Juberi - Brasil 500 anos - Ivan Cavalcanti Proença (org.)                                      

 


* juberi- rio sossegado em seu leito, mas bem desperto

 

Atrás das borboletas azuis - Amélia Alves
Poema da anunciação - Eliane Pantoja Vaidya
O descobrimento  - Juju Campbell
Zé Brasil - Luís Cláudio Vianna Faria
Ijasò laryyna - Maria Célis Rodrigues
Cunhã Catupyry - Maria Thereza Noronha

 

                                                     

 

 

CO     CONSCIÊNCIA TÉCNICA E  CRÍTICA                                
                                  Ivan Cavalcanti Proença
  

     Em 28 anos de existência, nossa Oficina prossegue sua trajetória específica, buscando, junto aos escritores, um obsessivo aperfeiçoamento técnico, sem abdicar da necessidade de indispensável consciência crítica diante de tudo que ocorre em nosso meio intelectual enquanto extensão do meio (como um todo) brasileiro:  recurso possível para, a nosso modo, prolongar aquele "conteúdo é forma que vem à tona" – pleno exercício, assim, de Ideologia, aplicada à Oficina e à vida, ao estar no mundo. Exemplo: as incursões, não raras, no universo de nossa Cultura Popular.
    Com a exaustão do Modernismo (após seus 70 anos de vigência literária) já se observam mais nitidamente, nesta virada de século, as tendências diversas em prosa e verso: conquanto – e perfeitamente cabível – vários escritores mantenham seu vínculo com as propostas daquele tão longo, e importante, estilo de época.
Autores vários – de acadêmicos a estreantes e ou desconhecidos – já passaram por nossa Oficina. A maioria segue mantendo conduta digna e ética, já que nada (nada mesmo) é mais importante do que o nosso estar, confiável, no mundo.
     Carreirismo de escritor é ainda mais triste que o da disputa antropofágica e ou esperta "aqui de fora".  Só que curiosamente ocorre espécie de castigo ( ! ): o escritor que se oferece ou se entrega à feia "roda-viva" reinante, acaba por tentar escrever para, isto é, pensando no leitor supostamente preparado e intelectualizado, assíduo em "oficinas de expediente", leitor de Grande Imprensa, leitor freqüentador de bar-saloon-palco-café-show-leitura de poesias-sorvete, quitutes e petiscos-dietéticos-vez por outra livro (os locais que oferecem tudo isso no mesmo pacote, são livrarias também!).  Nesse momento, o escritor que adere ao jogo / tráfico de influências inicia seu declínio qualitativo;  seu nome freqüenta, por exemplo, Idéias ou Prosas e Versos do meio, mas sua obra e seu modo de ser, ladeira-abaixo, ainda que (ou  até por isso) seu livro possa ganhar projeção.
     Enfim, autor e obra desempenham, sim, uma função social.

Nota dos editores:
Além dos poemas aqui publicados, a antologia Juberi - Brasil 500 anos, organizada pelo professor Ivan Cavalcanti Proença ( Rio de Janeiro, Oficina do Livro editora, 2000)  compõe-se de contos e crônicas dos seguintes escritores: Adir ben Kauss (Brasil 500 anos luz); Alberto Carraz (Herança); Ana Lia Viana (Brasil Brasileiro); Doris Cunha Cazes Valentim ( Peripécias de Alquimia/ No vôo das Gaivotas) ; Elza Milioni ( Rap de uma História); Evangelina Barbosa de Moraes ( Espelho D'alma); Geny Vilas-Novas (Terra de Santa Cruz); Ísis Maria Balter Proença (História se repete?); Ivo Korytowski (O Velho Brasil); Mariana de Oliveira (Lontras de Gurupá  ou Um Brasil); Mariza de Almeida Rebouças (O Descobrimento do Brasil);  Mirian T. F. de Carvalho ( Nhéén Itaipu Zererê); Roseana Brito (Ano 2000. Uma Brasileira Anônima ou Dona Carminha Aprende a Sorrir); Sônia Eva Tuckerman (Epístola).



                                              

 


Atrás das borboletas azuis                       
           
                                    
                     
                                         Amélia Alves 

A Maria do Carmo de Almeida Alves     

                     I 

Na escola, o espaço vazio
é como falha em boca de primeira dentição,
lugar nenhum que pretende ser algum lugar
- por aqui passaram índios, negros e brancos,
hora nenhuma que pretende se fazer atual,
caminho nenhum que pretende ser trilha,
avenida aberta pra passagem do sonho
de pessoa alguma que pretende ser gente
-ser nenhum que busca  ser-se,
como o ovo de colombo  
pondo-se de pé sobre si mesmo.
 

