Carlos Drummond de Andrade 

   
- No meio do caminho

                            por  Domingo Gonzalez Cruz   

 

     Enquanto procuro o ponto de táxi na rodoviária, chego à conclusão de que posso parodiar o poema “No Meio do Caminho”, descobrindo o significado que procurava, para decifrar Itabira, palavra indígena que quer dizer “pedra que brilha”. Substituindo o vocábulo “pe­dra” pelo nome da cidade, deparei com a leitura que não me ocorrera antes:

No meio do caminho tinha Itabira
tinha Itabira no meio do caminho
tinha Itabira
no meio do caminho tinha Itabira.
Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas
nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha Itabira
linha Itabira no meio do caminho
no meio do caminho tinha Itabira.

       Itabira é um brilho agudo na memória do poeta. Quando ele a recupera na imutabilidade do tempo, verifica que ela não saiu do meio do caminho, porque suas retinas fatigadas não podem esquecê-la. No espelho temporal da prosa e da poesia drummondiana, Itabira retorna constante­mente. Ela é a miragem do que ficou perdido na infância.
      O comportamento comunitário modelou a vida do menino, e o homem maduro guardou nas retinas as sensações do mapeamento poético dessa infância longínqua que se desenvolveu de forma assustadora:

[...] ali, mundo não se assemelha nem à natureza nem à cultura, mas a uma terceira coisa entre os dois, uma espécie de grande alucinação, uma monstruosidade geológica, uma dissonância planetária, com sua quantidade astronômica de minério, um volume capaz de “alimentar quinhentos mundos durante quinhentos anos” [...]1

      Itabira era urna cidade estranha, com suas ruas desertas, velhos ilhados no início do século XX, grande número de mortes entre as crianças nos primeiros dias de vida (“o mal dos sete dias”, um tipo de tétano que ameaçava todo recém-nascido), amores proibidos manifestando-se após as três horas da madrugada. Loucos e Fofocas percorriam suas calçadas, enquanto nas janelas quase fechadas olhos ocultos espiavam a vida alheia:

O doido passeia
pela cidade sua loucura mansa.
É reconhecido seu direito
à loucura. Sua profissão.
Entra e come onde quer. Há níqueis
reservados para ele em toda casa.
Torna-se o doido municipal,
respeitável como o Juiz. o coletor,
os negociantes. o vigário.
O doido é sagrado. Mas se endoida
de jogar pedra. vai preso no cubículo
mais tétrico e lodoso da cadeia.

          (“Doido”.
Boitempo)


                                 Casa em Itabira - Foto de Francisco Arraes

     O poder da igreja dominava o comportamento comunitário. O poder político estava nas mãos dos grandes fazendeiros:

Não galope sem razão
nem faça galopar animais soltos
 
no calmo perímetro urbano.
Não faça, oh não faça gritaria a desoras
salvo por motivo justificado.
Não invente batuque ou cateretê
 
que infernize o sono do vizinho.

Não cante ou rez
e alto, noite alta.

ao
velar seu defunto.

Não escale muro de
cemitério.
Não suba nas
árvores das aléias e nos monumentos
 
funerá
rios.

Não lave riem estendo roupa branca

entre
os túmulos.

     (“Proibições”.
Boitempo)

     As mulheres dependiam da liderança dos homens e por isso levavam vida doméstica, muito recatada, namoro rígido, o que implicava seguir como conduta um comportamento moral extremamente rigoroso:

[...] a solteirona e sua janela
a solteirona e seu olhar vazio
a solteirona e seus bandós grisalhos

a
solteirona e seu bandolim

a solteirona e seu noivo-retrato

o
solteirona e seu tempo infinito
a
solteirona e seu travesseiro

                          
ardente, molhado

                          
de soluços.

           (“Vida Vidinha".
Boitempoi

 

     Perder um noivo era cair na boca do povo. Preferências sexuais assumidas publicamente provocavam escândalos na localidade:

O noivo desmanchou o casamento.
Que será da noiva
toma hábito

ou se consagra à renda de bilro para sempre?

Tranca-se ao jeito das viúvas trágicas.

          (“Drama Seco”.
Boitempo}

     Filho de coronel deveria seguir os costumes da época, distanciando-se das classes sociais menos favorecidas. O menino contrariou essa conduta dentro da comunidade, assumindo iniciativas pessoais: carregou sacas de produtos comerciais etc.:

O inglês da Mina é bom freguês.
Secos e molhados finíssi
mos

seguem num vez por mês

rumo da serra onde ele mora.

Inglês invisível, talvez
mais inventado que real,
mas come bem, bebendo bem,
paga melhor. O inglês existe
além do bacon, do pâté
do White Horse que o projetam
no nevoento alto da serra
que um caixeirinho imaginoso
vai compondo, enquanto separa
cada botelha, cada lata

para o grande consumidor?

