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Um
livro editado a três
A
idéia de fundir três poetas representa a viabilidade do pluralismo
na poesia: traços, perfis linguagens
e estilos diferentes valorizam a heterogeneidade.
O vigor da obra, a
densidade das metáforas e a peculiaridade de cada poeta, continentes
de um mesmo mundo, formaram a simbiose perfeita para o nascimento do
livro.
Maria Thereza Noronha possui
forte maturidade estilística,
necessária para Um domínio dos recursos poéticos e fica à vontade
para imprimir em sua obra diversos
tons.Característica essa de
quem desde cedo conheceu o universo das palavras.
Rafael Pitanguy de Romaní parte para uma temática predominantemente
social através de uma estética moderna, dando voz
ao que é tantas vezes silencio encerrado. Sua poesia não
contempla, anseia por transformação.
Conceição Albuquerque fala das coisas de dentro, fala da vida,
conserva em sua escrita uma simplicidade apaixonante, asas para
qualquer direção. A profundidade de sua poesia desarma
o leitor desvendando seus sentimentos adormecidos.
[extraído
da apresentação do livro / Editora BOM TEXTO]

ALAÚDE
- Maria Thereza Noronha
O
SABOR PERENE DA POESIA
A trajetória de Maria Thereza Noronha vem sendo construída
pela arte de escrever e, nesse percurso, autora anuncia o prazer do
texto através do poder expressivo e simbólico da poesia.
A face na água, Pedra de limar e
A face dissonante atestam o valor de sua obra. A autora, para
alegria dos que reconhecem a poesia
como arte que ultrapassa os limites de tempo e espaço para se
afirmar perene, nos oferece outros cantares que confirmam a riqueza
imagética e sonora de seus textos. São cânticos com cheiro de terra
molhada, sabor de véspera de festa, magia de lua nova a roçar de
arcanjos meninos, permeados com a originalidade de "cerejas
colhidas numa estampa", pois, é com belas e bem construídas metáforas
que a autora sustenta seu objeto estético.
A natureza é sua cúmplice e ela a autora
rouba cores singulares, perfumes inesquecíveis, lembranças
inebriantes para tecer com seu verso seguro, uma face renovada do
mundo.
É nesse canto sensível, poesia que faz
ressoar a música – alegre ou triste – da existência, que Maria
Thereza Noronha oferece ao público.
Maria do Carmo Sepúlveda Campos
MINEIRA
Maria Thereza Noronha
Não
laço boi com embira
nem dou rasteira no vento.
Nas montanhas minha lira
não carece documento.
Pé
no molhado ou no escuro
não ponho, e vou avisando:
não troco a pena no punho
por dois pássaros voando.
Mineira
sou. Digo uai
a quem me estranha o sotaque.
Mais aprendi no sertão
que em cultura de almanaque.
Papo
com estranhos não
estico. E não há quem m faça
colocar no fogo a mão
sem antes ver a fumaça.
Não
ponho mão em cumbuca.
Trem, só compro de cozinha.
Tomo cachaça e cautela
cuspo o caldo de galinha.
Rasteira
não dou no vento
nem laço boi com embira,
Pedra que o peito me fira
atiro em verso ao relento.
[ in: Alaúde - Poesia em três tempos]
Livros
publicados:
A
face na água.
1990 (poesia), edição da autora, Rio de Janeiro
Pedra de limar.
1993 (poesia), Ediçõesde Minas, Juizde Fora
A face dissonante.
1995 (poesia), Oficina do Livro Editora, Rio de Janeiro

