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O
universo poético-existencial de Ivan Wrigg Moraes
Sérgio
Natureza
Três anos após lançar seu minimal mas significativo "3x4"
(Massao Ohno Editora,
1996), Ivan Wrigg Moraes parte agora para "LIBERGRADE".
São
sentimentos que ferem a película-vida à luz de flashes poéticos (
"O sol nos cega com sua incompreensão do escuro"),
enquadramentos próprios/ novas angulações de memórias ("meus
olhos se debruçavam no pêssego das tuas pernas'), surpreendentes
revelações ("a Eternidade é um licor que nunca se
cristaliza") ...
Desde
seu primeiro livro, lançado em 1974, quando, não por acaso, foi
codinomeado "máquina fotográfica que sangra", IVAN vem
imprimindo suas imagens em um filme de muitas asas , supersensível,
onde registra, com seu olhar-câmera, cenas do cotidiano e flagrantes
da alma. O presente volume traz o autor na maturidade do seu trabalho
de lidar tanto na vida como na poesia, com luz e sombra. O resultado
traduz fielmente o que vem se confirmando livro após livro: trata-se
de uma obra íntegra, nítida e luminosa.
Emérito
driblador das intempéries existenciais, zagueiro defensor das mais
nobres causas humanistas, meio-campista (ora desarmando os opressores,
ora municiando o ataque dos justos contra as hostes da
insensibilidade), IVAN WRIGG
MORAES joga por música / tira versos de letra ... e com que
categoria - surpreende pelo toque sutil, pela ginga de corpo,
pelos passes em profundidade. Em "LIBERGRADE", seu quinto
livro editado, ele aprofunda questões sem maneirismos, de cabeça
erguida com total visão do campo –, tabela com o humor, faz
embaixada cm bola de meia, mas não é do tipo que cobra escanteio e
cabeceia: tem a cabeça no lugar e os pés no chão e virtuais asas
que o permitem ousar sempre novos vôos para as suas borboletas (
porque também é compositor) que há muito deixaram o casulo.
Desde
o primeiro exemplar de "CEMITÉRIO GERAL"( Editora Cátedra,
1974), passa o tempo, viram-se páginas e o poeta chega absoluto ao
final de uma partida. Depois de passar toda a defesa adversária,
ratifica sua posição de artilheiro, estufando mais uma vez a rede.
Mais um gol de placa para o time da Poesia Popular Brasileira.
Poeta
sem meias palavras, IVAN WRIGG MORAES sempre me passou, em seus
livros,, a sensação de integridade, o labor honesto e incansável do
artesão, a firme convicção do homem solidário, participante e
atento aos problemas do
nosso tempo. Os poemas deste seu 'LIBERGRADE" compõe um rico
painel de reflexões, indagações e propostas urdidas em prol da
superação da superação qualitativa do ser humano. Hábil no trato
com a "anima/animus" das pessoas e das palavras que povoam
seu universo poético-existencial, senhor das metáforas, IVAN
estabelece imediata empatia com o leitor de seus versos lúcidos,
plenos dos mais nobres ideais. Eu me incluo dentre os que se encontram
na leitura de seus textos o bálsamo, o alento, o chamamento, o
vislumbre e me sinto afinado em estilo e espírito com sua poesia,
forte e fraternal. Como ele.
Sérgio Natureza é poeta
e compositor de MPB.
Ivan
Wrigg Moraes
Os homens, de uma maneira geral,
funcionam como grandes ímãs, grandes radares que captam o que ocorre
no processo social que se desenrola à sua volta, ora a parte, ora
misturado com o que se passa no seu interior.
O artista em particular, tocado pelas grandes
conquistas de sua gente, pelo surgimento de um grande amor ou
inconformado com os fatos do dia a dia, costuma transformar essa
energia em arte.
Não
é comum o artista se calar diante da negação da vida. A cada obstáculo
revida com poesia, música, pintura, teatro... Em resumo, cria e,
desta forma, recria o que tenta aprisioná-lo. Jamais permanece
prisioneiro da impossibilidade. É pássaro, mutante, é transformação-viva.
Da
mesma forma, o crescimento humano, embora individual, passa
irremediavelmente, pela esfera social.
A explosão demográfica, os interesses
internacionais ditados pelas empresas multinacionais e pelos países mais desenvolvidos (!?) do
mundo, as filosofias neoliberais, que nada mais são que o
desdobramento das políticas destas instituições para permanecer no
controle da tão falada globalização, entre outros, criam uma teia
muito próxima ao que nos apresenta o profético livro 1984, de George
Orwell. Cerca de duas décadas antes da data-título, esta obra
denunciava, de uma forma alegórica, coisas que vemos ocorrendo, das
maneiras mais variadas nos dias atuais: ditaduras militarese
religiosas, escutas telefônicas, manipulação da mídia e da lei,
desmoralização e conivência criminosa da polícia, perpetuação de
elites nos governos, degradação da organização política e social,
a serviço de grupos organizados, etc.