        (0 inglês da Mina”. Boitempo)

     O menino vivIa realidades imaginárias ou não, que o poeta iria projetar como interpretação da vida e visão de mundo no reino das palavras.
     À primeira vista, Carlos de Paula Andrade aparentava ser um homem rígido; mas, no fundo, ele era uma pessoa boa e compreensiva. Procurava entender as atitudes do filho. A imagem paterna gira dentro dos poemas de Carlos Drummond de Andrade, ao redor destas forças que se complementam:
     1)As mutações do relacionamento: educação tradicional, conflitos de gerações na adolescência, aspirações diferentes de ambas as partes.
     2) Reflexão profunda do poeta sobre o que pai e filho vivenciaram no meio comunitário.
     Que aspectos biográficos ofertaram matéria-prima para que o poeta pudesse colocar em prosa e verso uma análise sincera dessa dualidade existencial? O pai não influiu nos estudos do filho com rigor excessivo:

Meu pai não influiu na minha escolha do curso de farmácia. Apenas me convidou a escolher, deixando a vadiação a que eu me entregava. Preferi farmácia por ser o menor dos cursos, em duração, e um pouco pela sugestão estética dos vasos cheios de anilina, que enfeitavam as farmácias antigas. Depois de concluído o curso, e sentindo que eu não me adaptaria à profissão, ele ainda me propôs custear um curso de direito, que lhe parecia mais adequado ao meu temperamento. Guardo carta dele neste sentido. O velho, aparentemente rígido, era muito legal e de coração grande.2

     O regime educacional da época não dava opção de escolha para os alunos, distanciando a vida afetiva dentro da família:

Fui para colégios internos porque em Itabira não havia colégio de qualquer natureza, e tanto em Belo Horizonte como depois em Friburqo, o internato era o único regime possível.3

     Carlos Drummond contou com o apoio financeiro do pai mesmo depois de casado. E assim continuou até que o filho atingiu a independência econômica.
Carlos de Paula Andrade não impedia o filho de brincar com os meninos pobres:

O grupo escolar era uma escola de democracia, e a gente confraternizava com todo mundo, conforme a simpatia que tivesse pelos colegas ou por qualquer menino.4

     Embora fosse um pouco severo, o Coronel Carlos de Paula Andrade tinha consciência do seu modo simples de ser:

Minha família não era intocável, e meu pai não tinha poderes para prender ninguém. Pelo contrário, um dia, quando vereador, foi ameaçado de prisão por um adversário...5

      Esse incidente, certamente, daria o que pensar ao filho na descoberta diária da figura paterna.
     
E o poeta refletiu sobre mais um aspecto influente em seu imaginário poético:

Havia outras famílias, no município, igualmente importantes, donas de terras, de gado e de tropa, e até de fábricas de tecidos (duas). Os Laqe6, os Marfins da Costa, os Guerra, os Camilo de Oliveira situavam-se em plano igual. Lembre-se ainda que toda essa gente era mais ou menos aparentada, e assim a importância de uma correspondia à importância das outras.7

     As crianças saíam de casa sob rígido controle. Às sete horas da noite estavam de volta. Se jogavam futebol, tinham que beijar a mão do padre sem esquecimentos. O mato, os jambos que um dia teriam o gosto de antigamente, o córrego da Penha, o Cauê, eram motivos de alumbramentos. A infância? Triste.8
    
A criança é um ser lúdico. Torna-se um ser melancólico, se não pode viver esse estado lúdico diariamen­te. E a melancolia mineira, às vezes, encobria a alegria de viver. Ele procurava suas leituras entre as pessoas amigas. O menino inquieto e introspectivo acostumou-se a ler desde cedo à luz de vela, preocupando o pai enérgico e cuidadoso.
A cidade de certa forma expulsava os homens progressistas:

Nesta mínima cidade
os moços são disputados para
ofício de marido.

Não há rapaz que não tenha
uma, duas, vinte noivas
bordando no pensamento

um
enxoval de desejos,

outro enxoval
de esperanças.
Depois
de muito bordar
e
de esperar na janela

maridos de vai-com-o-vento,
as moças, murchando o
luar,

já traçam, de mãos paradas,

sobre
roxas almofadas,

hirtas
grades de convento.

                    
(“Sina”. Boitempo)

    E no meio desses contrastes que dilaceram o ser adulto, o cronista consegue reter no tempo e no espaço as rotinas urbanas que desapareciam junto com os encantamentos e as sensações da infância:

O pico do Cauê, nossa primeira visão do mundo, também era inconsciente, calmo. Na nossa rua apenas passavam as pessoas que iam assistir à chegada das matas no Correio, espetáculo diário e maravilhoso, pelo humorismo que nele sabia pôr o velho agente Fernando Terceiro; as pessoas que iam reconhecer firmas no tabelião Barnabé: e algum vago transeunte, em demanda da Rua de Santana, algum vago moleque, que ia atirar pedras na casa de Didina Guerra (às vezes, eu aderia cinicamente a esse moleque ). Nos dias de júri. a curiosidade das tragédias e das humilhações alheias punha um enxame de criaturas no Fórum, perto de nossa casa: mas nós íamos caçar passarinho ou tomar banho na Prata do Rosário, onde uma bica nos dava a impressão de catarata doméstica, submetida aos nos­sos desejos. Corno foi que a infância passou e nós não vimos? Até hoje interrogo aquele menino que durante quatro anos foi aluno deploravelmente bom do grupo escolar, e não sinto nem aprumar-se, nem enriquecer-se de experiências vitais, nem desprender-se do cenário familiar. No entanto, o menino existiu, sofreu, brigou, amou, desesperou, cresceu.
                                                            (“Vila de Utopia”.
Confissões de Minas)

    Anos mais tarde, Drummond voltou à cidade (em diversas ocasiões) e procurou o trajeto do menino ilhado. Recuperou as sensações mais uma vez, sem evitar os tropeços nas modificações urbanas.

