Poemas de Suzana Vargas

 

 


 

 

  CONVERSA DE FIM DE TARDE

   Eu queria estar
   naquelas amuradas portuguesas
   de onde se avista o mar,
   o Tejo,
   e o Cabo da Roca

   Lá descobrimos
   que o Universo
   é uma ilha ambulante
   Está
   onde estamos
   e não existe para além de nós.

   Eu queria estar
                       aqui.

 

 

 

 

 

   LIBÉLULA-MÓVEL

   As meninas dançando
   Parece que estão dormindo?

   Ou as meninas dormindo
   Parece que estão dançando?

   Capta este momento
   em que uma lança,
   atravessa seus dedos
   e teus olhos

   Ambas em posição de estátua ?
   Móvel
                 pela dança,

   E pela guerra que se esconde
                      em célula

   Também as palavras
                      são libélulas.

 

 


   
 
 
 
   INSCRIÇÃO

   Conheço um lugar
   e dele procuro as raízes
   Melancolicamente, às vezes
                              com raiva

   Cortava minha paisagem
   a locomotiva,
   os dias de sol,
   o inverno tardio,
   uma árvore que, de tão alta,
                        se inclinava até o solo.

   Quanto mais cresço
   mais dobro

 

 


 
    
   

   REDE

   Ela.
   Ela pertenceu num dia que dista
   à classe refinada de empregadas
   (brilhavam de limpeza suas unhas,
   um cabelo de redes na cabeça)

   ... Marmorizou.
   Ainda se acredita vestindo madames
   na Muda,
   ouvindo/acompanhando
   viagens à Europa.
   E anda pelas ruas agitando um leque
   ao qual se acostumou.

   “É doida”. Dizem uns.
   Eu digo ? “É certa”.
   Ela apenas anda
   os sonhos de mansão
   que nós corremos
   E só difere porque está desperta.

 

 


 
     


 
 
  COCHICHO

   Quando escrevo o
                          medo

   é sempre o mesmo:
   chegar atrasada ao que
   quero dizer

   : E de me dar por inteira
   nua
   e freira

 

 


 
    
 

  SEM RECREIO

   Um carro correndo na ponte
   Um sol que vertia sangue
   Sobre o monte...

   Onde os poemas
   não escritos?

   Onde o poema que
   não fiz por

   que não tinha empregada
   ou
   porque a neném estava
   com diarréia?

   Quando
   escrever poemas
   no banheiro
   Se crianças me
   reclamam por inteiro?

   Meus poemas?
   Como encontrá-los
   na madrugada
   se de noite
   me deito
            Cansada?

   Mas eles me acenam:
   da água suja do balde
   sapóleo branco do piso
   Onde meus poemas
           o lixo

   Das aulas que
   dou
   como louca
   E ao diretor custam
           Muito pouco?

   Onde a exata dimensão
   freia o que sinto
            Corre o que sangro

 

 

 
    


 
 
  EU, MEU NOME

  Talvez tenha encontrado
  a poesia do nome

  Sou um cristal,

  uma pedra a flutuar no abismo
  
  Ela
  é o exato momento
                         suspenso
 antes da queda

 

 


 
   
 
 

  À PROA

  Eu tenho insistido em poucas coisas
  e desistido de muitas.

  No barco, o leme se perde,
  eu e meu quepe distraídos,
  sombra e olho fixos no mar
  Quase tudo é movimento de suspense:
  lápis parado no ar.

  Positivos, fatais,
  os círculos se fecham
  Mas eu não.

  Fico imóvel a emitir as ondas magnéticas
  do que está por vir.
  E o futuro de todos
  me atinge como um raio:
                                   este ama,

  aquele ali dá aulas
  uma lá tem filhos
                                    EU

  estou
  entre fechar os livros
  no meio da lição,
  ou prosseguir mirando o livro
  como um barco
  num mar
                                           imprecisão

 

 



 
    
 
 

  MONUMENTO ÀS FONTES

 
 
Suspensa

  Pássaro a engolir uma serpente,
  eriges teus sinais em bronze vivo.

  Sereias, sacerdotes,
  há algum tempo
  o mundo te contempla.
  Mija ou não,
  na cabeça de teus anjos.

  Mescla de esperma e de gelo,
  me espreitas sempre que eu quiser
  te olhar.

  O teu único crime
  é perpetuar a flecha,
  cravada em  antigo coração.

