I. O Cabo das Tormentas

 

era Luís Vaz ao sul do fim do mundo
sulcando o mar em sua nave ave
avoando à flor das águas do oceano
e sobre o mar a máquina do céu
como era dia ainda indecifrada
à luz das não-estrelas: exceto o sol
e seu pendor para o esplendor.
era Luís Vaz em sua nave ave
sem armas nem barões assinalados
no Oceano ao sul do fim do mundo
e caravelas à luz das não-estrelas
avoando à flor da máquina do céu
(se fosse noite talvez consultasse
os astros, não por discernir o rumo,
mas para ouvir no canto das esferas
o eco das outras praias européias
e assim se imaginasse
entre piratas conspiratas de estrelas
astronautas das antilhas do céu
ou escutasse no canto das esferas
outras ficções outros madagascares
palavras navegadas nunca dantes
o vento de outras praias epopéias
soprando a caravelas e suas asas
e assim talvez ao sul do fim do mundo
o canto das esferas revogasse
por sorte ou sortilégio das palavras
a máquina do mundo)

mas era dia ao sul do fim do mundo
era Luís Vaz em sua nave ave
avoando à flor das águas do Oceano
e sobre o mar a máquina do céu
indecifrada à luz das não-estrelas
exceto o sol e seu pendor para o esplendor.

 

 


 

     2. Sturm und Drang

 

e de repente ( como já constatassem
do mapa-mundi a propensão do vento
e o nome naufragado a ferro e fogo.
                CABO DAS TORMENTAS,
o rendez-vous dos ventos desvairados,
e afora isso os deuses conspirando
Netuno e sua caorte: as nereidas
ninfas sereias etc.
(cf. Os Lusíadas, Cap. VI)
a cúpula do céu despencou

 

 

 

    3. O Caos e Cosmo

 

é claro, não há cúpula no céu
a não ser para os corações nostálgicos
das elucubrações ptolomaicas
(a Terra no centro do Universo
e ao seu redor a dança das esferas
às quais se afixam as ficções
e outras estrelas)
a cúpula no caso é só um símile
capaz de tornar menos tenebrosas
a engenharia do caos
no qual giramos por esporte & êxtase
ou outra inspiração não decifrada;
e mais, no caso a cúpula é a figura
extraída do reino do visível
para iluminar as trevas da sintaxe
cosmológica e assim elucidar
graficamente a fúria do fenômeno:
em meio à tormenta a caravela
se desprendeu das rotas do Oriente
e por capricho da máquina do mundo
escorregou na cúpula do céu
no rumo das terras do pau-brasil

 

 

    4. Admirável Mundo Novo

 

e eis Luís Vaz de Camões destarte
por esse estranho estratagema astral
desembarcando sem gibão nem bacamarte
na mui leal cidade de São Sebastião
do Rio de Janeiro
         
WELCOME: TERRA PAPAGALORUM
         
(discovered by Gold sake
          or by chance around 1500)
ao seu redor em vez dos seres emplumados
com chapéu de penas d'aves
ou cunhãs com as vergonhas saradinhas
as tais pin-ups da Carta de Caminha
só a selva selvagem de strip-teasers
& office-tupinamboys
e palácios-espelhos arranha-nuvens
monumentais taj-mahais os paços
principescos dos países de lenda:
de lenda Cartago Pago-Pago os pagodes
do Grão-turco e do Soldão de Babylonia

 

como  ninguém faça menção de cortesia
então Luís Vaz se despe do penacho
e lança-se aos pés do office-boy Body Preto
aliás Mazinho Frango de Macumba
o m.c.  do baile Funk do Borel :


    CAMÕES:

Ó indígena, será que, a despeito de tuas
feições foscas, falas o idioma da brava
gente lusitana?

    BODY:

Sarta fora, brother! Indígena e indioma é o 
escambau!

    CAMÕES:

Perdoa-me, indígena, mas eu te suplico que
me digas; acaso o senhor desses palácios res-   
plandescentes não será o Samorim de Calicut?

    BODY:

Não sei de seu Amorim nem de mané Amo-
rim, brother.


    CAMÕES:

Ó silvícola, segundo as medições do astro-
lábio, por um estranho estratagema astral,
encontro-me a Este de Tordesilhas, nos
domínios de el-rei de Portugal. Acaso será
esta a terra dos brasis?

    BODY:

não tem brasis, brother. Só tem um Brasil
só. Os outros, se tinha, neguinho já roubou.

.... Por mares nunca dantes (fragmentos) - Geraldo Carneiro 

1. O cabo das Tormentas 
2. Sturm und Drang
 
3. O Caos e o Cosmo
4. Admirável Mundo Novo