Poemas traduzidos por Carlos Lima

Onde estão?- Miguel Barret
Às vezes me pergunto - Roberto Branly
Fragmento de árvore e bosque - David Fernández
O que sei - Pablo Armando Hernández
Estatísticas - Rafael Hernandez
Pode acontecer - Fayad Jamis
Mulher saindo do armário - Luis Rogerio Nogueras

 

 

       
     

ONDE ESTÃO

                                 Miguel Barret

 O tempo  passa rápido
e alguém inutilmente busca
e pergunta
no meio da alegria
o ar sem respirar. 

Onde estão? 

Que janela abriu-se para deixá-los ir?
A que amanhecida primavera chegaram?
Que janela abriu-se para deixa-los ir?
A que amanhecida primavera chegaram?
Que janela abriu-se para deixá-los ir?
 

Se não sabiam ler, nem escrever,
Nem morrer compartilhando a infeliz vida
Nem apegar-se às coisas porque
Eram ágeis como alguns passos
Fugazes de gaivota. 

Onde estão? 

Que janela abriu-se para deixá-los ir?
A que amanhecida primavera chegaram?
Que janela abriu-se para deixá-los ir?
 

Se não sabiam ler, nem escrever,
nem morrer compartilhando a infeliz vida
nem apegar-se às coisas porque
eram ágeis como alguns passos
fugazes de gaivota. 

Onde estão? 

Sobre que cavalo crescido no ar se encontram?
Sob que manto cobrem-se do frio, das chuvas?
Em que palmeira ascenderam?
Brincando com que pântano de águas amarelas?
Jogando com que montes azulados?
Com que bolas de lodo colorido? 

                 O tempo cumpriu silencioso seu ofício
                 Ninguém voltará a perguntar-me...

 

 

 

 ÀS VEZES ME PERGUNTO 

                                                   Roberto Branly

 

Às vezes me pergunto que espécie terna de animal
que aflição de pele envenenada alimenta
o pêndulo do dia, as horas calmas
habitualmente detidas;
que urgência como estrela se congela,
vai suavizando-se até que o sopro, levemente,
dilui-se em cinzas.
Penso em outras noites, que não são tristes lembrar,
em que tudo eras um tremor, um cântico de sangue,
um volteio apenas dos lençóis,
a crepitação, o calor, a densidade obscura e calma
de outro corpo;
penso sem nostalgia
e sinto que este cálido animal que sou nas raízes,
já sonhava novas formas precipitadas na febre;
simplesmente, eu, este breve esplendor da matéria
caía em sonhos, detinha-me, negava-me a fúria
e a lançar toda a aventura, extraordinária,
num labirinto de águas negras, de assombro,
de esquecimento, de penumbra talvez.
Mas – assim é – a triste fera,
sempre, do fundo,
ruge em meio ao deserto.

 

 

 

FRAGMENTO DE  ÁRVORE E LOGO BOSQUE 

                                                               David Fernández

 

Todos os dias uma nova
pergunta
com que alteras a ordem
e convertes
toda sabedoria em esqueleto.
 

Não há resposta
ainda
para tua sede. 

Tu a construirás sobre este músculo
em que aprendemos hoje
a responder perguntas
que passaram. 

Responderás aos que venham
depois de ti
o que hoje perguntamos
perguntarás de novo
e começará a história
em tua pergunta.

 

 

 

 

O QUE SEI

                        Pablo Armando Fernández 

 

Eu que falei em mil línguas
conheço a piedade que mora nas palavras:
garoa, asilo, hospital, penumbra.
Conheço a aflição
que estas palavras põem na lama.
O fervor de conhecer o triste.
Eu que o sei,
que fui pobre, estrangeiro, sombrio.
Sei também que há que humilhar-se
mais além da súplica,
até ao sangue até deixa-lo limpo,
até sentir sua transparência
coagulada na face,
até poder olhar o rosto da inocência. 

 

 

 

 ESTATÍSTICAS 

                                     Rafael Hernandez

 

1 + 2 + 3 + 4 = 10
Os camelos são animais do deserto.
A  Terra gira de oeste para leste e não ao contrário.
Nelson era inglês e almirante, mas caolho. 

( 4 x 2 +  1 ) %  3 = 3
Na guerra da Argélia houve 1000000  de mortos.
O eixo do planeta se inclina cada vez mais.
O Trafalgar Square sua estátua: Olho aberto. 

“Se tivéssemos contado com máquinas modernas
o país não teria sangrado tanto”,
diz esse companheiro, a quem falta uma perna. 

Para onde vsi o sonho? Como? Quanto?
Por que praças, deserto mar, se mete?
Em cada número anda vivo o espanto.

 

 

 

 

 PODE ACONTECER 

                                        Fayad Jamis 
 

Pode acontecer que à noite toque o telefone
e que do outro lado da cidade uma voz muito grave
te pergunte se Dora está em casa.
Mas Dora não está em casa,e
e tampouco Paulinho, solicitado por vozes cheias de ternura,
e ainda menos o doutor cujo consultório deve estar formigando
de pacientes tão diversos. 

Pode acontecer que amanhã, ao abrir o jornal,
saibas que um homem (alguém
 que
talvez viste alguma vez de longe ) morreu;
ou também o jornal pode sacudir – te
com notícias de cidades derrubadas, de feriados nacionais,
e, enfim, de pequenos sucessos previamente condenados ao
esquecimento. 

Pode acontecer que a  noite te pareça demasiado longa,
que fiques observando como se deslocam as estrelas,
mas de nenhum modo ficará excluída
a possibilidade de seguir alimentando o amor
enquanto realizas ou sonhas que realizas algo novo.
Tudo isto e muito mais pode acontecer sem dúvida,
só que não dedicas alguns minutos para sentir o que te cerca,
nem deixas que o mundo participe plenamente de teu mundo,
nem conheces o maravilhoso poder de escrever um poema. 

 

 

 

 

 MULHER SAINDO DO ARMÁRIO 

                                Luis Rogelio Nogueras

 

Estou em meu quarto, olhando há horas o armário
Quando sair esta mulher, o que responderei?
Comerei as unhas? Lhe falarei de Blake?
Ela me dirá que não quer saber nada do inferno.
Estou há horas no quarto assobiando,
observando o armário, amassando o chapéu
entre as mãos.  Quando sair esta mulher,
levantarei a cortina, apontarei para a varanda,
direi que longe está ardendo um sol
que não quer morrer,
mas ela dirá que não quer assunto com os astros.
Tenho desta vez o coração pálido, as mãos frias,
o olhar fixo no armário.
Quando esta mulher sair,
me disfarçarei de maçã, mãos ternas,
de sobretudo em cabide,
mas ela dirá que não quer saber de meus livros.
Esta noite esta mulher sairá do armário,
para pedir novamente o coração, para cobrar seus honorários,
para questionar-me.