O
homem desumano dirige o destino dos homens.
Mas
esse contra-senso é apenas o refazer da História. Tem sido assim
através dos milênios. Antes e depois de Cristo.
De
novo, apenas a rapidez da informação que faz com que tudo isso
ocorra, às vezes, em segundos. A informatização passa de aliada a
inimiga. Mas isso também é fruto da desumanização do homem.
Neste contexto, a arte é uma espécie de mercado
de denúncias. Do bem e do mal. É a manifestação de indignação
diante do destruidor, do nefasto, do irresponsável, do inaceitável,
da mesma forma que do sublime, do eterno, do divino.
E, nesta trilha, o homem sempre se voltou
contra a crueldade e o egoísmo humanos. De alguns homens, é claro.
Mas que são justamente os que chegam com mais freqüência aos mais
altos cargos de poder em muitas nações, Principalmente porque, estes
homens não estão, normal e integralmente comprometidos com a ética,
moral, honestidade, solidariedade e outros atributos de dignidade do
próprio homem, a não ser nos discursos, o que os torna mais ágeis
para galgar postos, visto que, nestes casos, não há muito sobre o
que refletir, a não ser o lucro que advirá de alguma decisão
tomada. Nem das suas conseqüências, que não sejam políticas ou
financeiras.
À
medida que avançamos nos séculos, vai-se tornando mais irresistível
a prisão que nos impõe um tipo de liberdade que nos atrela à obrigação
de, para alcançá-la, termos que cumprir uma série de pré-requisitos,
de forma que, mesmo quando a alcançamos, ficamos reféns das suas
regras. Como em "1984", uma liberdade vigiada.
LiberGrade
é mais que uma simples crítica emocionada ao egoísmo e à
mediocridade humana. É um grito de amor ao amor e à liberdade, à
verdadeira liberdade – que sublime a areia movediça das palavras !
–, porque, uma e outro, amor e liberdade, são uma só e única
coisa.
Chega
de nos cercarmos de
guarda-costas, seguros contra roubo, incêndio, invasão domiciliar e
pessoal, sistemas de segurança e grades dentro e fora de nós.
Ao
artista cabe abrir caminhos para elucidar mistérios, descortinar
embustes, enfim, transformar tristeza e felicidade em obras, em
fantasia, em som, palavra ou movimento, ou ... A realidade em arte. A
denúncia é apenas uma agulha no bordado.
O próprio ato de criar já é uma forma de
reação ao encanto e ao desespero.
Mas, não
é apenas o artista que participa da luta pela sobrevivência ou pela
dignidade humana. Isso é o dia a dia de toda humanidade. A vigilância
contra a destruição dos valores humanos tem que ser exercitada por
cada um de nós, a cada momento. A verdade não pode ficar à mercê
dos donos do poder nem dos encantadores da arte, aqueles que ganham
com a nossa submissão à manipulação artística. O artista incauto
também acaba refém da sua própria alienação.
A
grande crise, na realidade, é moral: $er ou não $er, eis a questão.
Em substituição ao velho Ter
ou não Ter, onde tudo se compra. Até a consciência.
O homem voltado para dentro de si, alheio ao
aperfeiçoamento humano, investe toda a sua "capacidade" na
dominação pelo poder, pela força. No blackout. No controle da luz
do saber. A luz principal sai dos holofotes direto para sobre o deus
Homem, todo poderoso, por trás de milhões de moedas, de dólares, na
compra da liberdade, no uso da liberdade, nas grades da liberdade.
E o
verdadeiro amor não se apropria; se dá.
Só
quem ama com liberdade é livre. E só quem é livre tem capacidade
para amar sem amarras.
Ponto
Pacífico
Ivan
Wrigg Moraes
O
pedreiro
ensina ao filósofo
a construir casas.
O
filósofo
ao pedreiro,
a construir um lar.
O
bom senso
nos diz:
há sempre em nós
um pouco do mestre
e um pouco do aprendiz.
( In: LiberGrade
)
Wrigg
Moraes, Ivan. LiberGrade. Rio de Janeiro, Papel &
Virtual, 2001.
136 páginas.
Papel & Virtual Editora
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Endereço Eletrônico : www.papelvirtual.com.br
Mais
informações sobre LiberGrade em:
http://planeta.terra.com.br/arte/ivanwrigg
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Veja página de Ivan Wrigg
Moraes em PALAVRARTE.
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