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Enquanto procuro o ponto de táxi na rodoviária, chego à conclusão de que posso parodiar o poema “No Meio do Caminho”, descobrindo o significado que procurava, para decifrar Itabira, palavra indígena que quer dizer “pedra que brilha”. Substituindo o vocábulo “pedra” pelo nome da cidade, deparei com a leitura que não me ocorrera antes: No
meio do caminho tinha Itabira
Itabira é um brilho agudo na memória do
poeta. Quando ele a recupera na imutabilidade do tempo, verifica que ela não
saiu do meio do caminho, porque suas retinas fatigadas não podem esquecê-la.
No espelho temporal da prosa e da poesia drummondiana, Itabira retorna
constantemente. Ela é a miragem do que ficou perdido na infância. [...] ali, mundo não se assemelha nem à natureza nem à cultura, mas a uma terceira coisa entre os dois, uma espécie de grande alucinação, uma monstruosidade geológica, uma dissonância planetária, com sua quantidade astronômica de minério, um volume capaz de “alimentar quinhentos mundos durante quinhentos anos” [...]1 Itabira era urna cidade estranha, com suas ruas desertas, velhos ilhados no início do século XX, grande número de mortes entre as crianças nos primeiros dias de vida (“o mal dos sete dias”, um tipo de tétano que ameaçava todo recém-nascido), amores proibidos manifestando-se após as três horas da madrugada. Loucos e Fofocas percorriam suas calçadas, enquanto nas janelas quase fechadas olhos ocultos espiavam a vida alheia: O
doido passeia
O poder da igreja dominava o comportamento comunitário. O poder político estava nas mãos dos grandes fazendeiros: Não
galope sem razão As mulheres dependiam da liderança dos homens e por isso levavam vida doméstica, muito recatada, namoro rígido, o que implicava seguir como conduta um comportamento moral extremamente rigoroso: [...]
a solteirona e sua
janela
Perder um noivo era cair na boca do povo. Preferências sexuais assumidas publicamente provocavam escândalos na localidade: O
noivo desmanchou o casamento. Filho de coronel deveria seguir os costumes da época, distanciando-se das classes sociais menos favorecidas. O menino contrariou essa conduta dentro da comunidade, assumindo iniciativas pessoais: carregou sacas de produtos comerciais etc.: O
inglês da Mina é bom freguês. O menino
vivIa realidades imaginárias ou não, que o
poeta iria projetar como interpretação da vida e visão de mundo
no reino das palavras. Meu pai não influiu na minha escolha do curso de farmácia. Apenas me convidou a escolher, deixando a vadiação a que eu me entregava. Preferi farmácia por ser o menor dos cursos, em duração, e um pouco pela sugestão estética dos vasos cheios de anilina, que enfeitavam as farmácias antigas. Depois de concluído o curso, e sentindo que eu não me adaptaria à profissão, ele ainda me propôs custear um curso de direito, que lhe parecia mais adequado ao meu temperamento. Guardo carta dele neste sentido. O velho, aparentemente rígido, era muito legal e de coração grande.2 O regime educacional da época não dava opção de escolha para os alunos, distanciando a vida afetiva dentro da família: Fui para colégios internos porque em Itabira não havia colégio de qualquer natureza, e tanto em Belo Horizonte como depois em Friburqo, o internato era o único regime possível.3 Carlos Drummond contou com o
apoio financeiro do pai mesmo depois de casado. E assim continuou até que
o filho atingiu a independência econômica. O grupo escolar era uma escola de democracia, e a gente confraternizava com todo mundo, conforme a simpatia que tivesse pelos colegas ou por qualquer menino.4 Embora fosse um pouco severo, o Coronel Carlos de Paula Andrade tinha consciência do seu modo simples de ser: Minha família não era intocável, e meu pai não tinha poderes para prender ninguém. Pelo contrário, um dia, quando vereador, foi ameaçado de prisão por um adversário...5 Esse incidente, certamente,
daria o que pensar ao filho na descoberta diária da figura paterna. Havia outras famílias, no município, igualmente importantes, donas de terras, de gado e de tropa, e até de fábricas de tecidos (duas). Os Laqe6, os Marfins da Costa, os Guerra, os Camilo de Oliveira situavam-se em plano igual. Lembre-se ainda que toda essa gente era mais ou menos aparentada, e assim a importância de uma correspondia à importância das outras.7 As crianças saíam de
casa sob rígido controle. Às sete horas da noite estavam de volta. Se
jogavam futebol, tinham que beijar a mão do padre sem esquecimentos. O
mato, os jambos que um dia teriam o gosto de antigamente, o córrego da
Penha, o Cauê, eram motivos de alumbramentos. A infância? Triste.8 Nesta
mínima cidade E no meio desses contrastes que dilaceram o ser adulto, o cronista consegue reter no tempo e no espaço as rotinas urbanas que desapareciam junto com os encantamentos e as sensações da infância: O