                  II 

Na escola, a carteira vazia
é o lugar de plantar utopia,
da multidão de anônimos, 
de onde Maria das Dores 
entrou pelo mapa  saiu pela culatra
deu tiro na sorte e virou professora:
Dona Dasdor, Dasdorinha, Dasdora
de pele negra e mão finas de pegar o giz
e amaciar as dores de seu país. 

                 III 

Do giz de Dasdora saíam sílabas
que geravam palavras no negro da lousa
que escreviam o Brasil que tanto queria ver,
de borboleta azulada que no verde da mata pousa
no colorido das coisas que  pensava construir,
no  pedaço de chão que queria  partir
 
em muitas estrelas
- constelação de alunos de raças e classes diferentes     
                                                                         
que tudo era cruzeiro do sul e rosa dos ventos:
o norte pra lá, o nordeste pra cá
o centro-oeste no meio, o sul mais embaixo
- buraco fundo da existência azul de anil
(Quem sabe daqui um presidente do Brasil?).

                  IV 

Mas, o Brasil imenso não cabia na mão,
nem era como o mundo redondo
girando infrene  na imensidão
de verde, amarelo azul e branco.
Era tudo só estrela pra contar.
 

                     V 

Dasdor nunca perdoou Ouro Preto
pela  delação de Tiradentes
pelo esforço negro carregando
o ouro das igrejas
as pesadas pedras do calçamento 
pelo rastro de sangue de Felipe dos Santos
esquartejado e partido em pedaços,
pelos lastros de heróis perdidos
nas matas nos buracos das minas
na poeira do ferro e do carvão
nos passos da crucificação.
 

              VI 

Ensinava  tudo com apuro:
a chegada no porto seguro
a primeira missa, as entradas pelo oeste
-os índios goitacazes morreram  de peste !
Onde estarão tupis e tapuias?
Tudo coisa da imaginação.
Mas no livro tinha isso não.
Dasdor sabia de ouvir contar,
contava de ouvir falar.
 

               VII 

E quando pensava o Brasil
tinha sempre soldado de espada na cinta e ginete na mão.

 

 

 

                                            Amélia Alves é professora e escritora,
 com livro de Poesia publicado, trabalhos premiados e constando de Antologias. 
    
                                           
Obra reconhecida nos meios literários. 

 

 

 

 

Poema da Anunciação

                      Eliane Pantoja Vaidya

No alvorecer de um dia
Quando frágeis caravelas
Cortavam suaves o mar
Eis que surgem trazidas - de onde?
Gaivotas entre velas e mastros, a grasnar.
Na mão de Deus estávamos
Que esta mão é concha
Suporta o vasto mundo
E o vasto mar suporta.

Quarenta e dois dias
A armada poderosa
Dez naus três caravelas
O mar, o tenebroso mar singrava.
Íamos afoitos descuidosos de pesares
Depois de S. Nicolau em Cabo Verde

 
Num tempo calmo, mar tranqüilo
Não mais se viu D. Vasco de Ataíde e sua nau.
Ah, morreram estes que sonhavam
Como nós terras auriverdes alcançar!
E não nasceu ainda quem cantará
Dos bravos portugueses navegantes
A fama, os fados  e a história!
 

Hão de chorar por eles as sereias
E as vagas deste mar imenso
Rolando em praias por nós desconhecidas
Hão de chorar por eles, os companheiros
Que tanto são heróis os que buscavam
Da fera morte marcados desde a vida
Como os que retornaram, navegantes gloriosos,
Que a gente louva e o povo admira.
 

Nós os vivos, seguimos ansiosos
E aos vinte e um dias de abril
Vimos compridas ervas
No mar, no mar se balançar.
Na manhã seguinte, as gaivotas
Um monte alto e redondo
Houvémos vista
E aterra em torno terra chã 
Com o veludo verde do arvoredo 

A nossa vida corria para a história
Enquanto levantávamos bem alto nossas espadas
Para saudar a terra anunciada.
   

 




Eliane Pantoja Vaidya é  escritora e pesquisadora,possui inúmeros cursos na área de Humanas e freqüenta Oficinas e o meio literário em geral.

