Poemas Reunidos
- Marco Lucchesi

                                                                        



         A poesia do infinito

     Capaz de vôos vertiginosos e inéditos, com a publicação de seus Poemas reunidos, Marco Lucchesi nos oferece a possibilidade de  experimentar alturas e abismos, que transformam nosso olhar e modo irreversível. Em sua obra, as fronteiras são desfeitas: culturas diversas se aproximam, inesperadas, num diapasão musical  de novas tessituras. Versos que anunciam uma nova lógica poética, que não aceita exclusões, como quem persegue desertos e estrelas, de uma poesia forte e original.
      Marco Lucchesi, poeta, lançou  timidamente Bizâncio e poesie. E numa edição, quase clandestina, dois outros livros, Alma Vênus e De passione . essas obras revelam sua inquietação, característica de seus múltiplos interesses, pois, se sua matéria poética não é estática , as formas também não o podem ser. Esta obra possui um fio orgânico que dá unidade a seus escritos, sejam poemas, ensaios, novelas – a Poesia é sempre algo maior, capaz de atribuir unidade à diversidade. A conduzi-lo, identificamos dois princípios: o feminino, que parece representar a urgência por uma lógica conciliadora e de infinitas conclusões, e o divino, anterior às palavras e presente em tudo, como indicam os reflexos iluminados que aparecem em no belíssimo De passione.
       Nos poemas e Lucchesi, percorremos cidades reais ou sonhadas, como Lucca e Bizâncio, e outras ainda não nomeadas, que apontam para a palavra incisiva e matéria rara de que são feitos cidades e poemas. As palavras inquietas elaboram  imagens surpreendentes que apontam para o infinito e atingem regiões profundas  e intocadas, como em Lucca dentro. A "metaviagem" desse poeta  sem limites permite-nos acurar e ampliar nossa leitura e descobrir infinitas redes  e aproximações improváveis a partir do seu olhar como fizeram  Frederich Hölderlin ou Jorge de Lima , vozes de sua poética, feita de alturas vertiginosas e de abismos, de uma atitude que recusa a linha reta e que termina por criar inesperadas formas. Em jogos de luz e sombras e na busca do infinito cresce a obra de Marco Lucchesi, que ensina que o impossível existe e assume a forma perene de sua Poesia.
                                                           Constança Hertz 

 Constança Hertz é crítica literária, pesquisadora e editora adjunta da revista Poesia Sempre.

  

DUALISMO  

Teu rosto é claro se meu sonho é escuro,  
só vens me visitar quando não quero,  
andas perdido quando te procuro,  
se mais confio em ti mais desespero,  
se buscas o passado sou futuro,  
Se dizes a verdade és insincero,  
se temo tua face estou seguro,
se chegas ao encontro não te espero.  
Bem sei que em nosso olhar refulge o nada,  
que somos, afinal, a negação  
mais funda, mais sombria e desolada.  
Como lograr, meu Deus, reparação,  
enquanto segues longe pela estrada,  
de nossa irreparável solidão?  

 

DE RERUM NATURA

Alheios ao destino
dos mortais
 

além das nuvens
claras e sombrias

vivem os deuses
raros nas alturas

livres de enganos
dores nostalgias

da morte vil
que aos poucos nos invade;

da chuva de átomos
em que se evade

indefinidamente
a natureza

em sua eterna
mas avara empresa

de reunir 
os átomos-enxame

seguindo a força rude
do cliname,

compostos provisórios

que se desfazem
 
noutros repertórios:

estrelas, águas
nuvens, tempestades,

cristais, abelhas,
glórias ou cidades,

e flores, pedras
corpos, consciências 

– figuram
como pálida aparência ...

e acima desse
mundo sempre em guerra

acima
da miragem dessa terra

repousam
esquecidos nos meatos

mais livres
os celestes, mais beatos

       [ in: Poemas reunidos]

   

 

 

 

        Sobre a poesia de Marco Lucchesi

  • Uma sutil integração do universo-idéia dessa alta poesia.  
                                       Carlos Drummond de Andrade  

  • Encantei- me com Bizâncio. Invejável perfeição no soneto, tão contemporâneo na sua linguagem arcaica. 
                                              Carlos Nejar  

  • São hinos penetrantes. O triunfo maior, a meu ver, é a sua atemporalidade. Mais do que uma poesia é uma poética.
                                               Armando Freitas Filho  

  • Muito me impressionou a variedade    da forma   entre  essencialidade negada   e ritmo rápido e musical,  sonho e visão. Poesia de uma rara originalidade e visão.  
                                              Giorgio Barberi- Squarotti  

  • Li os poemas com muita participação, pela riticimidade pouco habitual, por essa língua ao mesmo tempo tão fresca e tão  culta.
                                                     Giuseppe Conte  

 

 

 

 

 

  Marco Lucchesi, carioca, 36 anos, publicou, dentre outros livros, O sorriso do caos, Bizâncio (finalista do Prêmio Jabuti de poesia), Teatro alquímico ( Prêmio da Academia Mineira de Letras), Saudades do Paraíso, Poesie ( Prêmio Cilento), Viagem a Florença, A sombra do Amado, Poemas à noite ( Prêmio Paulo Ronai), Os olhos do deserto, e traduziu A ciência nova, de Vico, Presto con Fuoco, de Corroneo, O combate.
Organizou as edições da obra de Giacomo Leopardi e A Jerusalém libertada, de Torquato Tasso.

Clique aqui para ver resenha de Floriano Martins sobre Os olhos do deserto.

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  Lucchesi, Marco. poemas reunidos. Rio de Janeiro, Editora Record, 2000.

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