Poesia brasileira atual II

 

 

                                                                           

         

    
                                                     J.Arruda
          
- Museu Antonio Parreiras - 0,41x0,33 cm.

 

 

 

ALBERTO PUCHEU


Poema da Constatação retornante

Uma máquina de carne caminha por entre carros.
O mar da cidade não protege essa máquina.
Ela vai por entre o trânsito de outras máquinas,
sem pensar que está sozinha,
que pode ser esmagada por um leve susto
de outra máquina. Essa máquina
não pensa em nada — não precisa pensar em nada —,
mistura-se a ferros, vidros, borrachas
e parece agüentar qualquer rojão.
Às vezes, penso que a máquina entre máquinas não precisa
de proteção, desde que o motor de carne pegue pelas manhãs e
funcione ao longo de todo o dia.
Se é verdade o que às vezes penso, 
se é verdade que essa máquina não precisa de proteção, 
se é verdade que, custe o que custar, essa máquina não pode
parar, tanto faz agora ser essa 
a cidade ou outra qualquer ou aquela ainda mais longe, tanto
faz, se o mar não protege essa máquina,
se essa máquina vai por entre o trânsito de outras máquinas.
Essa máquina vai por entre o trânsito de outras máquinas 
de qualquer cidade. Essa máquina,
que já não pode parar, que parece agüentar qualquer rojão,
que às vezes penso não precisar de proteção, essa máquina
paga um preço 
sem lembrar-se que paga. Mesmo as máquinas que não
querem pagá-lo, as que fogem por novas ruas abertas na fuga, 
as que sabem que habitam essa cidade com seus mares (e não
outra), acabam pagando, mais cedo ou mais tarde, um preço
 — lembram-se, entretanto, que o pagam... Inquietamente, 
aceitam o adentrar de cada uma em seu quinhão.  

 

Alberto Pucheu é poeta e filósofo, autor de  Na Cidade Aberta, Escritos da Freqüentação, A Fronteira Desguarnecida, Ecometria do Silêncio e A Vida É Assim. Site http://albertopucheu.sites.uol.com.br/index.htm

 

 

 

  BEL BORJA


Ressaca

Mais do que me ver assim
de volta ao nada, 
que, enfim, sempre houve,
dói banir o sonho 
que morava no teu nome.

Cedo ou tarde, levanto
e recheio outra vez,
de bem ou mal,
o vazio da vontade.
Mas teu nome fica, som oco,
monumento a nenhuma coisa,
que se esboroa em espuma.

Maria Isabel Borja é  carioca, flamenguista e mangueirense, mestre em Literatura pela PUC/RJ e poetisa (assim mesmo no feminino e sem nenhuma vergonha), redatora e editora.  Publicou uma coletânea de poemas, no final de 1997. 

 

 

 

FERNANDO FÁBIO FIORESE FURTADO


Memorabilia

Eram nomes no chão afundados.
Jamais conheceram o poeta 
que, nesta manhã, ao mínimo
se ajoelha e amealha um sorriso 
de estátua no rosto do avô,
o perfume fóssil da primeira Lilith, 

une clarinette dépaysée
, a professora-Eiffel, 
um cachimbo (malgré Magritte),
o caderno de química de Augusto dos Anjos,
a estante maior que a casa,
maior que a cidade sob o flamboyant.
Não precisaram de meus olhos 
para existir, nem de minhas mãos 
para desmontar esta paisagem 
onde um calendário descarrila 
em domingos sem missa ou namoradas.

Não há acordo com os mortos:
da túnica inconsútil restaram 
apenas os alinhavos, 
da romã, um gosto amargo, 
na cristaleira, um copo lascado, 
acionando a dissolução de terrinas 
e taças, de bibelôs e baixelas. 
Não há memória para a primeira dor. 

Mesmo os tios alfaiates desconhecem
a fazenda e o fio com que tecemos
– ou nos tece – essa camisa adulta 
de esquecimento, os bolsos vazios,
a não ser por uma página 
da tabuada de menos. 
Inútil postular o périplo póstumo 
da bicicleta alemã: 
os pedais riem deste corpo 
sem rodas e sem rumo, 
pedalando para o caos.

Ah, esconder-se, lá
onde sonha a linha,
onde a cidade principia.
Os membros dispersos nascendo
da cifra e da blusa
entreaberta da professora, 
nascendo da casa e da distância, 
enclausurada na concha 
de um caracol sem idade.

