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Não me lembro se conheci Vinicius em certa noite no Antonio's ou
se asilado na casa de Cecil Thiré (onde fui parar casualmente), egresso de
uma de suas inumeráveis separações. Mas foi em 1968, com certeza, e,
como era de sou feitio, Vinicius me disse palavras amáveis. Dois anos
mais tarde, também por acaso, presenciei o ato final de outra separação
tumultuada, na casa de Nana Caymmi, onde o poeta tomou uma coça de sua
ex-amada, diante de meus olhos juvenis. Marx tem uma frase brilhante sobra
as repetições da História, ciranda de dramas, farsas, etc. Naquela
altura do campeonato, eu ainda não tinha lido Marx
e não fui capaz definir
o gênero literário do episódio.
Em 1973, me lembro como se fosse hoje, fui
a uma festa em sua casa na Gávea, na rua Frederico Eyer, com meu parceiro Egberto Gismonti e Dulce Nunes.
Tive impressões contraditórias. De um
lado, fiquei fascinado com
o charme do poeta e a atmosfera vagamente feliniana da festa; de outro,
meio paradoxalmente, achei que esse Vinicius de Moraes era um cara obeso e
decadente, assim corno seus poemas, incompatíveis, ao menos em parte, com
meu marxismo-hedônico ou hedonismo marxista da ocasião – pois, durante
o dia, Machado Penumbra da nova geração, eu escrevia poemas e letras
obscuramente bem-intencionadas para o Egberto e, durante a noite, batia
ponto
na esbórnia.
Para completar, ainda na contraditória
festa do parágrafo anterior, surpreendi uma troca de olhares carregada de
cumplicidade. Otelo de mim mesmo, decidi investigar e descobri que
Vinicius, aIguns anos antes, tinha namorado
a minha namorada. Senti ciúme retrospectivo. Mas descobri, também, que tínhamos
certas afinidades eletivas.
No ano seguinte, Vinicius andou fazendo umas canções
com Eduardo Souto Neto (aliás, os dois fizeram ama valsinha tchury-tchury)
e ficou encantado com uma música que eu e o Eduardo tínhamos composto em
69, chamada Choro de Nada. A letra era toda rimada em ada,
com exceção de um dos últimos versos, Vinicius queria trocar o tal
verso e incluir o chorinho no seu novo disco com Toquinho. Eu não
concordei.
Em 1975, fui passar uma temporada na Itália, trabalhando com Astor
Piazzolla, Um belo dia recebi uma carta na casa do Astor, na Via dei
Coronari, Era Eduardo, cheio de dedos, comunicando, com sua habitual
delicadeza, a gravação do choro. Logicamente, Vinicius tinha trocado o
meu verso branco. 2 X O.
Mas, depois: de minha volta ao Brasil abdiquei das últimas restrições
morais e musicais ao poeta. Em suma, apaixonei-me irremediavelmente.
Tomamos alguns porres na casa de amigos comuns. Falamos muita besteira.
Lembro de um réveillon de 73 ou
74, estilo milagre econômico, entre o horror político e o arrebatamento
lisérgico. As hard-drugs começavam
a pintar no Rio de Janeiro. Lá pelas 9 horas da manhã, debaixo de um
calor senegalesco, restavam umas
poucas pessoas na liça. Vinicius sugeriu que cantássemos. Eu peguei o
violão e puxei uma das mais lindas canções do poeta, que soava meio irônica
cm pleno verão carioca: “Por que toda manhã me traz / 0 mesmo
sol sem esplendor?” Quase morremos de rir.
Assim, birita vai, birita vem, fui me desfazendo aos poucos de minha tendência
parricida, espécie de fatalismo
psicológico com que as novas gerações, por amor à auto–afirmação,
brindam as anteriores. Mas, para falar a verdade, o ranço dessa herança
bastarda continuou embaraçando sutilmente, quanta incompetência!, as
minhas relações com Vinicius. Ficamos cúmplices, mas não ficamos íntimos.
Andei freqüentando a sua casa na Gávea, com ou sem pretexto. Para fazer
uma antologia (abortada) de suas letras de música, por encomenda de Gastão
de Holanda; para mostrar poemas; para entrevistá-lo; para conversar
fiado. Duas vezes o poeta me recebeu em seu banho de imersão matinal,
estirado na banheira, completamente nu, Parecia um patrício da velha Roma
lmperial. Sêneca, por exemplo.
Fui visitá-lo pela última vez no princípio de 1980. Vinicius tinha
ficado doente. Foi hidrocefalia, se não me engano. Agora começava a se
recuperar. Tomava aulas de violão com Wanda Sá, andava entusiasmado com
a perspectiva de ir a um encontro internacional de poetas, não me lembro
onde, para o qual era convidado de honra. Fiquei deslumbrado com o seu
pique.
Em fins de junho, Vinicius e Gilda Queirós Mattoso apareceram numa
pequena reunião produzida por Marilda Pedroso. Eu e minha mulher tínhamos
ficado grávidos naquele dia, e o poeta, com sua mania de médico amador,
nos deu vários conselhos. 10 quilos mais magro, ele parecia consigo mesmo
nas fotos da década de 40. Todos ficamos emocionados. Após a sua saída
de convalescente, à meia-noite, cantamos e bebemos em sua intenção.
Poucos dias mais tarde, no caminho para o cemitério São João Batista,
eu pensava na estranheza da presença/ausência de Vinicius, entranhado no
fundo da história dos afetos do Brasil e, ao mesmo tempo, seqüestrado da
tarde calorenta do Rio de Janeiro. Foi um enterro estranho. Não havia o
menor sinal de desespero e, ao contrário da expectativa do poeta,
revelada no poema A Hora Íntima, ninguém
propôs solenemente a construção do seu pedestal. Quase sorrindo, as
pessoas cantaram canções de despedida: “Se todos fossem iguais a você!
Que maravilha viver”. O rosto emergindo entre as flores, Vinicius, filho
de Oxalá, era um morto sem metafísica. Mas, por via das dúvidas, me
lembrei de uma reza forte para saudar sua partida no barco da Grande Mãe:
“Notre Dame de L’Amour, iluminai vossos vitrais, levantai âncora ó galera gótica dos meus martírios vossos santos aos remos o Corcunda no
mais alto mastro Jesus na torre de comando e buscai serenamente o grande
caudal no qual me abandono náufrago coberto de flores em demanda do
abismo claro e indevassável da morte, Saravá!”
Geraldo
Carneiro
[ In:
Vinicius de Moraes - cap.7, p.92-97]
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