Poemas de João Cabral de Melo Neto 

 

                                           


 

Homenagem a Picasso

O esquadro disfarça o eclipse
que os homens não querem ver.
Não há música aparentemente
nos violinos fechados.
Apenas os recortes dos jornais diários
acenam para mim como o juízo final.

(Pedra do Sono, 1940/1941)

 

 




Volta a Pernambuco

Contemplando a maré baixa
nos mangues do Tijipió
lembro a baía de Dublin
que daqui já me lembrou.

Em meio à bacia negra
desta maré quando em cio, 
eis a Albufera, Valência,
onde o Recife me surgiu.

As janelas do cais da Aurora,
olhos compridos, vadios,
incansáveis, como em Chelsea,
vêem rio substituir rio.

E essas várzeas de Tiuma
com seus estendais de cana
vêm devolver-me os trigais
de Guadalajara, Espanha.
Mas as lajes da cidade  
não em devolvem só uma,  
nem foi uma só cidade  
que me lembrou destas ruas.  

As cidades se parecem  
nas pedras do calçamento  
das ruas artérias regando  
faces de vário cimento,  

Por onde iguais procissões  
do trabalho, sem andor,  
vão levar o seu produto  
aos mercados do suor.  

Todas lembravam o Recife,  
este em todas se situa,  
em todas em que é um crime  
para o povo estar na rua,  

Em todas em que esse crime,  
traço comum que surpreendo,  
pôs nódoas de vida humana  
nas pedras do pavimento.  

(Paisagens com figuras, 1954/1955)  

 

 




Coisas de Cabeceira, Sevilha

Diversas coisas se alinham na memória  
numa prateleira com o rótulo: Sevilha.  
Coisas, se na origem apenas expressões  
de ciganos dali; mas claras e concisas  
a um ponto de se considerarem em coisas,  
bem concretas, em suas formas nítidas. 

                        2  

Algumas delas, e fora as já contadas:  
não esparramarse, fazer na dose certa;  

por derecho
, fazer qualquer quefazer,  
e o do ser, com a incorrupção da reta;  

con nervio
, dar a tensão ao que se faz  
da corda de arco e a retensão da seta;  

pies claros
, qualidade de quem dança,  
se bem pontuada a linguagem da perna.  
(Coisas de cabeceira somam:exponerse,  
fazer no extremo, onde o risco começa.)  

(A Educação pela Pedra, 1962/1965)  

 

 



Retrato de Andaluzia

Estatura pequena e nítida  
das cidades de onde ela era:  
daquele justo para o abraço  
que é de Cádiz, onde nascera,  
e de Sevilha, onde vivia  
e se dizia, mas não era:  
cidades que ainda se podem  
abraçar de uma vez, completas,  
e que dão certo estar-se dentro,  
àquele que as habita ou versa,  
a entrega inteira, feminina,  
e sensual ou sexual, de sesta.  

(Museu de Tudo, 1966/1974)  

 

 



Sevilha em Casa  

 

Tenho Sevilha em minha casa.  
Não sou eu que está chez Sevilha.  
É Sevilha em mim, minha sala.  
Sevilha e tudo o que ela afia.  

Sevilha veio a Pernambuco  
porque Aloísio lhe dizia  
que o Capibaribe e o Guadalquivir  
são de uma só maçonaria.  

Eis que agora Sevilha cobra  
onde a irmandade que haveria:  
faço vir as pressas ao Porto  
Sevilhana além de Sevilha.  

Sevilhana que além do Atlântico  
vivia o trópico na sombra  
fugindo os sóis Copacabana  
traz grossas cortinas de lona  

(Sevilha Andando, 1987/1993)  

 

 



O Arenal de Sevilha

 

Já nada resta do Arenal  
de que contou Lope de Vega.  
A Torre do Ouro é sem ouro  
senão na cúpula amarela.  

Já não mais as frotas das Índias,  
e esta hoje se diz América;  
nem a multidão de mercado  
que se armava chegando elas.  

Já Riconete e Cortadilho  
dormem no cárcere dos clássicos  
e é ponte mesmo, de concreto,  
a antiga Ponte de Barcos.  

Urbanizaram num Passeio  
o formigueiro que antes era;  
só, do outro lado do rio,  
ainda Triana e suas janelas.   

(Andando Sevilha, 1987/1989)