O ouvido nascendo do rio,
quando não de suas enchentes,
a seduzir os meninos
com um inteiro dicionário de medos.
Do quintal a mão nascendo,
estrangeira a novembros,
posto que alheia ao verbo
que já inicia doendo.
Os pés nascendo do muro
caiado de horizonte,
como uma estante onde
intangíveis os livros operam,
como um abismo portátil
que atravessasse o rosto 
no ricto de todas as máscaras.

Os olhos ninguém adia,
nem o nono mandamento
nem o quarto interditado.
Apuram-se na gelosia e amam
o que se esconde, do cisco 
ao pássaro, da nuca ao regaço
da vizinha cujas pernas
interrompiam a cidade.

Por ausência a boca nasce
de tudo que a preencha, 
compotas, credos, hiatos.
E não há costura que defenda
dos dentes da morte
roendo os telhados,
nem do beijo véspera do escarro,
do turbilhão de fonemas acres
que enquanto avança
a voz do pai faz brilhar
– antes a química,
depois a semântica.
Também brilhava um clarinete,
criado à sombra da clave de sol,
cansado de atravessar paredes
e duas oitavas acima
virar dor, serrote, martelo.

Para aviar-se o corpo encomenda
o que a anágua promete
assombrando a cerca:
anas, amélias, cláudias,
enigma escrito na água,
uma sede de vida afogada.
E os nomes no chão afundados,
como gravetos, ossos
desta bagagem
com que atravessamos a manhã,
até que os mortos acenem,
até que interrompa o horizonte.
 

Do livro inédito A primeira dor (1994-1998)

Fernando Fábio Fiorese Furtado é poeta, contista ,Professor do Departamento de Comunicação e Artes da Faculdade de Comunicação e do Curso de especialização em Estudos Literários da Universidade Federal de Juiz de Fora(UFJF). Mestre em Comunicação pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ, atualmente elabora tese de doutorado em Ciência da Literatura/Semiologia na Faculdade de Letras sobre obra de Murilo Mendes.  Em poesia publicou Ossário do Mito, Exercícios de vertigem & outros poemas, Leia,não é cartomante.

 

 

 

JOÃO DE ABREU BORGES


Operária

                                    Toda palavra lavra

                                    Lima, limpa

                                    Lava

                                    Toda palavra é válida

                                    Lívida, vivida

                                    Vida

                                     Ali,

                                    Na veia do verbo,

                                    Livre

                                    Toda palavra é verdadeira

                                    Ave inteira

                                    Árvore primária

                                    Se a primavera é erma

                                    Toda matéria é palavra-prima

                                    Ávida, dividida

                                    Em tudo, aventureira

                                    E com violência ou tolerância,

                                    Toda palavra é grave:

                                  Ao silêncio engravida.

João de Abreu Borges. Carioca. 50 anos de idade. Militante político no final da década de 60. Militante poético na década de 70, com a geração mimeógrafo. Poesia boêmia na década de 80. Dois livros na década de 90: “Moinhos de Suor” (Prêmio João Scortecci-SP)) e “Anticânticos” (Prêmio Carlos Drummond de Andrade – M.E.C.). Atualmente co-editor da Revista URBANA, diagramador do jornal PANORAMA; e co-editor (com Romy Bastos) da revista literária virtual ANOUM.  

 

 

 

LUÍS RODOLFO DE SOUZA DANTAS


Margot

Margot Picard
Sete anos
Menina normanda
Ao passar solitária pela praia
Encontrou
Uma baleia perdida
Vira uma 
No livro de escola
Mas sempre pensou
Que fosse mentira
Coçou os olhos
Talvez a fome
Ou mesmo súbita 
Febre de gripe
O sol forte
Caminhada longa
“Ontem desperta
Sonhei ver mendigos”

Então Margot
Saia rodada
Num ato atira 
A lancheira aos abismos
“Dane-se tudo!
O mar
Amigas
Boneca
Pincéis
Meu futuro marido!
Se ela existe
Só posso eu
Ser impossível!”