pico do Cauê, nossa primeira
visão do mundo, também era inconsciente, calmo. Na nossa rua
apenas passavam as pessoas que iam assistir à chegada das matas no
Correio, espetáculo diário e maravilhoso, pelo humorismo que nele sabia
pôr o velho agente Fernando Terceiro; as pessoas que iam reconhecer
firmas no tabelião Barnabé: e algum vago transeunte,
em demanda da Rua de Santana, algum vago moleque, que ia atirar pedras na casa de Didina Guerra (às vezes, eu aderia cinicamente a esse moleque ). Nos dias
de júri. a curiosidade das tragédias e das humilhações alheias punha um enxame
de criaturas no Fórum, perto de nossa casa: mas nós íamos caçar passarinho
ou tomar banho na Prata do Rosário,
onde uma bica nos dava a impressão de catarata doméstica, submetida aos
nossos desejos. Corno foi que
a infância
passou e nós não vimos? Até
hoje interrogo aquele menino que durante quatro anos foi aluno deploravelmente
bom do grupo escolar, e não sinto nem
aprumar-se, nem enriquecer-se de experiências vitais, nem desprender-se
do cenário familiar. No entanto, o menino existiu, sofreu, brigou,
amou, desesperou, cresceu. Anos mais tarde, Drummond voltou à cidade (em diversas ocasiões) e procurou o trajeto do menino ilhado. Recuperou as sensações mais uma vez, sem evitar os tropeços nas modificações urbanas. Mas
posso assinalar que aquela doce encosta de vale, que
é a Penha, não mudou muito, embora
tudo em torno mudasse. A estrada para o Pico do Cauê, por onde desfilam
caminhões, abriu um sulco vermelho entre as folhas. A água que escorria trêfega e ia formar um delicioso banheiro
de meninos está agora cativa de um rego de cimento; mas sua
frescura, afirmo-o convicto, e meu irmão José, igualmente
nostálgico e forasteiro, o afirma também, é a mesma de 1924, de 1914,
pois que, sorvida sobre
a relva, operou em nós aquele brusco sortilégio
da memória sensual, que um romancista descobriu rio fundo
de uma xícara de chá e de um bolo de madalena. O trecho denota o estado sensível de quem retorna à terra de origem, após longa ausência. O impulso “imigratório” não matou a saudade, nem poderia, porque Drummond amadureceu estrangeiros horizontes no Rio de Janeiro, sem esquecer as velhas cicatrizes e a Itabira que morava no seu ser. Retornando ao meio itabirano, sabia que encontraria a decomposição causada pela mineração em alta escala e o desgaste acelerado do retrato de uma época desaparecida. Resiste, e deixa renascer o contentamento do reencontro: E
lá está
ainda, para conforto de nossos dias
adultos, lição de moços desatentos e prova da eternidade natural
das coisas puras e humildes, o
velho moinho de tábuas, a fazer fubá
para sustento dos itabiranos
... Suas tábuas antigas
enegrecem ao tempo, e perduram. Não bastam estas notícias? Pois talvez
vos possa contar ainda de certa nuvem, ou de um cedro, ou de urna canção
trauteada numa velha rua. São verdadeiras notícias, e não saem nos
jornais. O itabirano “Imigrante” avalia a ausência ao seu redor. Não pode evitar o sentimento de perda. Repleto de raízes que o ligam para sempre à mãe geográfica, nos mínimos detalhes, talvez insignificantes para quem não deixou a região onde nasceu – não esconde sua ternura melancólica. E o que estava submerso, vem à tona. A visão dolorida que o poeta tem de Itabira demonstra como ele ficou confundido com as metamorfoses que ambos sofreram. E todas ocorreram dentro dele: Tudo foi rápido. Não suportou o choque emotivo com a sua terra, e
voltou na persuasão de lhe terem roubado alguma coisa. Era o problema da
cidade diferente, ou do homem diferente, este recusando-se a admitIr que houvesse mudado e
supondo de boa-fé que mudança fosse exterior e urbana; e a cidade não
respondendo, mas
impenetrável, mas inflexível, insinuando antes que a mudança devia
ser humana e pessoal. Um espelho que não refletisse mais o dono; foi o
cristal que se corrompeu ou foi o homem que se tornou invisível ?
De volta, na estrada de Santa Bárbara, essas
dúvidas
surgiam, cruzavam-se, desapareciam, e nenhuma resposta consolava o coração
incerto. A visita à cidade natal não conseguiu afastar do poeta seu lado “imigrante”. A leitura simbólica do significado desta palavra é fulminante: quem “imigra” abandona o que tem, não recupera o perdido, e se retorna não encontrará as coisas findas. Conseguirá apenas constatar que elas não deixam morrer o apego à região.
Domingo Gonzalez Cruz Notas 1
CANÇADO, José Maria. Os Sapatos de
Orfeu. São Paulo, Página Aberta, 1993, p. 31. |
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No meio do caminho tinha Itabira: ensaio poético sobre as raízes itabiranas na obra de Drummond / Domingo Gonzalez Cruz: ilustração Guidacci; fotografias:Francisco Arraes. - Rio de Janeiro; BVZ, 2000. 156p BVZ
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