|
A essência lírica na poesia ceciliana |
|
Para
falar de Cecília Meireles, quando se completam 100 anos de seu
nascimento, retomamos outros estudos já realizados sobre sua obra poética,
inclusive nossa Dissertação de Mestrado intitulada O
jogo inquieto o efêmero e o eterno.Uma leitura de Cecília Meireles, cujo
resumo foi publicado em Perspectivas: ensaios de teoria e crítica, editada pelo Departamento de Ciência da Literatura
da Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro. PEQUENA FLOR Como
pequena flor que recebeu unta chuva enorme e
vê passarem as leves borboletas livremente, e
espera que se desprenda o excessivo.úmido orvalho e
nesse tremor e esperança aguarda o mistério transida Também Cecília ‘‘recebeu uma chuva enorme’’, metáfora de todas as perdas em sua vida, desde a morte precoce dos pais, da avó que a criou, da pajem que foi sua companheira de infância, até a morte do primeiro marido, em circunstâncias trágicas. E apesar desta ‘‘chuva enorme" (que contrasta com a ‘‘pequena flor’’ ) tentou e conseguiu preservar o perfume da poesia que dormia ‘‘na seda frágil". Aqui a fragilidade se relaciona à angústia existenciaI presente no coração ‘‘ todo coberto de lágrimas" como o "excessivo orvalho’’ na pele da flor, aprisionada no galho em oposição às leves e livres borboletas e aos ‘‘pássaros acordados sem angústia". Entre o temor do sofrimento e da morte e a esperança da libertação, da vida, " a flor aguarda o mistério transida’’, o mistério da existência que aqui se mescla ao mistério da própria criação poética. Pois a comparação iniciada no primeiro verso só se compIeta nos dois últimos, onde se revela a existência de um ‘‘coração’’ que é capaz de re-cordar (do latim ‘‘cor, cordis’’) no sentido de trazer ‘‘de novo ao coração’’ atribuído por Staiger. O sujeito lírico não se apresenta diretamente, o que contribui para aumentar o não distanciamento, a fusão entre “flor" e “coração”, irmanados no mesmo estado afetivo. Se o coração existe identificado à transida flor, esmorecida de frio, dor e susto, torna-se possível a "re-cordação”, que Staiger considera como a essência do gênero lírico. Assim o coração é capaz de poetar liricamente. Cecília comprova as palavras de Helena Parente Cunha: “Embora a poesia utilize o discursivo, devido ao seu material verbal, sempre reagiu contra a sintaxe lógico-gramatical, tentando romper suas imposições” ( CUNHA, 1975, p. 103 ), num metapoema de O Estudante Empírico. Todas as coisas têm nome. Todos os verbos são atos Com a gramática e o dicionário Mas quando lermos em voz alta o
que escrevemos porque existe um som de voz que modificam os nomes e os
verbos Assim tenho visto. A quinta estrofe introduz elementos novos no metapoerna questionador da gramática: “um som de voz e um eco” e “uma floresta de rumores e água”, os quais lembram o mito de Loreley: Todos os momentos do lirico: música, fluidez.‘um-no-outro”, Brentano resumiu no mito de Loreley e o confiou ao Romantismo tardio. O próprio nome, formado de vogais e líquidas, fonemas sonoros e fluidos já é música, e como tal inspirada por uma tocha perto de Bacharach. Nela tudo, nome, olhos e canto, tem o poder mágico de encantar e fundir. Um gênio do elemento líquido, Lorelev mora na corrente, no murmúrio da floresta, em tudo que desliza, ondula e nada. Todos que a escutam ou vêem-na brilhar no fundo do Reno, sucumbem aos seus encantos. Diante dela não há mais liberdade, nem vontade própria, do mesmo modo que o poeta lírico é o menos livre, entregue, fora de si, levado pela onda de sentimento ( Staiger, 1972, p. 53)
Também Cecília, como Loreley, é musical até no próprio nome, suave, sibilante, e sua poesia desliza, encantando os que se encontram na mesma disposição anímica: Não será este o milagre que a pequena flor transida aguarda: o mistério da criação lírica e de sua recepção pelo leitor ? O mistério da vida quando a existência transforma-se em música? O coração do sujeito lírico é retomado no poema “Viola”: Foi
a palavra quebrada Desta vez, embora prisioneiro, o coração tem “virtude alada”, ou seja, ele pode voar, ultrapassar, transcender os “ferozes golpes de espada” que constituem as limitações impostas pelas contingências da vida humana, E a melhor maneira de superá-las é através da “asa ritmada” da poesia que “tem sangue eterno”, como nos confessa o poeta no poema “Motivo”: ”Sei que canto. E a canção é tudo. / Tem sangue eterno a asa ritmada”, ( Viagem, p.109 ) Símbolo ascensional privilegiado , a “asa” — segundo Gilbert Durand (DURAND, 1973, p. 144-5) representa a purificação, o desejo de elevação e sublimação: “Fui mudando a minha angústia / numa força heróica de asa”. (Viagem, p. 128 ) E é pelo vôc poético que o eu lírico se sublima e eleva e se toma capaz de superar o tempo e a morte, representados pela metáfora do “vento”, num dos poemas de Solombra: Eu sou essa pessoa a quem o vento
chama, Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza: Se a Beleza sonhada é maior que
a vivente, Pelos mundos do vento em meus
cílios guardadas “Agora