  E tua história
  escrita em cada um
  com um punhal

  Juntará o que rasteja
  ao que voa

 

 


 
     
 
 

   O CRISTÃO NA CRISE

   O trabalho de segunda etc.
   Até o sono de sábado
   passando pela feira de domingo

   Demissionária/diária
   destas coisas
                   me deito no divã
   E espero a erupção que, penso eu,
   breve virá
                   Mas não.

   A lava só me atinge a contracapa:
   Cortes no gás, na luz,
   na compra de alguns livros

   E continuo/continuamos:
   a perna mecânica,
   o braço de papel,
   Uma vontade - pivô de,
   ao morrer,
                 ir pro céu.

 

 



 
    
 
 
 
   
A HÉLIO PELEGRINO

   O avesso da morte
   é movimento, vertigem,
   pulsar de músculos,
   poros
   Todas as ações desencontradas
   na memória:
   livros, contas que se pagam.

   Como
   de um dia para o outro
   interromper um artigo
   um poema,
   desprogramar um cinema
   deixar para sempre intactos
   nosso guarda-roupas e
                       chave?
   E a mulher,
   a mulher que nos espera,
   Deixá-la longos anos
   na marquise
   à sombra de verões,
   invernos
                  primaveras?
   Abandonar projetos
                  cobranças
   (que se paguem sozinhos)

   E o principal:
   este momento suspenso
   no meio-fio do silêncio

   DEUS é movimento.



 
    
 
 

  INSÔNIA

   São universais:
   relógios de parede,
   galos que cantam,
   o escuro do quarto...

   ...E o anjo que nos fez caretas
   a noite toda.

 


  
 
 

  DOMINGO DE MANHÃ

   Uma borboleta morta
   voa
   pelas páginas do caderno

 

 


  
 
 

 PLURAL

  As tardes se desdobram
  nos domingos de camarão, de vinho
  Pornografias à vista nos edifícios
  soldados às segundas-feiras.

  As meias-tardes
  entre cafés os projetos longínquos
  rarefazem
  uns abacaxis de mármore
  nas fruteiras.

  Pores-de-sol
  entre sono e visitas aos parentes
  se constroem e são blocos de um concreto
                                                    inconfundível
  transparentes.

  Insuperável ?
  engolir tantos brindes
  aos domingos

 


 
   
 
 

   ABISMOS

   Tudo o que já dissemos
   sobre o amor,
   não supre a expectativa da
   paixão.

   A paixão é adaga afiada
   que se crava fundo, fundo
   Nela o amor dança
   e dorme, sonha tudo.

   Não tem meias medidas a
   paixão.

   Ou voamos, viramos pelo
   avesso
   Ou o que nos espera é o
   precipício.

   E isso ? é apenas o início.



 
    

 
 

   LEGADO

   Aos amantes é dado o dom
   de cozinhar futuros
   e de tombar passados.
   Deu-lhes a vida que os alimenta
   o fogo,
   e nada mais.

   Aos outros deu a esperança
   objetivos,
   o silêncio luminoso
   das estátuas.

   Aos amantes, o gesto,
   o movimento,
   a cor às vezes possível
   de encontrar.

 

 


 
    

 
 
    CLIP

  Cabras desciam o morro.
  A árvore não dava frutos
  dava louros,
  Mas a vontade de dizer pro moço
  que a gagueira dele emocionava
  (e ele podia me levar dali com ela)
  era maior que as surpresas da paisagem.
 
   (um olho nos bichos
  outro nas palavras
  dançando sobre mim)

  O rapaz era magro
  quase feio,
  nunca adivinharia:
  queria impressionar falando sobre carros,
  política,

  E eu ali,
  ouvido fixo no discurso tropeçante
  que ajeitava  camisa
  e arrumava cabelo

  Mas o centro mesmo,
  afora o canto dos louros  e a vertigem das cabras,
  eram os poucos pedaços de sua voz.


