Livro dos amores
- Jaime Vaz Brasil

                                                                              




  Sobre a obra de Jaime Vaz Brasil 
  ( por ocasião do lançamento de Os olhos de Borges )

-"Um livro absolutamente fantástico. O próprio Borges se orgulharia."
                                   Moacyr Scliar

-"Um dos livros mais deliciosos que o Rio Grande do Sul publicou nas últimas décadas."
                                   Armindo Trevisan

-"Jaime Vaz Brasil é uma das melhores notícias da literatura gaúcha."
                                     José Fogaça

-"Um dos melhores livros em verso da história literária do Rio Grande do Sul".
                                     Eduardo Jablonski

 





      
O Grão de Espuma: Poesia de Jaime Vaz Brasil

                                                      Carlos Nejar

     Jaime Vaz Brasil, cidadão da poesia e do pampa, tem uma linguagem musical, contida, simples, despojada, com a redonda exatidão do silêncio.Mas que explode no leitor, explode trazendo consigo a mágica de um estranhado sentimento do mundo.
    Mantém o tom coloquial, com sotaque pessoalíssimo (apesar de suas afinidades: Borges, Quintana, Cabral, Pessoa...),usando com maestria o verso curto, em regra de sete sílabas.
     Seu processo a mais trivial - é o rima puxa rima, com sua roda de sentidos, por vezes, inesperados. No verso-livre, as imagens puxam as imagens.Lembro este diamante:
 
    "O dia:
     patas de lebre".
     Falei em imagens e elas são borboletas que voejam da gaveta de premissas, dobras que o poeta abre no poema.E ele é o cotidiano: centro de indizível batalha entre luz e escuridão. Onde a poesia brota de flores obscuras, com o amor, a amada, criaturas e objetos que ocupam espaço habitável no percurso da língua para a linguagem.
    "Mapa não é território.Planta não é casa".Tem razão o poeta.Porque as coisas vigem dentro das coisas.E a poesia de Jaime Vaz Brasil não se contenta em ver, postula o agir e o mudar.Ergue-se entre o "Estado de Pedra e Pluma", a gravidade e a leveza.Ou como dizia Simone Weil, em A Gravidade e a Graça, "o amor não nos consola, o amor é luz".
     Esta poesia toma a forma de canção em surdina, mansuetude, revelando serenidade, sedução e dom de entrar na alma. E entra inocente, tal um menino com grande balão azul entre os dedos.Não procura a metafísica, nem dramatiza a experiência e os sonhos.
     É verdade que Bachelard quando trata do espaço, quer que a imaginação seja viagem e o devaneio, dinâmico. Mas não é um estado, é a própria existência humana"(Blake).E esta poesia é viagem entre a imaginação e o amor.  E não é a viagem , essência do próprio amor, entre levidade e fogo?

     Sim, um criador que escreve estes versos:
 

     "Amor
     posso morrer esta noite.
     Depois do que me mostraste,
     posso morrer estou pronto"(...)  Ou:

    "Amor que talvez nos viva
     em grão de espuma, constrito

     e esconda o rosto por dentro
     do verso ainda não escrito".Ou:

    "Resvala no próprio corpo
     de tão por dentro que anda".(...)

      Sim.Quem os escreveu não é só um poeta a mais. É alguém que tem luz nas mãos. E cumprirá seu destino, inalienável, de caminhar para dentro da palavra.E sei que está cheio de pampa, porque está repleto de universo.   

 Paiol da Aurora, Guarapari (ES), 2 de fevereiro de 1999.

Carlos Nejar é poeta e ocupa atualmente uma cadeira na Academia Brasileira de Letras.


O Amor em Pouso de Ave

                 Jaime Vaz Brasil
 

Eis que eu te queria plena,  
mas não com ares de entrega.  
(Antes, o olho invasivo  
da paixão aguda e cega).  
Eis que eu te queria inteira  
mas não assim, repentina.  

(Antes, o corpo que aos poucos  
é entregue a quem se destina).  

Eu te queria fechada  
sem janelas e postigos.  

(Mas chave pronta em segredo  
ao que não penso ou não digo).  

Eu te queria nos ventos:  
só por ver-te, me consolo.  

Tu, o meu pássaro doido. 
Eu, tua sombra no solo.  

Eis que eu te queria calma  
mas não constante e tão quieta.  

(Antes, o denso imprevisto  
de uma tela incompleta).  

Eis que eu te queria louca  
mas não assim, em conflito. 

(Antes, linha que me solta  
preso ao timbre do teu grito).  

Eu não queria um amor  
de sangue em vidro partido.  

(Mas alma em pouso de ave  
ao colo dos meus sentidos).  

Eu aprendi que o teu nome  
me liberta e me vigia.  

Por isso te quero minha.  
Para sempre. Ou por um dia.

                  in: Livro dos amores

 

Jaime Vaz Brasil é correspondente de PALAVRARTE no Rio Grande do Sul. Clique aqui para ver sua página.
 
 
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Vaz Brasil. Jaime. Livro dos Amores. Porto Alegre,WS Editor, 2000.

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