 

 




O Descobrimento
 Segundo a leitura da Carta de Pero Vaz de Caminha  

                                     Juju Campbell

O Começo

I

A nove de março tendo-nos posto ao mar
Aos vinte e um de Abril ao acaso, quarta-feira
As aves furabucho apontavam as estrelas
Anunciando visão de terra aos portugueses

II

Viram um grande monte muito alto e redondo  
E serras mais baixas, terra chã e arvoredos,
E descendo á terra no batel, Nicolau Coelho
Viu-se cercado por homens pardos que apontavam nas areias

III

Sem nada com que lhes encobrissem as vergonhas 
Tinham armas e setas que portavam em mancebos
Enquanto o ruído do mar a quebrar- se na costa
Impedia-lhes que a fala chegasse ao entendimento 

 O Porto

I

Tendo as naves que velejavam pela costa
Abrigado-se junto a um recife com um porto dentro
Afonso Lopez pilotando naus pequenas
Numa almadia encontrou mais homens “ peles vermelha”

II

E também eles andavam nus
Sem, de cobrirem as vergonhas, caso fazerem,

Acerca disto, eram de grande inocência,
Pardos, avermelhados, bons de rosto e de nariz e, bem feitos

III

O Capitão com os pés sobre alcatifa
mui bem vestido sentava numa cadeira
trazia em torno do pescoço colar de ouro
E quando entraram os homens, as tochas se acenderam

 

Surpresa e cortesia

I

E todos os pilotos presentes, ali sentados
Viram-nos entrar sem cortesia alguma, sem um cumprimento,
Até que um deles vendo do Capitão
O colar de ouro, desandou em gestos
a apontar para a terra com acenos

II

Gesticulava assim em direção terrena,
E volvia a fitar o colar, com acenos dizendo
Que havia ouro na terra, o mesmo acontecendo
Ao fitar o castiçal de prata ali presente

Mostraram-lhes também um papagaio pardo
que o Capitão trazia na mão

(eles o tomaram contentes,
apontando para a terra com acenos)
mas não lhe fizeram caso à mostra de um carneiro
e ao ser-lhes oferecida uma galinha 
não queria nela tocar, com medo. 

Comidas – Rosário – Comércio

I

Deram-lhes então de comer figos passados
Pão, mel, fartéis, peixe cozido, confeitos,
Trouxeram-lhes também vinho em taças
Mas mal lhe puseram à boca, não gostaram dele.

II

Viu um deles brancas contas de um rosário
Fez sinal que lhes dessem e folgou muito com elas,
Lançou-as ao pescoço, meteu-as em volta dos braços

III

Tornou a fitar o colar do Capitão como se desse
ouro por ambos, por eles.
E acenava para a terra e para as contas,
e de novo para o colar do Capitão, em gestos novamente

Desejo de ouro

I 

Isso tomávamos  nós nesse sentido por assim o desejarmos
Porém nada havíamos de dar-lhe, caso ouro não houvesse
E ele entregou-nos de volta as contas que lhe déramos
E estiraram-se eles então de costas na alcatifa,
Tendo cada um coxim por sob a cabeça

II

E deitara manto em cima deles
E eles aconchegaram-se e adormeceram
E ao despertarem davam-lhes arcos e setas, aos portugueses
em troca de barretes vermelhos, carapuças e sombreiros

III

Entregaram agora suas armas por qualquer coisa,
Que quiséssemos dar-lhes. Ali andavam entre eles
Três ou quatro moças, os cabelos pretos, compridos,
As altas vergonhas tão limpas e cerradilhas que para nós
Olhá-las era um enlevo.


Atração da cruz

I

Depois da Primeira Missa Frei Henrique senta-se aos pés da Cruz e,ao Crucifixo que ao pescoço traz, induz aquelas gentes a beijar, e também as mãos levantarem.

II ( inocência)

Não nos pareceram idólatras
Não querendo fazer senão
Aquilo que nos viam fazer sem outra adoração

III

E se alguém vier, que seja um clérigo e batizá-los
Pois, da fé, já terão tido
O ensino dos degredados.
 

Terra enorme

I

A terra assim de praias e arvoredos é mui formosa e infinitas águas tornam-na tão graciosa. E este relato enfim darei por findo no qual sem querer, muito (demais até), estendi-me.

II (pedido)

Esperando da melhor forma Ter-vos servido de Jorge Osório, meu
genro,
           
Peço-vos a vinda da ilha de São Tomé.
           
E em muita mercê por mim será recebido.