és livre, se ainda recordas “Recordar é o termo proposto por Staiger para a falta de distância entre o sujeito e o objeto, para o ‘um-no-outro” lírico, de modo que sc poderia dizer indiferentemente: o poeta recorda a natureza, ou a natureza recorda o poeta”. ( Staiger, 1972, p.60) Contrariando Staiger que diz ser o poeta lírico o menos livre, a recordação é apresentada , neste poema, como fonte de libertação. O próprio ato de poetar liricamente. diluindo-se no que se sente, na música da linguagem (que se aproxima de sua significação) reproduz e se confunde com a fluência do efêmero na anáfora: o vento que chama/ o vento que leva / o vento que rasga. Os versos “Se a Beleza sonhada é maior que a vivente, / dizei-me: não quereis ou não sabeis ser sonho ?” nos remetem a outros: “música dos meus dedos / tecida com tanto sonho”. É preciso sonhar diante da dura realidade humana, pois “a vida só é possível reinventada”. (Vaga Música .p. 239) O poeta “que se balançava em aéreos fios de Efêmero e Eterno” ( Poemas II, p. 1069 ) é definido pela autora como “demiurgo”, ou seja, criatura intermediária entre a natureza divina e a humana: “um Poeta é, na verdade, o amável ou odioso demiurgo, / na intima confissão do sonho / onde os homens esperam uma silenciosa lição de sobrevivência” . (Poemas II, p. 1069) A lição de sobrevivência que Cecília nos ensina é a constante recomposição de si mesma tanto pelo exercício existencial quanto pelo exercício poético: “Todos os dias desfaleço-me e desfaço-me em cinza efêmera : / todos os dias reconstruo minhas edificações, em sonho eternas” . (O Estudante Empírico, p. 1393 ) A aprendizagem do efêmero, iniciada na transparência de espelhos de aço ou de água, leva o eu lírico à indagação do poema “Retrato”: ”— Em que espelho ficou perdida / a minha face ?”. (Viagem, p. 113) A transparência deve ser interpretada aqui , repensando o antigo Mito de Narciso, como fez Ruth Maria Chaves Martins em seu Itinerário de Narciso ( Tese de Livre-Docência defendida na UFF) : “Trans-parência quer dizer: ir além da aparência, ver através da aparência. Transgredir a imagem e o próprio espelho”. ( MARTINS, [s,d] p. 106 ) O parentesco do vocábulo “espelho” com o verbo “especular” reforça a compreensão da relação especular não como um símbolo de fechamento, mas como um espaço amplo, aberto, onde o sujeito poético desvenda e per-corre ” caminhos extravagantes” em busca do sentido da existência: “Para que serve o fio trêmulo / em que rola o meu coração?”. (Viagem,p. 123 ) Nos caminhos abertos pela transparência, o eu lírico vive a aventura da busca, o anseio do absoluto, o namoro com a eternidade e o sonho de ser: “Eu quero a memória acesa: depois da angústia apagada". (Mar Absoluto, p. 282) Muito mais teríamos a dizer sobre a obra ceciliana. Por exemplo: O canto é a possibilidade do vôo, apesar da desintegração e do caos da existência imperfeita e limitada no tempo. Cantar é ascender, levantar-se, transcender. A poesia é a forma máxima de transcendência e a suprema reinvenção da realidade. É a música, o aroma, a estrela, a chama e a flor do espírito que eternizam a obra poética e seu criador: “Mas eu amo o eterno e o efêmero e o queria fazer o efêmero eterno”. (Poemas II, p. 1237 ) Como nos lembra Staiger, "falar sobre versos líricos, julgá-los e fundamentar o julgamento é quase impossível. O julgarnento muito dificilmente alcança o valor do lírico” (STAIGER, 1972, p.50 ). Por isso O sujeito poético desafia o crítico a interpretá-lo:
BIOGRAFIA Escreverás
meu nome com todas as
letras, Repetirás o que
me ouviste, Dirás coisas imaginárias, Somos uma
difícil unidade, Mil fragmentos somos, em jogo misterioso, Novos e antigos todos os dias, E por entre as circunstâncias
fluímos, Diante disto só resta ao crítico-leitor saborear o lirismo fluente dos versos cecilianos e se desculpar por não ser digno de avaliar o seu sabor.
Maria da Graça Cretton BIBLIOGRAFIA 1. CRFTTON, Maria da Graça Aziz, O jogo inquieto entre o efêmero e o eterno. Uma leitura de Cecília Meireles. Perspectivas: ensaios de teoria e crítica, Rio de Janeiro, Faculdade de Letras/UFRJ, vol. 1:115 -130, 1984. 2. CUNHA, Helena Parente, Teoria literária , 1.ed. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1975. Capítulo 4:Gêneros literários. p. 93-130. 3. DURAND, Gílbert. Les estructures anthropologiques de l’ imaginaire, Paris, Border, 1973. 4. MARTINS, Ruth Maria Chaves. O Itinerário de Narciso. Niterói, UFF / Instituto de Letras e Artes [s.d]. Tese de Livre Docência. 5, MEIRELES, Cecília. Poesia completa. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 1994. Todas as citações de poemas cecilianos foram retiradas desta edição. Indicaremos apenas o nome do livro e a página, logo após o trecho citado. 6.
STAIGER, Emil. Conceitos
fundamentais
da poético. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro, 1972.
Maria da Graça Cretton é professora aposentada da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com Mestrado e Doutorado em Teoria Literária, especialista na Obra Poética Ceciliana e em Oficinas Literárias.
|