desfiar

de sonhos de algodão,
– a lã que a rede enreda.

 

 


 
 

O verbo

Passos da manhã
trazem-me o dia
a desovar enganos.

( O amor me busca
como um predador.)

No entanto
o verbo freme. Ateia
fogo aos abismos
reincide ao pó
e ao efêmero.

No entanto arrasto
o canto  à borda
dos incêndios.

Ó caminhos que afundam
minhas  rasuras!

O que é do tempo
é da terra
o que é da terra
é do Ter.

Ó escudos de selva
e trilho!

Do que me atrevo
Sobrevivo.



 

 
 

Voz
 

Minha carne é fibra de argila e sol
verão. Ou docas onde a dor se encuba
secretamente.  Sei que em meu paiol
os andróides de porre dançam rumba.
No entanto flui de mim um girassol
lilás que luz, que jazz, que mais que alumbra,
esculpe as esquadrias do arrebol
dissolve o tempo sobre a minha juba.
Já de júbilo desse pergaminho,
aceito o temporal – redemoinho
de pedras: tanto degrau... tanta esgrima...
e ao ter somente a voz como caminho
agarro a poesia pela crina
e me  arrimo na minha própria rima.