III

Beijando-vos as mãos, a Vossa Alteza, aqui assino deste Porto Seguro da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, Sexta-feira, dia 1° de maio de 1500.

                               Pero Vaz de Caminha

 




 

Juju Campbell é escritora, bastante conhecida e admirada, por sua poesia, nos meios literários. Inúmeros livros já publicados.  


 





 

Zé Brasil 

       Luiz Cláudio Vianna de Faria

 

Quinhentos anos de naufrágios e bóias 
Percorri montanhas bem mais que planícies
Da vida inteira trago um gosto de Tróia
Cavalgando-me dentro e em todas as superfícies 

Que sou velho cansado antigo e soturno.
Tenho vícios de quem foi mais teimoso que feliz
De quem amou claridades mas se escondeu noturno
Podando nos ermos do tempo as fimbrias úmidas da cicatriz 

Das horas inacabáveis dos meus pensamentos infindos
Vejo-me menino a tecer feroz as teias que me enredaram
Eu que sonhei poemas de amor e liberdade viver
Vivi-os? Talvez... 

Posto que minha prisão não tem grades de ferro 
Não são os gritos da dor das torturas que ouço
Apenas o sibilar quase inaudível dos meus versos
Gemendo reumáticos uma sinfonia em meu calabouço 

Minha vida foi tal sinfonia
Acordes em desalinho desarmonia amor desafinado
Um passo certo outro sem rumo, descompassado
Dissonante como deve ser toda forma de vida 

Como legado da minha passagem pela Terra
Não deixo esperanças agradecimentos tristezas
Tampouco amarguras desditas rancores
Sequer a lembrança pueril de antigos amores 

Como epitáfio um verso pobre por natureza
Sem nome idade ou pretensão
Se por ventura alguém um dia vier a lê-lo
Terá valido a pena viver para escrevê-lo.  

 

 

 

 



 

Luiz Cláudio Vianna de Faria  é psicólogo, com obras publicadas e reconhecidas por críticos de renome. Faz questão:" brasileiro até o fim”.  




 

 

 

Ijasò  Laryyna

                        Maria Célis Rodrigues

               À preservação da Cultura indígena com seus Mitos e
                                                                         Tradições Culturais
                                                Aos Karajá, índios do Brasil Central.

Na imensidão dos cerrados,
as palmas dos buritizeiros pelos índios cortadas
e transformadas nas vestimentas sagradas dos Aruanã
que , das profundezas do Araguaia, aos pares emergirão,
trazendo bênçãos e proteção dos antepassados
- os Ijasò - eternamente deslumbrados com a beleza do sol. 

Numa palhoça, no alto da aldeia,
Recebidos pelo Xamã que o ritual simbólico
Já terá organizado. Na parede voltada para o levante:
As máscaras, artisticamente personificadas,
Saiotes de palhas, cilindros adornadas
Por coloridos desenhos simétricos e penachos.
Junto a eles, os maracás arrumados:
Dois a dois, lado a lado, ostentando
As insígnias pessoais dos Aruanã
Aos quais foram dedicados. 

O dia entardece e, numa cortina de luzes, 
o sol, em todo horizonte, resplandece!
Cantando e dançando ao som dos maracás, 
Ritmo binário, cadência bem marcada
E movimentos de cabeça harmoniosamente
combinados, correm em direção
ao pátio masculino, onde, concentrados,
tocam os maracás com intensidade.
Percorrem, por três vezes, em círculos,
O caminho que os leva à casa do “seu dono”
E, depois, ao centro no pátio feminino
Onde os aguardam, dançando de frente, 
timidamente, belas índias ornadas e caladas. 

Ocorre, então,  simbolicamente,
A união entre o profano e o sagrado,
O que vem revigorar a tribo inteira,
Enquanto o mito de origem,
Que tem o cosmo como principal personagem
Do qual se originam os Karajá,
É intensamente celebrado! 

Pela cadência das vozes
E essência dos temas apresentados,
Um tori saberá distinguir quando canta
Weru, Txaóhi ou Ijareheni,
Que não falam do Primeiro  Mundo,
Mas procuram expressar preocupações
E frustrações cotidianas do povo visitado. 

Bem assistidos, os Aruanã recebem agrados.
Todo tempo alimentados com: café, biju,
Rapadura, peixe, arroz, feijão e frutas,
Carinhosamente preparados. 

Ao final do ritual o calugi é servido
A toda comunidade que, no silêncio
Da refeição compartilhada,
Renova a comunhão tribal e estreita os laços
De respeito e gratidão ao povo ancestral. 