Margot Picard
Olhar mareado
Nunca mais 

Foi vista

 

Luís Rodolfo de Souza Dantas  é professor universitário (Mackenzie, FAAP, UNIP) escritor e compositor. Pós-graduando em Direito do Estado pela Universidade de São Paulo. Faz parte do Grupo Cálamo, tendo com seus integrantes publicado os livros “Vila Lira Rica” (edição dos autores) e “Desnorte” (Editora Nanquin). Finalista e menção honrosa do 9º Projeto Nascente (USP-Editora Abril), com o livro de poemas “Esqueleto Cantor”; finalista e menção honrosa do 10º Projeto Nascente (USP-Editora Abril), com o livro de poemas “Especulário”. Tem colaborado em revistas como “CULT”, “QUAISQUER”, “MAGMA” e “LOCUS”.

 

 

LUIZ CARLOS AMORIM

 Vida nova

Bebo um gole de vida
e saio pelos caminhos,
faróis nos olhos,
canção nos lábios,
o futuro nas mãos
e sonhos no coração.
Planto sorrisos,
cultivo a paz
e lanço sementes
no chão de um mundo novo.
Aprendo poesia
e eternizo a essência
de um novo ser,
num tempo novo
onde a emoção me leva.
Construo uma nação
dentro do meu poema
e convido você
a morar nele...

 

Luiz Carlos Amorim é fundador do Grupo Literário A ilha  e editor de Prosa, Poesia e Cia (Ver na Banca de Poesia/ Grupos e movimentos, em PALAVRARTE).

 

 

 

MARTINHO SANTAFÉ


Manual para assassinar frangos             

Às vezes, era o Rio Paraíba do Sul
que desmesuradamente crescia.
E as ruas ficavam cheias de escorpiões,
cobras d´água, lacraias com mil pernas...
parecia um monstro epiléptico e barrento
numa corrida maluca até o mar.

A gente torcia para que o rio subisse mais,
cada vez mais,
para que alguma tragédia
se consumasse, como no cinema.

Queríamos ver casas desabando,
árvores arrancadas à força,
as meninas, descalças,
impedidas de ir à missa dominical,
bêbados patinando no caos,
arrastados até a foz de Atafona,
numa infinita poça de lama e cuspe
que mandávamos para o céu.

Estávamos prenhes de vida
e queríamos a morte de mentirinha.
Sonhávamos com o apocalipse doméstico,
com a bomba asfixiando nossos
pré-sonhos.

O primeiro amor estava ao lado,
nas aulas do Liceu que, às vezes,
assassinávamos
com delicado prazer.

No verão de 66,
o rio ficou irado de verdade,
se emputeceu, invadiu o baú

onde eu guardava meus gibis
trocados antes das matinês do Cine Coliseu.
Adeus minha coleção
tão preciosamente inútil

de David Crocket, Buffalo Bill, Zorro,

Rock Lane, Cavaleiro Negro e etc.

E me lembro dessa grande enchente,
da aniquilação dos pessegueiros,
das parreiras, dos limoeiros, dos frangos,
da horta que minha avó tão bem cuidava.
Abius, mangueiras, bananeiras,
caramboleiras, formigas,
tudo se foi com o rio,
com essa referência geográfica
e conceitual
que ainda hoje tento traduzir.
Tudo se foi com o boi morto
no meio da correnteza,
coberto de urubus.

E no radinho de pilha de s´eu Bertolino
(que, em uma canoa, ajudava as famílias
a recolherem seus pertences),

os Beatles cantavam “I want a hold your hands”.

Comecei a crescer com os Beatles
(e eles comigo),
a respeitar o rio e a temer s´eu Leleno,
meu vizinho e flamenguista doente,
que nas tardes de domingo,
quando o seu time perdia, enfiava a porrada
na Dorotéia, sua mulher - e maior torcedora
do Flamengo, por motivos amplamente justificados.

Também havia a  Josete,
que ajudou a me descriar
e que tinha um namorado chamado Jomar,
um refinado sem vergonha.
Em 62, o Brasil foi bi-campeão
e Josete imaginava
Jomar fazendo gols nela.
Se Josete gozava, o fazia discretamente,
como os anjos gozam.
No silêncio.

Josete, que hoje é avó,
era filha de Neco Felipe,
um negro caolho e feliz,
que organizava os forrós
em Conselheiro Josino,
interior de Campos dos Goytacazes.
Forrós animados com cachaça, lampiões,
sanfona e alguma voz desdentada,
uivando para a Lua, nas quentes
madrugadas.