 

 


     
 
 

  THE NEW YORK COMPANY - DOWNTOWN

 
  
Nem um poema sai
   sobre esses prédios
   sobre essas nuvens
   cúmplices do cimento
   e o espírito gelado desses homens
 

   Nas tubulações a fumaça
   não aquece nem disfarça
   o mergulho raso nesses dias
   à beira do Hudson
   do World Trade Center
   dos sanduíches no Sacks
   e as comidas empacotadas com a alma
 

   A ilusão esvoaça
   nessa Babel de rostos:
   chineses
   japoneses
   mexicanos
   alemães
   (americanos)
   - em princípio reunidos -
   não se vêem,
   são peças de um cenário
   dividido
   no leitmotiv da pressa
   no que não mastigam da existência
   sempre “later”, “in a hurry”
   e a máscara da ordem
   “don’t worry”

   Polícias, buildings, papers,
   removables notes,
   Wall Street na mão
   24 horas à disposição dos chefes
   em qualquer cordial setor
   das agências de banco
   nos cafés onde o amor
   é o último a chegar
   e permanece
   - ferida em aberto -
   para o fim da vida.

   Também em Nova Iorque
   queremos ser felizes pelo avesso

   ...mas felicidade a esse preço
                                           eu agradeço

 



 

    

 
 

  OURO SOB  ÁGUA

  Só me lembro que atrás de nós havia um morro
  a mata
  No centro, a música, o violão
  Fazia frio e nuvens
  se aqueciam pelo som.

  Havia, entre outros,
  uma água
  um menino cortando cabelo na beira da casa
  as tangerinas no pé.

  Do grupo, um homem
  me perguntava
  sobre a melhor forma
  de começar um banho
  sem reparar no profundo da questão

  -- Entro devagar
  ou de uma vez por todas? Perguntou

  -- Por todas, respondi
            Não há céu ou inferno
  que comece devagar

 



 
 
 
 

  UM SONHO, UMA ONÇA

  O sonho vela o escuro e é real
  E o real é essa onça é esse sol
 
  É mais real que as grades, que a comida

  Do carcereiro, é mais real que a vida.
 
  Com a sua avidez adormecida

  A onça sonha, mas não sonha em vão
 
  Em vão vai quem se prende à realidade

  E imagina ser livre sem as grades.
 
  Na verdade uma paixão nos prende a tudo

  E mesmo cegos surdos mudos continuamos.
 
  Mas pensemos na onça em sua cela

  no seu sono velado à luz do dia
 
  Que a obriga a dormir com seus limites:

  o cheiro, a cor, ruídos rutilantes
          (instintos e capim e terra e ar) 

  Por que imaginarmos diferente
  Se o limite da onça é  sonhar?

 



 
  

 

  EU, MEU POEMA

  Quem não teve seu dia transtornado
  Pelo balão azul de uma menina
  E o desejo de furar o céu de gás
  Por ela infelizmente despertado?
 
  Quem insinuou todo veneno

  Brigou pela comida, por salário
  E carregou debaixo do seu braço
  Um livro de poemas como remo?
 
 
(É sempre esse estar insatisfeito
  a corda bamba das muitas emoções,
  o tal desejo de que a vida seja um lago
  um afundar de faca na manteiga)
 
  Quem, neste setembro, na manhã,

  sentindo o vento contrário ao de seus planos
  Recusa-se ao amor, quando é o amor
  que dá leveza aos remos e aos ramos?
 
  Só pode uma pessoa dar tais passos

  contraditórios na manhã sombria:
  Enfrentar-se com palavras e, com elas
  Passar de tanta raiva a esta alegria.

 


  
 
 

  BAND - AID

  Moça debruçada na janela,
  como é bonito vê-la através
  de tantos carros passeando na avenida,
  e tendo ao fundo a luz mortiça
  de desbotadas paredes
  onde repousam tantos tesouros
  do tempo ? a velha foto da avó ?
  um poster da seleção,
  ainda com Garrincha

  Você se recosta
  e equilibra
  toda a loucura do universo
  num só braço
  o outro cruza
  em direção às flores mortas
  de um vaso alto e antigo,
  desejoso de festas.

  O sobrado se desgasta,
  alguns musgos
  o guardam.
  No alto,
  em letras ancestrais, está escrito ? HOTEL ?
  e quase opacas.
  Em baixo,
  o luminoso
  onde se lê ? farmácia ? 

  Fique aí,
  fixe aí, você
  que não sei de onde vem,
  que não sabe onde está,
  de quem desconheço a história
  Mas que pertence ao sobrado,
  ao Estado,
  ao país.
  Longos cabelos negros,
  os pensamentos tão longos
  presos nos carros que passam ? Fique ?
  com seu bisavô na parede,
  a tinta rosa mofando seus vitrais

  Enquanto logo abaixo
  dos pêlos do seu braço,
  o luminoso pisca
  pisca e pisca,
  Ainda dentro deste século.