À noite, a dança do Aruanã é reapresentada
E, ao ouvirmos os sons sobrepostos das canções,
Em tríades repetidas, temos a sensação de que
Ao nosso mundo estão a transportar
A ressonância do espaço mítico Karajá. 

Em dias intercalados, o ritual
Seguidamente celebrado.
No último, ao alvorecer,  os Aruanã,
Parando de cantar,
Dirigem-se ao pátio feminino,
indo com os pais adotivos confraternizar-se
e as filas dos pequeninos, abençoar:
puxam-lhes os bracinhos
e pisam-lhes os pezinhos para,
ao crescerem terem saúde sorte ao lutar.
Voltam depois às suas casas,
Novamente cantando.  
Vemos que partiram
quando discreta fumaça denuncia
as indumentárias sagradas,
pelos homens queimadas. 

Assim também são os Aoni reverenciados
e, no Terceiro Mundo  – o céu –
aguardam pelos Karajá
que, no Mundo do Meio, palmilham inocentes,
os mesmos caminhos por antepassados
já percorridos, onde o progresso
aproxima-se a passos largos,
aculturando : hábitos costumes, crenças
e valores, gradativamente transmutando... 

Das doze aldeias Karajá que existem no coração
do Brasil, com seus índios  dançando e cantando
ornamentados com as verdes, amarelas
e amarronzadas penas dos silvestres pássaros,
apenas nove continuam a falar o idioma tribal
e a celebrar os ritos de passagem,
de forma tradicional. 

Num ritmo variado: ora alegre, de pé no chão
ora claro e simples ou denso e pesado
expressam seus íntimos anseios ante a indiferença
da maioria dos tori que ainda não os vê como
legítimos cidadãos brasileiros
com seus direitos sagrados
a serem respeitados e, na Constituição
devidamente lavrados e preservados.  


 


 

Maria Célis Rodrigues é autora  de inúmeros trabalhos publicados.
Prêmios nacionais e internacionais de Poesia. Professora, jornalista.
Este poema foi traduzido para o inglês, em pôster para exposição
em Congresso e em Instituto Cultural da Alemanha.
E se inspirou (inclusive integrando-a) na tese Imagem do Princípio,
de Suely Brígido

 

 

 

      

 

 Cunhã Catupyry
                          Maria Thereza Noronha

Cunhã Catupyry saiu da taba.
lustrosa  corno a folha do pati
na perna uma plumagem de emboaba, 
saiu na direção do piraí.
Cunhã Catupyry ia sapeca 
Passou por caxambi, pelo catete,
Rastro de goitacazes nem não viu.
Se susto leva é de cocotá
Que volta e meia remexe o silêncio.
Fora isso Cunhã Catupyry
Ia ereta tal tronco de pati.
Nas folhas ofegantes de uma ubá
Pensou fosse talvez o Curupira
Com algum conselho, bom ou mau – não sei.
Era só a pequena corruíra. 

Cunhã Catupyry ia poranga 
ereta como tronco do pati.
Em águas claras queria banhar-se
Com os peixes de prata do piraí.
Na beira d água viu moço garrido
Sorrindo para Cunhã Catupyry.
Cunha Catupyry olhou o rio
Lá não viu refletida sua imagem.
Foi-se achegando e se achegou à margem
E nos olhos de vidro mergulhou. 

Da taba quem buscou Catupyry,
Junto ao rio uma folha de pati
Encontrou, nas águas do piraí
Entre escamas de prata vulto escuro
Riscou veloz.
                  O Boto Tucuxi? 

Sei não. Diz que Cunhã Catupyry
Feliz vive em lugar longe dali.  
 

Glossário:   

Cunhã Catupyry -  mulher ótima
Taba – aldeia
Pati – palmeira
Emboaba – pássaro de penas nas pernas
Piraí – rio dos peixes
Sapeca - irrequieta
Caxambi, Catete – mata fechada
Goitacazes – os que andam no mato 
Cocotá – raça dos macacos
Ubá - árvore
Curupira- gênio ( bom ou mau) da floresta
Poranga – bonita, bela
Boto – em Tupi é Aicá. Se escuro, Tucuxi


 

 


 

Maria Thereza Noronha é autora de inúmeros livros.
 Mineira, de Juiz de fora. Considerada uma das melhores poetas do Brasil hoje, lançou recentemente pela Oficina do Livro, A face dissonante.