Além de Neco Felipe,
conheci outras pessoas felizes
que moravam naquela vila
no verdadeiro cú do mundo,
entranhada na miséria e nos canaviais
(os dois sempre andaram juntos),
com um cemitério
na beira da estrada.

Minha cabeça
se embaralhou toda:
- como é que as pessoas
podiam ser felizes
em Conselheiro Josino ?

Como é que as pessoas
podiam ser felizes
naquela merda,
ao lado de um cemitério
mambembe,
perto de um rio carregando tudo?

Como é que as pessoas
podiam ser ?

Mas as pessoas
eram
e algumas até se
foram.

Martinho Santafé é jornalista e escritor . Vencedor do FestCampos  de Poesia Falada, Campos dos Goytacazes-RJ, agosto-2001.

 

 


NEI LEANDRO DE CASTRO


Oração 

              
Dai-me, Senhor, essa paz suave
que emana da mulher amada,
rio com temperatura de lã
onde aqueço a minha solidão.
Dai-me, Senhor, a coragem de proclamar
a infinita ternura do meu silêncio
quando olho para a mulher amada
no abandono do seu sono.
Dai-me, Senhor, o recato dos guardiães
para que eu silencie sobre todas as doces loucuras
da mulher amada.
Dai-me, Senhor, a mulher amada
subitamente surgida nos ícones da poesia.

 

Nei Leandro de Castro nasceu no Rio Grande do Norte e reside no Rio de Janeiro desde 1968. Nos anos 70, escreveu para o Pasquim sob o pseudônimo de Neil de Castro. Publicou os romances O dia das moscas  (Ed. Codecri, 1983), e As pelejas de Ojuara (José Olympio Editora, 1986, segunda edição,1991). Este último romance será transformado em filme pela produtora de Luiz Carlos Barreto. Publicou dez  livros de poesia, entre os quais: Zona erógena (1981), Era uma vez  Eros  (1993), Diário íntimo da palavra (2000).  


 

 



RICARDO CORONA

 

Música

: à procura dos teus buracos 

: em cada fracta contra o fragmento

: no oco no caos na casa 

: à procura de silêncio

: saindo dos teus buracos

 

Ricardo Corona é autor de Cinemaginário, poemas (SP, ed. Iluminuras, 1999) e do CD de poesia Ladrão de fogo (Curitiba, Medusa edições, Col. poesia para ouvir, 2001). Em 1998, organizou a antologia bilíngüe de poesia contemporânea Outras praias – 13 poetas brasileiros emergentes / Other Shores – 13 Emerging Brazilian Poets (SP, ed. Iluminuras) e é um dos editores da revista de poesia e arte Medusa.

 

 

 

ROSÁLIA MILSZTAJN


Folhagem      

Descanso os olhos
sobre as folhas miúdas que tremem
Piscam minhas pálpebras
O vento me envolve
Existo
inacreditavelmente
entre o abrir e fechar
Página folheada
de um livro
vivo.

 

Rosália Milsztajn, carioca, médica, psiquiatra com formação psicanalítica, e poeta, publicou No Azul Itgadal, Memória dos Ausentes e Luminosidades. Vencedora do III Festival de Poesia – Prêmio SESC de Poesia do Estado do Rio de Janeiro de 1999, coordena o evento Saber de Verso e as Segundas Poéticas no Afrodite Café, no Leblon Rio de Janeiro.

 

 

 

RUY PROENÇA


O Chevrolet            

O poema estava lá.
A velha pasta verde na estante
no fundo da pilha.
Um único poema na pasta,
estranho detalhe.
Um velho poema 
que não envelhecera.
A imagem central era clara:
um Chevrolet bege anos 50
de linhas arredondadas.
Entrei, sentei ao volante, dei a partida.
Os pneus faixa-branca rodando
as marchas passadas.
Enquanto ganhava altura
o destino entrevisto chamava-se Plutão.
No retrovisor o que ficava:
o novelo de poeira desenrolado 
a velha estrada de terra.

Ruy Proença, engenheiro e poeta, autor de A lua investirá com seus chifres (SP: Giordano, 1996) e Como um dia come o outro (SP: Nankin, 1999).

