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Haroldo de Campos em Nova York nos anos oitenta - Foto: Regina Vater |
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Haroldo de Campos |
| por Regina Vater |
"A USURA
EMBOTA A AGULHA NOS DEDOS DA DONZELA/TOLHE A PERÍCIA DA FIANDEIRA." (de "Cantares" de Ezra Pound, via Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari) |
Quando penso nos de Campos, a primeira coisa que me ocorre é: Generosidade. Imensa generosidade intelectual. Só pela quantidade (de alta qualidade) das traduções de textos seminais da literatura universal com que nos presentearam no exílio da nossa língua, daria para elevar-lhes um monumento de profunda gratidão, num país tão carente de comunicação em relação à qualidade de informação. Eles fizeram o possível para promover em nossa cultura, uma constante transfusão do melhor do sangue circulante nas veias da cultura mundial. Isto sem falar na imagem de respeito e admiração com que projetaram o Brasil no âmbito da literatura universal. Me lembro muito bem de um fato que me aconteceu no início dos oitenta em Nova York, na época do Reagan, numa grande passeata de protesto ao uso das armas nucleares. Eu integrava um grupo de pessoas tentando fazer um vídeo sobre o evento. Estávamos munidos de muita energia e de uma câmera antiga, furreca, preto e branco, do Downtown Cable Television. Sem contar que a maioria do nosso grupo era integrado de latinos - o que nos emprestava, principalmente naquela época, um tremendo selo de incompetência. A um determinado momento, avistei o grande poeta americano Allen Ginsberg e seu amigo Peter Urloff (creio que este era o seu nome). Na minha impulsividade/espontaneidade brasileira, me aproximei e, seguindo-os a passo rápido, exclamei, clamei: "Ginsberg, Ginsberg, por favor, poderia nos conceder uma entrevista sobre o que se passa aqui?" Sem parar, num relance e de canto do olho nos examinou, continuando em frente a passos rápidos. Sem me dar por vencida, rapidamente eu insisti quase gritando: "Por favor, eu sou brasileira e sou amiga dos irmãos Campos de São Paulo". Me lembro muito bem que só ao ouvir "irmãos Campos", ele e seu companheiro deram uma freada e começaram a fazer contato comigo. O resto desta pequena história, que por sinal é ultra-interessante, ficará para um outro dia. Este não foi de maneira nenhuma um episódio isolado que experienciei e constantemente experiencio no exterior, onde o respeito e a curiosidade pela obra dos de Campos se manifesta muitas vezes com ardor e veemência. Como foi o caso, cerca de dois anos atrás, de uma homenagem que lhes foi feita por alguns intelectuais norte-americanos (entre eles a notável crítica de arte e literatura, Marjorie Perloff e o poeta Charles Bernstein) no Museu Guggenheim, em Nova Iorque organizada por Antônio Sérgio Bessa. Quanto a mim, que não sou crítica literária e que nem me atrevo a me chamar de poeta, o que eu poderia dizer de Haroldo de Campos? O que eu poderia comunicar além da minha enorme gratidão? - Gratidão pelo passaporte para todas as grandes mentes vislumbradas graças às suas traduções. - Gratidão pela degustação e maravilhamento com o verbo através do maravilhamento tecido na estrutura precisa, mas delirante, do seu discurso. - Gratidão pela poesia iluminada, prenhe de signos, significados e invenções nos impulsionando sempre a um oceano de descobertas e novas experiências. - Gratidão pela maneira sensual com que nos convida a experienciar em seu texto, o nosso idioma, parte cabal de nossa física manifestação. - Gratidão por todas as histórias nas estórias que nos são lembradas ou encaminhadas via sua vasta cultura e afiada erudição. - E finalmente gratidão pela imanência metafísica que exala de seu texto numa maneira densa e similar à que eu vejo exalar dos grandes clássicos com os quais entrei em contato. Do Haroldo sempre me restará tudo isto, mais a lembrança do poeta farto e falante com quem compartilhei alguns serões em São Paulo e em Nova Iorque. Da pessoa simples, gregária, bem humorada, em constante entusiasmo com o poder criador. Do apaixonado por idéias que testemunhei, numa noite, num pequeno jantar na casa de John Cage, impregnar grandes momentos de tempo com sua fala vibrante e rendida ao gênio do compositor anfitrião. Se a vista se alonga, podemos alcançar o perfil de Haroldo cada vez mais e mais longe: na música de Caetano (CIRCULADÔ); na obra e correspondência com Hélio Oiticica; no impacto em mentes criativas brasileiras como Arnaldo Antunes, Lenora de Barros, Tadeu Jungle, Julinho Bressane, André Vallias, Paulo Miranda, Omar Khouri, para reduzir a longa lista ao mínimo dos mínimos. Mas quem sou eu para apresentar o Haroldo? Haroldo que contou com a reverência de grandes inteligências tais como (só pra citar uns muito poucos) Umberto Eco, John Cage, Nicanor Parra, Octavio Paz, etc. Quem sou eu para realizar tal tarefa quando penso que, na verdade, uma pessoa do gabarito da Marjorie Perloff (outra de suas brilhante admiradoras) seria talvez a melhor indicada? Me resta aqui apenas prestar este depoimento singelo e emocional de uma admiradora saudosa, na esperança de que certas cabeças, que ainda se pertubam com o sucesso e o pique de invenção da sua inteligência e poesia, possam abrir um espaço de maior curiosidade para entender e aceitar a grande contribuição que Haroldo nos legou. E concordar finalmente que, sem a sua existência como escritor e poeta, nossa presença na arena cultural universal seria bem mais pobre. Regina Vater final de inverno em Austin 2004
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