Mas posso assinalar que aquela doce encosta de vale, que é a Penha, não mudou muito, embora tudo em torno mudasse. A estrada para o Pico do Cauê, por onde desfilam caminhões, abriu um sulco vermelho entre as folhas. A água que escorria trêfega e ia formar um delicioso banheiro de meninos está agora cativa de um rego de cimento; mas sua frescura, afirmo-o convicto, e meu irmão José, igualmente nostálgico e forasteiro, o afirma também, é a mesma de 1924, de 1914, pois que, sorvida sobre a relva, operou em nós aquele brusco sortilégio da memória sensual, que um romancista descobriu rio fundo de uma xícara de chá e de um bolo de madalena.
                                                                                       (“Antigo”.
Passeios na Ilha)

     O  trecho denota o estado sensível de quem retorna à terra de origem, após longa ausência. O impulso “imigratório” não matou a saudade, nem poderia, porque Drummond amadureceu estrangeiros horizontes no Rio de Janeiro, sem esquecer as velhas cicatrizes e a Itabira que morava no seu ser. Retornando ao meio itabirano, sabia que encontraria a decomposição causada pela mineração em alta escala e o desgaste acelerado do retrato de uma época desaparecida. Resiste, e deixa renascer o contentamento do reencontro:

E lá está ainda, para conforto de nossos dias adultos, lição de moços desatentos e prova da eternidade natural das coisas puras e humildes, o velho moinho de tábuas, a fazer fubá para sustento dos itabiranos ... Suas tábuas antigas enegrecem ao tempo, e perduram. Não bastam estas notícias? Pois talvez vos possa contar ainda de certa nuvem, ou de um cedro, ou de urna canção trauteada numa velha rua. São verdadeiras notícias, e não saem nos jornais.
                                                                      
(“Antigo”. Passeios na Ilha )

     O itabirano “Imigrante” avalia a ausência ao seu redor. Não pode evitar o sentimento de perda. Repleto de raízes que o ligam para sempre à mãe geográfica, nos mínimos detalhes, talvez insignificantes para quem não deixou a região onde nasceu não esconde sua ternura melancólica. E o que estava submerso, vem à tona. A visão dolorida que o poeta tem de Itabira demonstra como ele ficou confundido com as metamorfoses que ambos sofreram. E todas ocorreram dentro dele:

Tudo foi rápido. Não suportou o choque emotivo com a sua terra, e voltou na persuasão de lhe terem roubado alguma coisa. Era o problema da cidade diferente, ou do homem diferente, este recusando-se a admitIr que houvesse mudado e supondo de boa-fé que mudança fosse exterior e urbana; e a cidade não respondendo, mas impenetrável, mas inflexível, insinuando antes que a mudança devia ser humana e pessoal. Um espelho que não refletisse mais o dono; foi o cristal que se corrompeu ou foi o homem que se tornou invisível ? De volta, na estrada de Santa Bárbara, essas dúvidas surgiam, cruzavam-se, desapareciam, e nenhuma resposta consolava o coração incerto.
                                                                     
(“Vila de Utopia”. Confissões de Minas)

     A visita à cidade natal não conseguiu afastar do poeta seu lado “imigrante”. A leitura simbólica do significado desta palavra é fulminante: quem “imigra” abandona o que tem, não recupera o perdido, e se retorna não encontrará as coisas findas. Conseguirá apenas constatar que elas não deixam morrer o apego à região.

                                                                Domingo Gonzalez Cruz
                                                   
[
In: No meio do caminho tinha Itabira - cap.3, p.47-56] 
                      

Notas

1 CANÇADO, José Maria. Os Sapatos de Orfeu. São Paulo, Página Aberta, 1993, p. 31.
2    Trecho das observações sobre o livro, enviadas por Carlos Drummond de Andrade ao autor.

3   Id.
4   Id.
5   Id.

6 Nesta e noutras citações do autor, respeitou-se a forma por ele empregada.

7 Id.

8 Quando o poeta conversou comigo, em sua residência, no dia 18.08.1984, sobre o significado mais profundo da infância em Itabira, senti que ele estava longe. envolvido pelas recordações. pela percepção sensível daquela fase da vida. O homem adulto e amadurecido avaliava, com distanciamento crítico, aqueles instantes fugidios, intensos, geradores do memorialismo poético tão expressivo em Boitempo.

 

     No meio do caminho tinha Itabira: ensaio poético sobre as raízes itabiranas na obra de Drummond / Domingo Gonzalez Cruz: ilustração Guidacci; fotografias:Francisco Arraes. - Rio de Janeiro; BVZ, 2000. 156p

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