Em par
- Helena Ortiz

                                                                        



       O LIVRO 

           Prefácio Arriete Vilela ]

      Metafórica, lúcida, dilaceradora, instigante, flecha em vôo para o miolo da alma: assim é a poesia de Helena Ortiz.
      
E como dizer de uma poesia que é denúncia e denúncia e denúncia, a confrontar-nos todo o tempo com nossas feridas individuais e sociais, a mostrar-nos as as bordas quebradas da nossa cidadania omissa, a abrir-nos fossos  no coração para que se abriguem as vítimas da estupidez humana e urbana?
      
Como dizer de uma poesia que sabe expor, sem que nos sintamos agredidos, as nossas mal disfarçadas carências, a nossa incômoda solidão, os nossos mais íntimos desejos, os nossos ermos e desolações  interiores, as nossas vaidades, os nossos silêncios covardes, as rasteiras com que a vida nos brinda, uma vez e outra , os nossos preconceitos dissimulados e as traições que nos rondam diariamente – enfim, como dizer de uma poesia reveladora da nossa dualidade de transcendência e inutilidade?

homem  é  carcaça
sua fome –
uma lasca de nada
um guerreiro que se levanta

 
e estufa

resistente empurra
o graveto

é empurrado pela casca
cai levanta
transcendente
inútil   

                           (Grave)   
          
 

      
Como dizer de uma poesia densa e bela, a renascer a cada verso, a ser nova e mais densa e mais bela cada releitura, uma poesia libertária, esperançosa e  desiludida, e tão humana, tão sísifica e prometéica? 

nunca fui das casas
que também não foram minhas
me abrigo – eis tudo – passa-se o tempo
 
mas minha vontade
 
é pertencer  aos telhados  
          
                                     
( Passos )

    
Corno dizer de uma poesia que traz nas entrelinhas a  grande alegria do ato criado, do escrever em estado de graça, do estar para além dos limites e das crispações e das perdas cotidianas? Uma poesia que é entrega amorosa, desejo na carne, saudade, abandono, paixão e busca?

...
pois te quero ainda
sob chuva pelas ruas nos lençóis
como quis tuas carícias

e punhais
  
                                   
(Recaída)

      Sinto-me encantada, seduzida, e a palavrar não me socorre para que eu possa expressar a inquietação e o êxtase com que leio e releio cada poema – enxuto, depurado, deixando-me atravessar pelo gume afiado e desafiador da sensibilidade poética de uma mulher talentosa que não permite ao grão ser (...) levado pelo vento / ao chão do abismo.
     
Helena Ortiz sabe o destino do grão, da palavra, da poesia.

 

                                                         *Arriete Vilela é escritora.

 

 

    

Tarde  

o sol de inverno atravessou o dia
como em outros lugares
serenos céus de outras cidades
onde estive sentada em silêncio
me aquecendo
tantos anos
e ainda estou fria

 

Na delegacia

preto pobre natural
de Barra do Piraí
auxiliar de pedreiro
agora puto
e presidiário
? e o doutor vem me falar
em paranóia?

 

Despertar

não ser daqui
nem de outro lugar
construir um passado
com paisagens postais
essências in vitro
cozinhas alheias
fragmentos azuis e pronto: céu
miragens distorcidas
pedaços de calçada
madrugadas frias
acordar no hotel
onde não poderei contemplar-te
nem saber se existes

                  [ in: Em par ]

 

 


A AUTORA

 Helena Ortiz nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, é jornalista e taquigrafa, idealizou o projeto de poesia panorama da palavra e edita o panorama – jornal de literatura.

Livros publicados:

Pedaço de mim, (EditoraT&T, Porto Alegre, 1995)
Margaridas (Editora Blocos, Rio de Janei­ro, 1997)

Azul e Sem Sapatos
(Editora Blocos, Rio de Janeiro, 1997).

Ortiz, Helena. Em par. Rio de Janeiro, Editora da Palavra, 2001.

            Editora da Palavra : (21) 2275 3520 

Clique em Palavrarte\Entrevistas\entrev_heleort.htm  para ver entrevista de Helena Ortiz à PALAVRARTE.

 

  Nota:

     Em Par, de Helena Ortiz, inaugura a Editora da Palavra, que se apresenta como extensão do projeto Panorama da Palavra.