O CRISTÃO
NA CRISE
O trabalho
de segunda etc.
Até o sono de
sábado
passando pela
feira de domingo
Demissionária/diária
destas coisas
me
deito no divã
E espero a
erupção que, penso eu,
breve virá
Mas
não.
A lava só
me atinge a contracapa:
Cortes no gás,
na luz,
na compra de
alguns livros
E
continuo/continuamos:
a perna
mecânica,
o braço de
papel,
Uma vontade -
pivô de,
ao morrer,
ir
pro céu.
A HÉLIO PELEGRINO
O avesso da
morte
é movimento,
vertigem,
pulsar de
músculos,
poros
Todas as
ações desencontradas
na memória:
livros, contas
que se pagam.
Como
de um dia para
o outro
interromper um
artigo
um poema,
desprogramar um
cinema
deixar para
sempre intactos
nosso
guarda-roupas e
chave?
E a mulher,
a mulher que
nos espera,
Deixá-la
longos anos
na marquise
à sombra de
verões,
invernos
primaveras?
Abandonar
projetos
cobranças
(que se paguem
sozinhos)
E o
principal:
este momento
suspenso
no meio-fio do
silêncio
DEUS é
movimento.
INSÔNIA
São
universais:
relógios de
parede,
galos que
cantam,
o escuro do
quarto...
...E o anjo
que nos fez caretas
a noite toda.
DOMINGO DE MANHÃ
Uma
borboleta morta
voa
pelas páginas
do caderno
PLURAL
As tardes se
desdobram
nos domingos de
camarão, de vinho
Pornografias à vista
nos edifícios
soldados às
segundas-feiras.
As meias-tardes
entre cafés os
projetos longínquos
rarefazem
uns abacaxis de
mármore
nas fruteiras.
Pores-de-sol
entre sono e visitas
aos parentes
se constroem e são
blocos de um concreto
inconfundível
transparentes.
Insuperável ?
engolir tantos
brindes
aos domingos
ABISMOS
Tudo o que
já dissemos
sobre o amor,
não supre a
expectativa da
paixão.
A paixão é
adaga afiada
que se crava
fundo, fundo
Nela o amor
dança
e dorme, sonha
tudo.
Não tem
meias medidas a
paixão.
Ou voamos,
viramos pelo
avesso
Ou o que nos
espera é o
precipício.
E isso ? é
apenas o início.
LEGADO
Aos amantes
é dado o dom
de cozinhar
futuros
e de tombar
passados.
Deu-lhes a vida
que os alimenta
o fogo,
e nada mais.
Aos outros
deu a esperança
objetivos,
o silêncio
luminoso
das estátuas.
Aos amantes,
o gesto,
o movimento,
a cor às vezes
possível
de encontrar.
CLIP
Cabras desciam o
morro.
A árvore não dava
frutos
dava louros,
Mas a vontade de
dizer pro moço
que a gagueira dele
emocionava
(e ele podia me levar
dali com ela)
era maior que as
surpresas da paisagem.
(um olho nos
bichos
outro nas palavras
dançando sobre mim)
O rapaz era magro
quase feio,
nunca adivinharia:
queria impressionar
falando sobre carros,
política,
E eu ali,
ouvido fixo no
discurso tropeçante
que ajeitava
camisa
e arrumava cabelo
Mas o centro
mesmo,
afora o canto dos
louros e a vertigem das cabras,
eram os poucos
pedaços de sua voz.
THE NEW
YORK COMPANY - DOWNTOWN
Nem um poema
sai
sobre esses
prédios
sobre essas
nuvens
cúmplices do
cimento
e o espírito
gelado desses homens
Nas
tubulações a fumaça
não aquece nem
disfarça
o mergulho raso
nesses dias
à beira do
Hudson
do World Trade
Center
dos sanduíches
no Sacks
e as comidas
empacotadas com a alma
A ilusão
esvoaça
nessa Babel de
rostos:
chineses
japoneses
mexicanos
alemães
(americanos)
- em princípio
reunidos -
não se vêem,
são peças de
um cenário
dividido
no leitmotiv da
pressa
no que não
mastigam da existência
sempre
later, in a hurry
e a máscara da
ordem
dont worry
Polícias,
buildings, papers,
removables
notes,
Wall Street na
mão
24 horas à
disposição dos chefes
em qualquer
cordial setor
das agências
de banco
nos cafés onde
o amor
é o último a
chegar
e permanece
- ferida em
aberto -
para o fim da
vida.
Também em
Nova Iorque
queremos ser
felizes pelo avesso
...mas
felicidade a esse preço
eu agradeço