O CRONÔMETRO E O VERSO
- Rafael Pitanguy de Romaní
Um
poeta de verdade
Desde tempos imemoriais jovens escrevem poemas. A maioria,
felizmente, não os publica. Envelhecendo, se envergonham, queriam
somente exibir o coração e a alma.
Alguns poucos eram de fato poetas e estes, felizmente também, acabam
publicando.
O que é o poeta? Como não sou dou um
palpite de fora. É o Lutador Sem Cessar (de Drummond) contra as
palavras: luta no pino, no lusco-fusco, de madrugada e quando chega a
manhã, derrotado e exausto, lava o rosto para lutar mais um dia. ( Ou
nas palavras de Rafael: Todos
os poetas são passageiros / da embarcação
palavra.
Os poetas como
Rafael são Domadores de Palavras, pois a poesia é a arte de usar as
palavras para abrir e fechar sensações, não é as sensações, nem
os sentimentos, nem as idéias. Rafael senta pra escrever: O branco
me desafia / a caneta me observa.
Os
que não são poetas escrevem para lembrar, para registrar sensações.
Com Rafael é diferente: por
vezes a palavra está no
fundo/’ onde a lembrança não alcança/ou não se atreve a a ir. Que lugar é
este que só a palavra alcança? O
Lugar da Palavra. Dentre os
muitos fazedores de poemas, poucos descem a este lugar
profundo.
Mas o domador de Palavras é uma
criatura humana. Sua poesia é testemunho de um tempo e um lugar
social . Pode testemunhar a parte egoísta da sociedade, centrada em
si mesma, ou a comunitária,
descentrada de si mesma. Em ambos os casos se pode fazer boa ou má
literatura. Rafael é uma pessoa humana
descentrada e
isto se lê nas entrelinhas de
muitos de seus poemas.
Sobre Rafael, tenho a dizer: é um
poeta de verdade, não um fazedor de versos, pois, trabalha no reino
profundo da palavra e, ao fazê-lo, guarda a sua humanidade.
Joel
Rufino dos Santos
Insônia
em quatro estrofes
Rafael
Pitanguy de Romaní
Na
cama
travesseiro de pedra
e o peso da humanidade nos lençóis.
Eu
às quatro da manhã
tento dar sentido a este poema.
A
cabeça
dialoga com a madrugada.
E os olhos ...inutilmente
tentam apalpar
as respostas da escuridão.
[
in: O cronômetro e o verso - Poesia em três tempos]
Rafael Pintanguy de Romaní nasceu no
Rio de Janeiro, em 1979. Cursa Comunicação Social na PUC-RJ, onde
teve duas poesias premiadas num concurso e publicadas numa antologia
entre as 15 melhores da universidade.

NAS
ASAS DA BORBOLETA - Conceição Albuquerque
Portas
abertas
A
poesia de Conceição Albuquerque não é daquelas que aprisiona de
pronto o leitor. Ela primeiro conquista a retina enquanto ganha espaços
para onde chega as nossas entranhas. Dias tristes esfrego no
tanque/ levo ao varal e deixo/que lhes acolha o vento.
São versos que esbanjam sentimentos
claros, definidos.
Do
sombrio caminho / não quero pedras / nem feras / inda menos umidade /
afiada lâmina na pele. / Luz e calor da mão estendida / quero / e pés
de dançarina / rompendo ar e melodia / da flauta doce.
Não é difícil ser conquistado por uma poeta que se soltou
das amarras e assume seus limites. Não navego em mar revolto. /
apenas lhe sei o gosto de sal / e a espuma se desfazendo na areia. / O
mais é segredo pra quem tem coragem.
Com jeito de principiante, poemas de ares de quem sabe , nos
chega Conceição, para quem abrimos a porta com prazer.
Que seja longo e gratificante seu encontro com os versos.
Os editores
ESTAÇÕES
Conceição Albuquerque
Dias
tristes esfrego no tanque
levo ao varal e deixo
que lhes acolha o vento.
Os alegres, diluo-os em água
translúcida e doce, à janela
ao dispor de beija-flores
rumo aos longes, pra voltar.
Assim
escrevo:
Inventando outono em qualquer dia:
pra me desfolhar, entrar no rio
e me chover de sol.
Germino,
germino sem parar.
Cobrem-me folhas e flores
algum orvalho, nenhum bocejo.
Primavero-me.
Até
que o inverno me surpreenda
tênue tal fio de teia
enredando-me em palavras, precisas vias
para alcançar o poema.
[
in: Nas asas da borboleta - Poesia em três tempos]
Conceição
Albuquerque
é carioca, filha de nordestinos, nascida em 1948. Em 1996, recebeu o
prêmio Cecília Meirelles, da UBE - União Brasileira de Escritores,
com o livro Perfil de sombras. Participou de várias antologias
de poesia e prosa, além de ter poemas publicados no jornal Poesia
Viva e no livro Naturaleza - imagens e versos. Adaptou para
teatro o conto A Igreja do Diabo (1997), de Machado de
Assis (encenado em 1998) e co-roteirizou o curta-metragem Ângelo,
Beto e Sanclair, que participou da Mostra de Cinema Universitário
da UFF - Universidade Federal Fluminense (1998).
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POESIA EM TRÊS
TEMPOS. Maria Thereza Noronha, Rafael Pitanguy de Romaní,
Conceição Albuquerque. Rio
de Janeiro, Bom Texto, 2001. 100p
BOM
TEXTO EDITORA E PRODUTORA DE ARTE LTDA
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