 

 

 

TANUSSI CARDOSO

A Cinelândia e seus pombos


Lagos gelados incrustados nos olhos,
O travesti é o estrangeiro de si mesmo.
Que Pátrias imensas o habitarão?
A que Deus gritará a sua geografia?
Ou será o travesti a legião de todas as Pátrias?
Um cogumelo dança na cabeça dos homens;
Sangue escorrendo em pós e fumaça.
Pombos cagam nos menininhos da Praça
: Mataremos os pombos ou os menininhos?
Não consigo terminar nenhum livro;
Não consigo começar nenhum amor.
Aprendi a perguntar com Quintana: "E por que não?"
E a me responder: sempre-talvez-sim-quem sabe...
Há um baú aberto de esperas;
Um mar imenso navegando um navio assombrado.
Sou esse mar e esse navio - assombro fantasmas.
Minhas lentes de contato perderam o contato com o real
- Só o imaginário é visível.
Sonhar é desrespeitar o silêncio.
É espantar a voz do sono.
É dormir ao avesso.
Fantasio o impossível e vivo.
Há poetas demais gritando dores;
Há dores demais sendo cantadas.
Dão milho aos pombos
: As criancinhas se vingam, comendo-os.

(In: Beco com saídas)

Tanussi Cardoso é poeta, contista,crítico literário e letrista de MPB, graduado em Jornalismo pela PUC/RJ e, em Direito pela Universidade Bennett/RJ. Autor de Desintegração, Boca Maldita, Beco com saídas e Viagem ao redor de (Ver Lançamentos em PALAVRARTE.). Apresenta o Segunda com artes, no restaurante Espírito das artes (Cobal-Humaitá/RJ)

 

 

TUTI MAIOLI NETO

se  conto segredos
daqueles que juram
cruzando os dedos
das asas dadas às brasas
do anjo num boeing
era você que voava
em tetos de berlim
e se inventassem beijos
seriam flamas & magia
que da noite um breu
acendesse feito dia
2.

se
caem estrelas &
meteoritos
chuvas de lavar almas
despencam bananas
avencas &
lembranças
de bonito
fazendo malabarista
caio por você
3.
Então a vida
é uma menina danada,
esta vida?
Se às vezes aos  boleros,
outras techno pop,
Hoje só deuses sabem
E batuca uma outra bossa
Meia tóquio
Outra metade islândia
E leoa me diz doce
A quantas ondas andas
E faz das sua  jubas
Minha coberta
A tantas me trata a chicote
Um minuto de mel
Dois segundos de fel

 

    Tuti Maioli Neto nasceu em Jacarezinho, Paraná. Está na Europa desde 88, primeiro Suíça, alemã e italiana, e em 90, Itália, sempre na Lombardia. É jornalista, poeta e fotógrafo.Traduziu algumas poesias de Paulo Leminski pra  revista italiana  "mayakovski". 

 




WANDA LINS

Tambaú 53 ou Canção dos exílios concêntricos
                                                                 
 

Mas onde fica Tambaú ?

Tambaú fica tão longe
na outra beira do mar
lá onde tem areia fina
gostosa de se andar
jangada água de coco
pitomba e mungunzá

Mas onde fica  Tambaú ?

Tambaú fica tão longe
na outra beira do mar
lá onde tem lampião
pra espantar o escuro
linda luz de lampião
gostosa de se cheirar

Mas onde fica Tambaú ?

Tambaú fica tão longe
na outra beira do mar
lá onde tem sotaque
feito para se cantar
aquele sotaque gostoso
que me ensinou a falar.

Mas onde fica Tambaú?

Tambaú fica tão longe
na outra beira do mar
na outra beira da vida
na dor do meu lembrar.

Wanda Furtado Lins nasceu no Rio de Janeiro, em 1949. Aos 12 anos foi viver na França, onde se formou pela École Supérieure d'Interprètes et Traducteurs. Em 1974, seus primeiros poemas lhe valeram o primeiro lugar (empatada) em um concurso de poesia organizado´pela Université de Genève tendo Starobinsky como presidente do júri. Em 1986, publicação do livro Les Monstrillons (ed. Albert Meynier, Torino-Genebra). Em novembro de 99 volta para o Brasil, em janeiro 2000 começa a escrever em Português,  tem um poema -Se  -publicado no jornal literário Panorama da Palavra e apresenta-se em eventos de poesia falada no Rio de Janeiro. Recentemente começou  a levar poesia a sério.